O capitão de uma geração
Rodrigo Capita se despede das quadras depois de 14 anos no Magnus, onde conquistou títulos, se tornou o jogador que mais vestiu a camisa do clube e ajudou a consolidar Sorocaba entre as potências do futsal
A sirene ainda não tocou pela última vez, mas Rodrigo Capita já começou a se despedir. Não apenas das quadras, mas da rotina construída ao longo de mais de duas décadas no futsal profissional. Aos 42 anos, o camisa 14 do Magnus decidiu encerrar a carreira ainda como protagonista, disputando títulos e ocupando um lugar que poucos atletas conseguem manter até o fim: o de referência dentro e fora da quadra.
Quando entrar pela última vez na Arena Sorocaba para enfrentar o Tubarão, pela Liga Nacional de Futsal (LNF) — hoje (24), às 20h30 —, o capitão deixará para trás uma coleção de títulos, recordes e quase mil gols. A história que termina em Sorocaba, porém, começou muito longe dos ginásios lotados.
Antes de se tornar um dos principais nomes do futsal brasileiro, Rodrigo era um jovem de Campinas dividido entre o trabalho e um sonho que parecia distante. Durante anos, conciliou o expediente em um escritório de contabilidade com os treinamentos. "Eu tinha o sonho de viver do esporte. Trabalhava no escritório de contabilidade e continuava sonhando", recorda.
Foi então que surgiu a oportunidade de defender Araçatuba. Não havia estabilidade. Apenas a chance de tentar.
O começo
Os primeiros passos no futsal profissional passaram longe do glamour. Em Araçatuba, Capita enfrentou atrasos salariais e dificuldades financeiras. O clube encerrou as atividades após a participação na Copa TVT. A derrota por 2 a 1 para Santa Fé do Sul, porém, acabou mudando sua trajetória.
Enquanto chorava atrás do gol, recebeu um convite inesperado do presidente da equipe adversária. "O presidente do Santa Fé veio até mim, estendeu a mão e disse que eu iria jogar lá", conta.
Em Santa Fé do Sul, encontrou uma estrutura melhor, disputou competições estaduais e nacionais e passou a traçar novos objetivos. "Eu nunca fui um cara acomodado. Sempre que batia uma meta, procurava outra", afirma.
Na sequência, veio o convite do Carlos Barbosa, um dos clubes mais tradicionais do futsal mundial. No Rio Grande do Sul, Rodrigo conquistou títulos nacionais, se consolidou entre os principais fixos do país e passou a integrar a seleção brasileira. Disputou Copas do Mundo e conquistou o título mundial de 2012, na Tailândia. Também ficou conhecido pela potência dos chutes, característica que lhe rendeu o apelido de "Torpedo Humano".
Mesmo cercado por conquistas, manteve a mesma filosofia. "Cheguei à seleção e queria jogar uma Copa do Mundo. Depois queria ser campeão do mundo. Aí apareceu Sorocaba."
Sorocaba
Em 2014, surgiu um convite diferente. O então Brasil Kirin iniciava um projeto ambicioso que reunia grandes nomes do futsal, entre eles Falcão. Capita tinha estabilidade em Carlos Barbosa, mas decidiu recomeçar. "Quando Fellipe Drommond e Falcão me ligaram, pensei que queria jogar mais perto da minha família, que mora em Campinas. Era um projeto muito audacioso", lembra.
A tradicional camisa 2 já tinha dono. Restou o número 14, sugerido pelo supervisor Reinaldo Simões por lembrar o uniforme utilizado na seleção brasileira. O número acabaria se transformando em sua marca registrada. Pouco tempo depois, Sorocaba ganhava aquele que se tornaria o maior símbolo da história do clube.
Quando chegou à cidade, o projeto ainda buscava espaço entre as principais forças do futsal nacional. Capita assumiu rapidamente a braçadeira de capitão e ajudou a construir a identidade vencedora da equipe.
