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Uniso Ciência: Pesquisa analisa mensagens do grupo Anonymous no Brasil

Estudo busca entender como a violência se configura nos vídeos divulgados pelo grupo de cyberativismo
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Antonio Souza e a máscara de Guy Fawkes imortalizada pela HQ V for Vendetta. Foto: Paulo Ribeiro

TEXTO: GUILHERME PROFETA

Olhos vazados sob sobrancelhas arqueadas. Na boca, a sugestão de um sorriso imóvel, emoldurado por bigode, cavanhaque e bochechas rosadas. A máscara, representando o insurgente Guy Fawkes — com certa licença poética, uma espécie de Tiradentes da Inglaterra —, foi imortalizada pela graphic novel V for Vendetta, da década de 1980, de autoria de Alan Moore e David Loyd. Você certamente já a viu em protestos diversos: de Occupy Wall Street à Primavera Árabe e às manifestações brasileiras de junho de 2013. Em vídeos na internet, em que ela é vestida por ciberativistas não identificados, vestidos de capuz preto e falando por meio de uma voz robótica, a máscara — ou a ideia por trás dela — identifica um grupo que dela se apropriou. Grupo esse que é conhecido simplesmente como Anonymous (em português, Anônimo).

Em sua pesquisa de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso, Antonio Souza procurou compreender como a violência se configura nos vídeos divulgados online por esse grupo e quais sentidos essa violência produz. “A relevância desta pesquisa reside justamente na importância do debate sobre a relação entre comunicação e violência, uma tensão que é característica — até sintomática — desta época em que vivemos”, defende o pesquisador.

Souza se apóia no sociólogo francês Michel Maffesoli para tratar dos laços sociais contemporâneos, que não mais se baseiam necessariamente na territorialidade, mas no sentir comum. Esses laços que geram as “tribos” contemporâneas, segundo o autor, extrapolam os velhos contratos sociais tradicionais. “O espaço simbólico engendra um novo tipo de territorialidade não mais ligada ao espaço físico. Posso não ter nada a ver com meu vizinho, mas ter uma camaradagem muito grande pelo amigo que mora em outro país e com o qual converso por causa da paixão por um mesmo estilo de música”, exemplifica Souza. O Anonymous é outro exemplo desse tipo de organização social contemporânea, que tem como espaço de mobilização a internet. No caso do Anonymous, o pesquisador acredita que a amálgama que une os seus participantes — ou, em suas palavras, “o cimento social que unifica a tribo em questão” ou “a linha que costura o tecido social desde a organização dos sujeitos até a produção de mensagens divulgadas na rede mundial” — é a violência.

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“Manifestações populares são acusadas de violentas. Mas, sob o ponto de vista do sociólogo esloveno Slavoj Žižek, essas manifestações são na verdade reações a violências constantemente sofridas, invisíveis e normatizadas, que são chamadas por outros nomes”, informa Souza. “No caso do Anonymous, a violência opera como um vetor de sociabilidade. A violência sistêmica — a violência do exercício do poder político e econômico — mobiliza hackers, que usam seus conhecimentos para combatê-la. A violência exterior, vinda de um ‘inimigo comum’, serve para reunir pessoas que resolveram agir, tomar uma atitude. Esse desejo de ‘justiça’, de não mais tolerar passivamente, vem de uma indignação, de uma raiva, de uma frustração, do desejo de se posicionar, que se manifesta numa violência exercida coletivamente — uma violência rebelde, uma resistência —, sob um símbolo, um mito contemporâneo, cuja entidade audiovisual dá meios expressivos a todos aqueles que se unem à causa.”

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Na etapa de análise, dentre as opções que na época estavam disponíveis no canal do grupo Anonymous no Brasil, na plataforma de compartilhamento de vídeos YouTube, Souza optou por dois vídeos: #OBoicoteaCopa e #OpOlympicHackingCup. Ambos foram escolhidos por um critério temático, referindo-se às reações do grupo a dois eventos de relevância internacional sediados no Brasil, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. O contexto político de cada um desses vídeos também foi levado em consideração: em 2014, ainda se sentia o impacto das Jornadas de Junho de 2013, a Operação Lava Jato começava a ganhar espaço nos noticiários e crescia a oposição ao governo da presidente Dilma Roussef; em 2016, o Brasil passava por uma intensa crise econômica e política, especialmente enquanto transitava o processo de impeachment da então presidente. Ambos os eventos, tanto a Copa quanto as Olimpíadas, enfrentaram grande resistência por parte da população.

“Em ambos os vídeos, o Anonymous busca expor os efeitos da violência sistêmica, mostrando os danos causados à sociedade brasileira. A exposição dessa violência revela outro aspecto do grupo: eles sempre buscam trazer ao olhar público as ‘verdades secretas’. O Anonymous, como se fosse um detentor desse conhecimento oculto, toma para si a responsabilidade de compartilhá-lo”, expõe Souza. Em sua análise, ele notou que a relação entre o que é visível e o que é invisível é muito presente no discurso do grupo — a começar pela própria questão da identidade preservada. Além disso, ele considera também digno de nota a forma como o grupo se apropria de elementos que remetem ao jornalismo televisivo e à propaganda em suas mensagens. “Em suma, os vídeos são a materialização do discurso do grupo, da ideia que o sustenta articulada em linguagem audiovisual. É uma forma de resistência que emprega uma violência contra a violência sistêmica a que Žižek se refere”, conclui o pesquisador.

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Para a professora doutora Luciana Coutinho Pagliarini de Souza, orientadora da pesquisa, os resultados do trabalho revelam, por meio da análise semiótica verbo-visual, diferentes formas de violência que se digladiam. Mas ela deixa uma ressalva: “Não há juízo de valor nesse embate, nem se busca justificar qualquer forma de violência. A ideia foi mapeá-la, de modo a refletir sobre o potencial de sentidos inscrito na materialidade dos vídeos produzidos pelos brasileiros do Anonymous.”

Com base na dissertação “Comunicação e violência: uma jornada pela linguagem audiovisual do Anonymous”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação da professora doutora Luciana Coutinho Pagliarini de Souza e aprovada em 20 de fevereiro de 2017.

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