Uniso Ciência

Os impactos da pandemia na produção e comunicação científica

Se tem uma área que foi fortemente atingida pela pandemia foi a da Comunicação da Ciência

“O mundo não será o mesmo depois dessa pandemia do novo coronavírus”. Essa foi uma das frases mais repetidas dentro de casa, nos veículos de comunicação ou nas conversas ao telefone nesses últimos meses.

Essa máxima passou a ser reverberada logo após a Covid-19 atingir os países com sua ágil velocidade de contágio, trazendo o risco de morte e causando impacto tremendo no dia a dia das pessoas.

Junto à mudança drástica da rotina da população, o que se viu em vários países foram as severas alterações em setores da sociedade, inclusive na Ciência e na comunidade científica.

As pesquisadoras Yoko Oshima Franco e Valquíria Miwa H. Yoshida: o distanciamento alterou práticas de pesquisa. Foto: Paulo Ribeiro

Formada em Farmácia, com mestrado, doutorado e pós-doutorado, a professora Yoko Oshima Franco, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), diz que os pesquisadores tiveram de sair dos laboratórios e ficar em casa.

Com as pesquisas já finalizadas, isso foi benéfico, pois agora há tempo para escrever os artigos e remeter para as futuras publicações.

Franco conta que, com a proibição de aglomerações, outra mudança na Ciência foi a forma como acontecem as defesas de trabalho acadêmico, que passaram a ser feitas eletronicamente, por meio das ferramentas que fizeram sucesso nessa pandemia, como Zoom, Meet (Google) ou outros programas similares.

Também professora do Mestrado e Doutorado em Ciências Farmacêuticas da Uniso, a professora doutora Valquíria Miwa Hanai Yoshida lembra que normalmente os pesquisadores têm muitas funções acumuladas, principalmente atividades administrativas, e que, com esse “tempo em casa”, esse outro lado administrativo — que também faz parte da Ciência — terá um reflexo positivo.

Ela disse que os pesquisadores encontraram mais tempo para escrever novos projetos e para colocar em dia esse lado mais burocrático.

“A vantagem está sendo que futuras publicações podem ser fomentadas neste momento, devido a esse tempo que temos para escrever novos projetos. Com este tempo a mais em casa, podemos elaborar melhor esses projetos.”

A pesquisadora diz que, se por um lado a pandemia trouxe celeridade na publicação de artigos focados no tema coronavírus, por outro, impactou negativamente na parte prática das pesquisas desenvolvidas nos laboratórios.

Segundo ela, a pandemia trouxe avanços para certas áreas e retrocesso para outras. Ela lembra que algumas atividades práticas dos cientistas estão totalmente paradas com a pandemia.

Publicação precipitada

Yoshida diz que vários cientistas têm publicado seus estudos de maneira precipitada como forma de ampliar a informação para outros países e tentar colaborar com a descoberta de uma solução para a Covid-19.

Ela vê com bons olhos toda essa agilidade na publicação em benefício do conhecimento.

“Toda colaboração e todo conhecimento que forem úteis e aplicáveis de forma mais imediata devem ser disponibilizados. Até por isso as grandes revistas consideraram a publicaçãosem a revisão por pares, devido à aplicação desse conhecimento para compartilhar algo que seja importante neste momento.”

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A professora Yoshida diz que outras questões que também fazem parte da produção científica foram afetadas pela pandemia.

“Sou da Ciência Aplicada e utilizo laboratórios para o desenvolvimento dos projetos. Tenho projetos em laboratório em que a parte prática está parada. Basicamente, o que nós estamos fazendo é manter vivas as nossas culturas de células, mas a parte de compras, desenvolvimentos e testes, aquela coisa diária dentro do laboratório, isso vai fazer com que o resultado seja publicado tardiamente, porque o projeto atrasa se você não consegue fazer a parte prática”, afirma.

Para o pesquisador Fernando de Sá Del Fiol, que é formado em Farmácia e é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas e Pró-Reitor de Graduação e Assuntos Estudantis da Uniso, a pandemia levou a um crescimento astronômico da publicação científica, principalmente na área da Saúde.

Ele ressalta, porém, que, apesar de a Covid-19 ter despertado muito o interesse, muito do que tem sido publicado “é mais do mesmo”. “O assunto está vendendo”, resume.

Publicação de pré-prints

Se tem uma área que foi fortemente atingida pela pandemia foi a da Comunicação da Ciência, mais especificamente na publicação de pré-prints.

Na área acadêmica, um artigo científico produzido por um pesquisador deve passar pela revisão de pares, antes de ser publicado por revistas temáticas e conceituadas.

Acontece assim: o cientista escreve um artigo sobre suas descobertas e o remete a uma revista de sua área. Ali, o artigo é lido por pareceristas que vão analisar o conteúdo e relevância do material antes de publicá-lo. Quanto mais conceituada é a revista, mais exigente é essa análise.

Com a pandemia, o que se viu foi o atropelamento dessas fases. Os canais de comunicação publicaram, muitas vezes, artigos que nem revisados foram. São os chamados pré-prints.

Professor Fernando Del Fiol, sobre o aumento do acesso a conteúdos científicos: “É uma questão de sobrevivência. As pessoas estão ávidas por informação”.

