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Podem as redes sociais aproximar o cidadão do processo político?

Professora Maria Alzira, a mestranda Tágides e os doutorandos Roger e
Marcus Vinícius, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação que tentam
responder à pergunta

Reportagem: Guilherme Profeta

Há pouco mais de uma década, as mídias sociais vêm mudando gradativamente a maneira como as pessoas se comunicam, consomem e formam suas opiniões. Seu uso, incipiente no começo deste século, tomou proporções exacerbadas, principalmente a partir de 2007, quando surgiu o primeiro smartphone — nome dado aos aparelhos que combinam as funcionalidades de um celular às de um computador pessoal, sendo o acesso à internet a principal delas. No Brasil, por exemplo, o número de smartphones já ultrapassa em cerca de 30 milhões o número de habitantes; são 240 milhões de aparelhos, dos quais mais de 90% têm acesso não só à internet, mas às redes sociais. Dessas, o Facebook é a mais influente, aglutinando mais de dois bilhões de usuários ativos em todo o mundo.

Não demorou para que se percebesse que essas redes têm todo o potencial de fazer mais do que apenas permitir o compartilhamento de fotos e postagens engraçadinhas. Já em 2010, com a eclosão dos movimentos que ficariam conhecidos como a Primavera Árabe, percebeu-se que as redes sociais, por permitirem a organização de grandes grupos de pessoas unidas por um ideal comum, podiam ter um papel determinante na ascensão e na queda de regimes inteiros. Mais recentemente, muito se discutiu sobre a influência de usuários coordenados no Facebook no rumo das eleições estadunidenses, e, se já não estava, ficou bastante claro que a esfera política é uma das muitas em que o uso das redes sociais pode impactar nossas vidas.

“Continuamente, diferentes tecnologias e novas informações estão impactando o cotidiano da sociedade. Isso exige uma rápida atualização da competência midiática pelos estudantes e pelos cidadãos.” A afirmação é de um grupo de pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Educação da Uniso, que integram o GPESTI – Grupo de Pesquisa em Educação Superior, Tecnologia e Inovação (www.tec.wiki.br) — Marcus Vinicius B. Souza, Roger dos Santos e Tágides Renata de Mello, sob a orientação da professora doutora Maria Alzira Pimenta. Recentemente, eles apresentaram em Portugal um artigo sobre o conteúdo das redes sociais e a cidadania.

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Nessa pesquisa, os autores consideraram como objeto de análise o Facebook e o YouTube, e selecionaram as cinco fanpages e os cinco canais mais acessados num dado período de tempo. O requisito principal? Deveriam abordar a política como tema central. Já em relação ao recorte temporal, optaram por 26 dias compreendidos entre 17 de abril e 12 de maio de 2016, período em que tramitava no Senado o processo de impeachment da então presidente Dilma Roussef e que, segundo os pesquisadores, foi um dos mais relevantes para a mudança de rumos na política brasileira.

No Facebook, as cinco páginas mais acessadas sobre o tema eram as dos políticos Adilson Barroso (na época com 4.740.014 de fãs), Aécio Neves (4.391.541), Marco Feliciano (3.997.451), Jair Messias Bolsonaro (3.905.777) e Dilma Roussef (3.193.092). O conteúdo dessas páginas foi, então, categorizado em “opinativo”, “questionador”, “propositivo” e “organizativo”. Na época, o conteúdo postado pelo então deputado federal Jair Bolsonaro já liderava o ranking nas categorias questionador e propositivo, com 17 e 15 postagens no Facebook, respectivamente. Já em relação ao YouTube, Bolsonaro tinha o canal mais acessado.

“Verificava-se, em 2016, uma presença significativa do conteúdo político nas redes sociais brasileiras, o que já dava indícios de poder representar um grande diferencial nas candidaturas políticas”, ressaltam os pesquisadores. É particularmente importante lembrar que esses dados são do primeiro semestre de 2016, mais de dois anos antes de o atual presidente ter registrado sua candidatura — o registro oficial só aconteceria em agosto de 2018. Em 28 de outubro, Bolsonaro seria eleito o 38º presidente do Brasil, com mais de 55% dos votos, sendo maioria em 16 das 27 unidades federativas brasileiras, depois de uma campanha que, a exemplo de suas postagens nas redes sociais, apostou num tom bastante questionador. Inclusive, o próximo passo do estudo empreendido pelos pesquisadores é aplicar a mesma metodologia ao conteúdo da campanha presidencial, nos dois turnos, para avaliar empiricamente algumas tendências.

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Para os autores, é importante que as redes sociais sejam utilizadas, também, como espaço de educação para a cidadania: “Ainda que se deseje um Estado gerido de forma mais coerente e ética, que atenda as necessidades da população, o que ainda se tem na prática por parte de grande parte do público adulto e eleitor é um distanciamento do processo político. Nota-se a necessidade de propor e questionar situações, mas o desejável é que os representantes do povo tenham, também, a formação para a cidadania como um horizonte.” Para os pesquisadores, as redes sociais podem sim aproximar o cidadão do processo político, desde que o conteúdo seja pautado no pensamento crítico e numa cultura de cidadania. “Ser cidadão”, eles defendem, “é muito mais do que ‘habitar a cidade’. Faz-se necessário o entendimento e, principalmente, a prática do que é ser um cidadão consciente e ativo, participativo dos caminhos do Estado.”

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Para saber mais: O que é competência midiática?

“Competência midiática”, explicam os autores, “é a capacidade de acessar, analisar e avaliar de modo crítico os diferentes aspectos da mídia e seus conteúdos. Ser competente significa ter uma capacidade estratégica para combinar conhecimentos, habilidades e atitudes no planejamento e na execução de ações. A competência midiática pode desenvolver a autonomia pessoal de cidadãos e cidadãs, bem como o seu compromisso social e cultural. Além disso, ter competência midiática nos faz ‘prossumidores’ — como dizem os acadêmicos Joan Ferrés e Alejandro Piscitelli, que embasam os estudos do grupo —, ou seja, além de críticos do que é veiculado, produtores de novos conteúdos para as mídias.” A Uniso faz parte da Red Alfamed, uma rede de universidades presente em oito países, dedicada à pesquisa sobre competência midiática. As atividades incluem um diagnóstico dessas competências numa população formada por estudantes, professores e comunicadores em diferentes contextos socioculturais brasileiros.

 

Com base no artigo “O conteúdo das redes sociais e a formação para cidadania”, publicado nos anais do II Congresso Internacional sobre Competência Midiática da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACOM/UFJF), em 2017, de autoria dos doutorandos Marcus Vinicius B. Souza e Roger dos Santos, e da mestranda Tágides Renata de Mello, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba (Uniso). O trabalho foi apresentado, também, no IV Congresso de Literacia, Media e Cidadania, em Portugal. Acesse a pesquisa aqui.

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