Durante 14 temporadas, viu o projeto mudar de nome, conquistar títulos inéditos e transformar Sorocaba em uma das maiores referências do futsal mundial. "Quando cheguei, a gente tinha o sonho de ser campeão da Liga Nacional. Depois sonhava com a Libertadores. Depois com o Mundial. As coisas foram acontecendo e Sorocaba virou uma chave muito grande", comenta.
Vieram títulos da Liga Nacional, Libertadores, Mundial de Clubes, Copa do Brasil, Supercopa e diversos Campeonatos Paulistas. Nesse período, Capita ultrapassou a marca de 600 partidas pelo Magnus, marcou mais de 450 gols e se tornou o jogador que mais vezes vestiu a camisa do clube.
Rodrigo sempre tratou qualquer partida da mesma forma. Não importava se a Arena Sorocaba estava lotada ou com poucas pessoas nas arquibancadas. "Eu nunca escolhi jogo. Se tivesse cinco pessoas no ginásio ou ele estivesse lotado, eu fazia a mesma coisa. Meu trabalho era respeitar quem saiu de casa para me assistir", ressalta.
Essa postura fortaleceu sua identificação com a torcida. Capita se tornou o principal rosto do Magnus dentro e fora da quadra. Ao falar sobre a despedida, não destacou troféus nem medalhas. Preferiu lembrar do som da Arena Sorocaba. "Vou sentir falta do barulho do ginásio. Da torcida esperando alguma coisa acontecer. Fazer um gol aqui... eu desejo essa sensação para qualquer atleta. É uma das maiores emoções que alguém pode viver no esporte."
O Capita
Ao mesmo tempo em que colecionava títulos, Rodrigo também construía uma imagem diferente da maioria dos atletas. Se antes o futsal concentrava sua popularidade quase exclusivamente em Falcão, Sorocaba passou a apresentar uma nova forma de se comunicar com o público.
A virada aconteceu durante a pandemia de Covid-19, quando o Magnus abriu os bastidores para uma série produzida pelo influenciador Fred Bruno. Vestiário, treinos e rotina passaram a fazer parte do dia a dia dos torcedores.
No início, havia receio de que tanta exposição pudesse atrapalhar o desempenho da equipe. "A comissão técnica pensou: 'Abrir o vestiário pesa'. Quando a série terminou, veio a pandemia, e aquele conteúdo virou praticamente o único material esportivo inédito. Quando voltamos a jogar, éramos chamados de 'time do YouTube'. Mas a gente ganhou. E, quando você ganha, tudo passa a fazer sentido."
O sucesso transformou a iniciativa em referência. Outros clubes seguiram o mesmo caminho, enquanto Capita percebeu que precisava estar onde o público consumia conteúdo. Foi para o Instagram, YouTube e TikTok. Sem deixar de atuar nas quadras, passou a comentar partidas, produzir análises e conversar diretamente com os torcedores. "Falavam que eu queria aparecer. Eu queria mesmo. Como eu ia falar com um menino que passa o dia no TikTok se eu não estivesse lá? Eu precisava ir onde ele estava", justifica.
A estratégia ampliou sua influência. Se tornou comentarista, participou dos principais programas esportivos e, em 2026, alcançou um feito raro: um atleta de futsal comentando uma Copa do Mundo de futebol pela TV Globo. "Quebrei uma barreira. Eu queria essa oportunidade e fui atrás dela."
Mesmo construindo uma nova carreira, nunca abandonou um objetivo: ampliar o alcance do futsal. "Meu sonho é ver o futsal voltar à televisão, voltar aos domingos de manhã. Vou continuar brigando por isso", destaca.
Ao longo de 14 anos, Sorocaba deixou de ser apenas a cidade onde Capita jogava. Se tornou o lugar onde construiu o maior legado de sua carreira.
O legado
Durante a coletiva de despedida, na manhã de terça-feira (21), Capita foi questionado sobre o que gostaria que uma criança ouvisse ao perguntar quem foi o jogador retratado em uma foto na Arena Sorocaba. A resposta não citou títulos nem recordes. "Quero que falem que fui o cara que fez o primeiro gol desta Arena (se referindo à Arena Sorocaba)."
