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Os perigos ocultos nas propagandas de medicamentos

Com slogans criativos, as propagandas da indústria farmacêutica prometem acabar imediatamente com a dor, com o resfriado, com a cólica… Mas não falam nada sobre os efeitos colaterais do remédio, sobre os perigos da automedicação e os problemas causados pelo uso excessivo de medicamentos.

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A pesquisadora Andréia Maria Lins Martins encontrou situações de incentivo à automedicação no estudo. Foto: Paulo Ribeiro

Preocupada com os impactos dessa divulgação, a pesquisadora Andréia Maria Lins Martins decidiu estudar a propaganda da indústria farmacêutica na internet, em sua dissertação no Mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (Uniso). “A pesquisa constatou que a indústria farmacêutica tem uma intensa estratégia de marketing com o objetivo de elevar o consumo de medicamentos pela população. Pela lógica capitalista, a medicalização, por meio da propaganda, pode ser considerada como mercadoria, cujo objetivo é gerar lucros”, resume a pesquisadora, que concluiu seu trabalho em 2017, sob a orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva.

A escolha do tema da pesquisa não foi por acaso. Martins trabalha há mais de uma década para a indústria farmacêutica, atuando, entre outras coisas, com o desenvolvimento de estratégias de vendas e marketing. “Desde o início, algumas questões me incomodavam, como o impacto que a comunicação causava em médicos e pacientes”, explica.

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Uma indústria bilionária

 A projeção do mercado farmacêutico brasileiro para 2020 é faturar 47,9 bilhões de dólares. Uma das grandes apostas deste segmento, que vem crescendo a uma taxa de 8,5% ao ano, é o comércio eletrônico. Por isso mesmo, a pesquisa de Martins focou na propaganda feita na internet, especificamente no site UOL, entre 20 de setembro de 2016 e 20 de janeiro de 2017. Foram analisadas seis imagens de propagandas: Vitasay, Alivium, Epocler, Atroveran, Benegrip Multi e Doril.

Na propaganda da Vitasay Stress, por exemplo, a pesquisadora constata que o anúncio “não informa ao consumidor os efeitos adversos, mas apenas o incentiva ao consumo sem receituário”, o que demonstra que não foram respeitadas as normas da Anvisa. Já nos anúncios de remédio contra dores, como o Alivium, o incentivo à automedicação é visível e não é explicado, como na TV, que esses medicamentos são contraindicados em caso de suspeita de dengue, pois podem levar o paciente a óbito.

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O anúncio do Atroveran, segundo Martins, inverte a ordem correta de diagnóstico. “Inicialmente, sugere ao usuário a automedicação e só então, caso não ocorra o esperado, procurar um médico para realizar um diagnóstico”, explica. Ao agir com essa estratégia de marketing, diz Martins, a indústria farmacêutica viola as determinações da Anvisa, que proíbem o estímulo do uso indiscriminado de medicamentos. “A pesquisa mostra que a qualidade da propaganda dirigida aos usuários da internet não é satisfatória, pois não há o cumprimento das leis que regulamentam o segmento. Outro aspecto relevante é que, considerando os Critérios Éticos para Promoção de Medicamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), na propaganda não são informadas as precauções e a posologia”, destaca.

A solução para os problemas apontados na pesquisa, segundo Martins, é uma fiscalização mais efetiva, realizada pelos órgãos competentes. “Para uma sociedade com tendência a automedicar-se, a reflexão apresentada na pesquisa pode ser um ‘comprimido’ à solução do problema”, conclui.

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Texto elaborado com base na dissertação “Comunicação e Consumo: uma abordagem da propaganda de medicamentos na internet”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Paulo Celso da Silva e aprovada em 24 de agosto de 2017. A dissertação pode ser acessada pelo link.

Texto: Marcel Stefano

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