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Uniso: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”

Dom Júlio Endi Akamine, o arcebispo metropolitano de Sorocaba, no estúdio de TV da Uniso. Foto: divulgação Uniso

A citação extraída do capítulo de número 16 do Evangelho segundo Marcos, o segundo livro do Novo Testamento da Bíblia católica, pode ser considerada uma das grandes missões da Igreja — difundir tão amplamente quanto possível o conjunto de ensinamentos de Jesus Cristo — e o estopim de todos os processos comunicacionais católicos desde então. Assim vem sendo feito, há mais séculos do que é possível contar em duas mãos, por meio de mídias diversas: da tradição oral dos sermões ao suporte do papel, das escrituras manuscritas dos monges aos livros impressos em série, das ondas de rádio às telas dos televisores.

Especialmente dessas últimas mídias — as transmissões radiofônicas e televisivas — tratou um decreto do Vaticano chamado Sacrosanctum Concilium, resultante do Concílio Vaticano II, que se reuniu entre 1962 e 1965 para definir uma série de questões pertinentes aos rumos que tomaria a Igreja Católica — entre elas as formas de comunicação com os fiéis, que hoje somam mais de dois bilhões de pessoas em todo o mundo.

“Há pelo menos 50 anos, desde a publicação desses documentos sobre a reforma litúrgica, a Igreja vem se apropriando das tecnologias e dos meios de comunicação, atualizando-se em relação a este momento midiático contemporâneo”, diz Luiz Guilherme Leite Amaral, que se propôs a estudar em seu Mestrado em Comunicação e Cultura, na Uniso, como as mídias foram incorporadas e adaptadas pelas religiões, especialmente pela Igreja Católica por meio das missas televisivas. “Não foi um estudo de recepção — ou seja, que se preocupasse em entender como as pessoas percebem as missas pela TV —, mas sim um estudo sobre a utilização das mídias como fenômeno comunicacional. Não tratamos dos dogmas, mas da maneira como a Igreja dissemina sua mensagem. Nossa proposta foi mostrar como a  Ecologia da Comunicação opera dentro da Igreja Católica e quais são as implicações desse processo.”

Luiz Guilherme Leite Amaral, em Malahide, Dublin  Foto: Arquivo pessoal

Para saber mais: a ecologia da comunicação

Normalmente, no imaginário das pessoas, o termo ecologia está associado ao estudo da natureza (a relação de animais e plantas com o ambiente e as outras formas de vida). Essa é a concepção original, do zoólogo Ernst Haeckel (1834 – 1919), que definiu a ecologia como a ciência que estuda as relações dos organismos com o mundo exterior que os rodeia, compreendendo todas as condições para a vida. Pode-se dizer que o conceito de ecologia da comunicação empresta essa definição original, aplicando-a ao ambiente comunicacional, para entender como se comportam todos os agentes que se comunicam e as devidas relações entre eles.

“Primeiramente”, explica Amaral, “procuramos entender quais foram os processos de adaptação da Igreja Católica por meio das atas dos Concílios — que tratam das questões teológicas e das mudanças da sociedade — e das Encíclicas — que expressam as vontades e a visão de mundo do próprio Papa —, até chegar ao ponto em que uma missa pudesse passar a ser transmitida pela televisão. Já a segunda etapa da pesquisa dá conta de entender e explicar as minúcias da transformação de uma missa presencial numa missa televisionada.”

Para começar a compreender o processo de adaptação de uma mídia a outra, Amaral se baseou na teoria das mídias de Harry Pross, que as divide em primárias (a comunicação oral), secundárias (a comunicação escrita) e terciárias (a comunicação por meios eletrônicos, como o rádio, o telefone ou a TV, que recebem sinais codificados). O autor se lembra de que a mídia primária foi o estopim do processo de arrebanhar fiéis, como diz a própria passagem de Marcos 16:15 que dá título a esta reportagem. Mas a religião logo se valeu, também, das mídias secundárias, por meio dos registros escritos.

“Houve um determinado momento em que falar se tornou insuficiente; precisou-se registrar em algum tipo de superfície — parede, papel, etc. Depois, foi preciso ampliar o alcance da informação que estava registrada em uma mídia secundária. Livros podem viajar pelo mundo, cartazes podem ser colados em paredes e muros podem ser pintados, mas ainda era necessário mais: o rádio, a TV. Viabilizar esses dispositivos significou exercer uma influência em escala incomensurável. No Brasil e no mundo, a cada esquina, por qualquer caminho, em cada lugar onde haja quatro paredes, existe uma televisão”, enfatiza Amaral.

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Hoje, uma missa televisionada, segundo o autor, se trata mais de um processo transmidiático — ou seja, que opera por meio de várias mídias — do que da supressão de uma mídia em si: “Percebemos quantos suportes são utilizados durante o rito. Primordialmente, a missa está sendo transmitida pela televisão (mídia terciária), porém o padre fala (mídia primária) e as pessoas respondem e cantam (novamente, mídia primária); a voz é projetada por microfones e por sistemas de áudio (mídia terciária) e, durante todo o ritual, o padre utiliza a Bíblia (mídia secundária) para atestar o que diz. Não estamos tratando de uma substituição de formas de comunicação; a missa pela televisão é somada à já tradicional missa na igreja, com o padre passando o sermão e todos os outros rituais.”

Esse é um assunto que suscita, também, discussões entre os fiéis. Para Dom Júlio Endi Akamine, o arcebispo metropolitano de Sorocaba, é evidente que a missa televisiva não tem o mesmo peso da presencial. “A presença não é dispensável”, diz ele. “A liturgia — ou seja, o conjunto de práticas do culto religioso — inclui também a presença, não só com o corpo, mas com o coração. O fato de se reunir para celebrar a eucaristia já é um evento de fé, um fato teológico, porque a assembleia litúrgica — essa congregação de fiéis — não é realizada pelo desejo das pessoas de se reunir; a assembleia é sempre uma convocação. Contudo, é lógico que a participação através dos meios de comunicação social pode ser uma ajuda para os idosos, os enfermos e aqueles que cuidam dessas pessoas, que não têm a possibilidade de ir pessoalmente à missa. Assim como nesses casos é justificada a comunhão em casa, justifica-se que eles assistam à missa pela televisão.” Mas faz uma ressalva: “A presença da Igreja nos meios de comunicação é justificável e também é boa, desde que nós respeitemos a natureza da liturgia: nós não estamos fazendo um show, o padre não é um animador de auditório e as pessoas não são fãs, elas são fiéis. Dito isso, vale lembrar que a tradição não se trata apenas da conservação do que é antigo, mas também da transmissão de todo o conhecimento de uma geração à outra.”

Texto elaborado com base na dissertação “A ecologia da comunicação católica: do sermão à missa de televisão”, do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva e aprovada em 23 de fevereiro de 2016. Acesse a pesquisa aqui.

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