A frase resume uma relação construída ao longo de 14 temporadas. Mais do que marcar o primeiro gol do ginásio, Capita participou de praticamente todos os momentos decisivos da história do Magnus. Foi capitão durante a consolidação do projeto, levantou títulos nacionais, continentais e mundiais e acompanhou diferentes gerações de atletas.
Ao explicar por que permaneceu tanto tempo em Sorocaba, repetiu uma palavra diversas vezes: respeito. Ao clube, ao treinador, à torcida e aos companheiros. Sobre a relação com Ricardinho (o técnico do Magnus), destacou que nunca tiveram uma discussão séria em sete anos. "Se o capitão ficar contra o treinador, o restante do grupo também fica. Sempre pensei no que era melhor para o time", ensina.
A mesma postura apareceu ao falar de Lucas Gomes, hoje uma das referências da equipe. "Hoje eu brinco que o Lucas é o titular. Eu sou o cara que dá apoio para ele. Mas dou apoio fazendo gol também."
Embora a carreira nas quadras esteja chegando ao fim, a ligação com o futsal permanece. Há cerca de seis anos, Capita iniciou uma trajetória na comunicação esportiva. Primeiro comentando futsal, depois futebol, até chegar à Copa do Mundo de 2026 como comentarista da TV Globo. "Eu queria muito essa oportunidade. Estudei, trabalhei, corri atrás. Agora quero ir cada vez mais longe."
Os próximos objetivos incluem comentar Olimpíadas e novas Copas do Mundo, mas sem deixar o futsal de lado. "Vou falar de futebol, mas o futsal vai continuar no meu coração. Todo dia vou lutar por ele.
A família
Nos minutos finais da coletiva, a emoção tomou conta. Ao olhar para a esposa, Regina, os filhos Pedro e Francisco, e os pais, Capita agradeceu pelos sacrifícios feitos ao longo da carreira. Lembrou das viagens, das dificuldades financeiras da infância e reconheceu o apoio da esposa durante todos esses anos. "Um atleta de alto rendimento acaba sendo egoísta. Quem está ao lado vive essa carreira junto. Só tenho que agradecer."
Ao ser questionado sobre o último apito, admitiu que ainda não sabe como será. "Quando tocar a sirene, será a última chance de fazer um gol. A última chance de correr para comemorar com a torcida. Sinceramente... eu não sei como vai ser."
A despedida
Ao longo de 14 anos, Rodrigo Capita deixou de ser apenas um reforço do Magnus. Se tornou o principal símbolo do projeto que transformou Sorocaba em uma das maiores referências do futsal mundial. Foi na cidade que conquistou grande parte de seus títulos, marcou centenas de gols, consolidou sua liderança e ajudou a construir uma identidade vencedora que ultrapassou as quadras.
Também foi dali que passou a falar para milhões de pessoas pela televisão e pelas redes sociais, se tornando uma das principais vozes da modalidade no país. Capita conquistou 22 títulos oficiais com a camisa do Magnus e é o único jogador presente em todas as conquistas da história do clube.
Na Arena Sorocaba encerrará oficialmente a carreira iniciada por um jovem contador de Campinas que sonhava viver do esporte. Quando a sirene tocar, chegará ao fim uma das trajetórias mais marcantes do futsal brasileiro. O jogador deixará as quadras, mas permanecerá na história do clube, na memória da torcida e na identidade de uma cidade que aprendeu a se reconhecer em seu capitão.
E, quando uma criança perguntar quem foi aquele jogador retratado nas fotos levantando taças, a resposta provavelmente será a que o próprio Capita espera deixar. O capitão que marcou o primeiro gol da Arena Sorocaba. O líder que ajudou a transformar um projeto em potência mundial. E o atleta que fez da cidade a maior obra de sua carreira.