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Tratamento para queimados desenvolvido na Uniso apresenta resultados promissores

Todos os anos, 300 mil pessoas morrem em todo o mundo devido a queimaduras causadas pelo fogo, sem contar os outros tipos, como as queimaduras químicas ou aquelas causadas por radiação ou eletricidade. Só no Brasil, são cerca de 1 milhão de acidentes a cada ano. Além de ser uma ocorrência frequente, as queimaduras configuram um sério problema de saúde pública, pela gravidade em potencial e pelo risco de sequelas — incluindo limitações funcionais e desordens psicossociais. “É uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo”, destaca a pesquisadora Lilian Vieira Vaz, cuja pesquisa de mestrado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), teve como objetivo testar a eficácia e a segurança de um hidrogel acrescido de sulfadiazina de prata, um antibiótico amplamente utilizado para o tratamento de queimados.

Lilian Vieira Vaz pesquisou o tema no Mestrado em Ciências Farmacêuticas. Foto: Paulo Ribeiro

Usar prata para combater queimaduras não é exatamente uma novidade; na verdade, é algo que vem acontecendo há pelo menos três mil anos. “O uso da prata como profilático e no tratamento para a infecção e outras doenças remonta a 1000 a.C., quando os antigos gregos e romanos a usavam como desinfetante. Na medicina moderna, a prata começou a ser utilizada para o tratamento de queimaduras na forma de solução de nitrato de prata, na década de 1960. A terapia tópica de queimaduras envolvendo a aplicação de soluções de compostos ou de sais de prata foi um marco importante devido à redução das taxas de sepsia e mortalidade”, conta Vaz. O uso da sulfadiazina de prata, especificamente a substância com a qual a pesquisadora trabalhou em seu estudo, data de 1968, quando um pesquisador da Universidade de Columbia, nos EUA, obteve o composto pela primeira vez, por meio da associação de nitrato de prata e sulfadiazina.

Fórmula estrutural da sulfadiazina de prata. Macroscopicamente, ela se apresenta como um pó branco, inodoro e hidrossolúvel.

Microscopicamente, o que acontece é que a prata libera íons quando é exposta a um meio aquoso, como uma ferida de queimadura. Esses íons se ligam, então, às membranas citoplasmáticas das células das bactérias, rompendo-as e causando sua morte. Mas, para obter tal efeito, é preciso garantir que a prata (neste caso, a sulfadiazina de prata) esteja em contato com a ferida, para que possa agir no local e impedir a infecção. E é aí que entram os hidrogéis.

“Hidrogéis são formas farmacêuticas — ou seja, formas de apresentação de um medicamento para ser consumido pelo paciente — caracterizadas por uma estrutura formada por redes tridimensionais de polímeros que, em contato com a água, intumescem e mantêm sua integridade”, define a pesquisadora. No caso das feridas tópicas, como é o caso das queimaduras, os hidrogéis apresentam uma série de vantagens: eles são biocompatíveis; mantêm a ferida hidratada e não exigem a troca constante de curativos, o que é bom por facilitar a cicatrização; e apresentam comportamento viscoelástico, facilitando a aplicação em diferentes partes do corpo.

Mas existe um longo caminho até que um hidrogel chegue ao consumidor final como uma forma farmacêutica viável. Antes disso, é preciso testar quão eficaz e quão seguro é esse hidrogel, antes de transferir o conhecimento para a produção em larga escala. Foi isso que Vaz fez em sua pesquisa, considerando um hidrogel de álcool polivinílico (PVA) acrescido de sulfadiazina de prata, desenvolvido previamente em outros estudos da Uniso, na linha de pesquisa “Sistemas de liberação modificada de fármacos antimicrobianos”.

“Os testes executados, chamados ensaios de estabilidade, servem para garantir a integridade química, física, microbiológica, terapêutica e toxicológica do fármaco e da forma farmacêutica”, ela explica. “Também têm como propósito fornecer evidências de como a qualidade de um produto varia com o tempo sob influência de fatores ambientais, estabelecendo o tempo de validade do produto e as condições adequadas de armazenamento.”

O hidrogel considerado nesses testes, à base de PVA e acrescido de 1% de sulfadiazina de prata, apresentou liberação imediata e constante do princípio ativo, com comprovada atividade antimicrobiana. Devido às suas propriedades mecânicas, confirmou-se também a viabilidade de aplicação em partes diversas do corpo humano. Quanto à validade, recomendou-se a utilização do produto em até 60 dias após o preparo, ainda que seja necessário um estudo de estabilidade de longa duração antes de uma futura viabilização comercial.

“De modo geral, pode-se afirmar que o produto elaborado, quando comparado a outros curativos à base de prata apresentou resultados promissores para seu emprego como curativo em peles infeccionadas devido à simplicidade de seus componentes, à facilidade de preparo e ao custo reduzido”, conclui a pesquisadora.

Para saber mais: Diferentes graus de queimaduras

Queimaduras de primeiro grau – normalmente são causadas pela exposição prolongada ao sol. Afetam apenas a camada mais externa da pele, a epiderme, e costumam cicatrizar em uma semana.

Queimaduras de segundo grau – atingem a segunda camada da pele, a derme, e resultam tanto no extravasamento de líquidos quanto no acúmulo desse líquido sob a epiderme, na forma de bolhas.

Queimaduras de terceiro grau – afetam todas as camadas da pele, até o tecido subcutâneo. Com os tecidos destruídos, a regeneração se torna impossível, o que exige o tratamento por meio de enxertos.

Com base na dissertação “Características de hidrogel de PVA (álcool polivinílico) com sulfadiazina de prata em ensaio de estabilidade acelerada”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Uniso, com orientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila e aprovada em 30 de novembro de 2016. A veiculação pública da dissertação se dará somente após a publicação dos resultados na forma de artigos científicos.

Texto: Guilherme Profeta

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