Para o professor Del Fiol, isso foi um retrocesso.

“No afã de querer publicar, tem artigos que são publicados em formato de carta que não dizem nada. Temos que questionar: o que agregou isso? Não agregou absolutamente em nada! E a revista tem interesse em publicar pois são revistas pagas que recebem por isso. E a revista que publicou também aumenta o impacto dela. Tem um furor científico de publicação neste momento que é quantitativo, mas qualitativo não. Não deu tempo, né?! Não tem elementos para publicar qualitativamente agora. Então, as pessoas estão publicando muita coisa com pouco conteúdo.”

Importância da Comunicação Científica

Mas, para Del Fiol, se por um lado o que se viu no começo da pandemia foi a publicação de dados com pouca relevância, por outro lado, a Covid-19 fez crescer o “consumo” de conteúdo científico por parte do público não especializado.

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Ele diz que a comunicação científica e a classe científica ganham com tudo isso.

“As pessoas estão falando hoje em dia de fase clínica e fase pré-clínica. É linguajar de pesquisador. Mas, obviamente, que é uma questão de sobrevivência. As pessoas estão ávidas por informação.”

Ele comenta que, apesar disso, há um certo risco, pelo consumo de informações sem base científica. “Porque essa avidez pela informação faz com que se publique qualquer coisa e que se consuma qualquer coisa.”

Mas diz que esse consumo de informação científica, mesmo que às vezes equivocado é melhor do que se as pessoas não tivessem nenhum contato com conteúdos de qualidade.

Isso porque o cidadão vai adquirindo informação e ampliando o seu conhecimento, e quando for ler sobre aquele tema, já terá um cabedal maior de informação.

“É uma mudança de tudo: de paradigmas, de comportamento, de comunicação”, diz Del Fiol.

O professor diz que, após o início da pandemia, as pessoas estão interessadas pelo assunto.

“Querem saber como é que as coisas funcionam hoje. Qual o trâmite para colocar uma medicação no mercado, porque uma vacina demora tanto, porque as pessoas já não podem ser vacinadas.”

Del Fiol diz que esse consumo por conteúdo científico é bom. “As pessoas estão invadindo esse espaço da comunicação científica. E isso é muito bom.”

Ciência econômica em evidência

Para o economista, professor de Economia e coordenador do curso de Economia da Uniso, Renato Vaz Garcia, a pandemia levou as pessoas a se aproximarem da Ciência Econômica.

Ele prevê que a pandemia por si só deve gerar diversos estudos na área Econômica de análise da situação em cenários de crise extrema.

 

“O fato de a gente ter passado de uma situação normal para uma situação de pandemia, em um período relativamente curto, provou que a gente não estava economicamente – em termos sociais — preparada para isso.”

Para o professor Renato Vaz Garcia, pandemia possibilitou maior aproximação entre a sociedade e o mundo acadêmico (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Garcia diz que a área que mais tem se destacado nas Ciências Econômicas, nessa época de Covid-19, é a área de Estatística, com o aparecimento diário de gráficos nos veículos de comunicação e redes sociais, na tentativa de apresentar previsões sobre a doença.

“O fato é que muitas pessoas que não tinham olhar para uma pesquisa acadêmica, a partir da pandemia, passaram a ter um pouco isso. E só de a pessoa olhar um gráfico e passar a analisar já é um avanço tremendo, numa economia e numa população que tem um acesso muito básico a esse tipo de informação”, acredita.

“A Academia se descolou muito da sociedade. Não é só culpa da Academia, mas a sociedade parece estar em outro mundo em relação ao acadêmico. E trazer esses dois no mesmo ambiente ajuda muito”.

Garcia acredita que o foco da Economia na busca por crescimento deve ser revisto ou melhor discutido no debate econômico no mundo pós-Covid-19, principalmente nas economias desenvolvidas.

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“Quanto mais o foco é crescimento, mais ficamos reféns e limitados por pandemias, meio ambiente, e outras adversidades. O crescimento tem limite. Não dá pra crescer sempre. Economia sem crescimento não é sinônimo de economia pobre e com desemprego. O foco deve ser mais voltado para assuntos referentes ao desenvolvimento econômico”, acredita.

Patentes

Com o primado da vida em evidência, uma mudança que se pôde observar nessa pandemia foi a publicação de informação científica numa sinergia ampla de diversas áreas e de países, de forma colaborativa, em busca de um resultado ágil e, quem sabe, salvador.

Com isso, algumas pesquisas foram publicadas sem a preocupação de estar liberando informações que poderiam gerar patentes.

Garcia acredita que, com a normalização da situação, esse cenário de deixar de lado a questão financeira em prol do benefício social da Ciência deve cair e voltar às velhas práticas, mas com algumas alterações.

“Ainda vai prevalecer o lado financista, em relação a um lado social, mas não que isso não signifique que o modelo de fazer as coisas não tenha de mudar.”

Segundo ele, há casos em que um pedido de patente leva tanto tempo que quando a patente sai, a transformação do cenário econômico já se deu e aquilo que era novo foi ultrapassado por algo mais novo.

O pesquisador Del Fiol também se diz pouco “cético” em relação a essa liberação de informação sem pretensões.

“Não acredito muito em altruísmo. Acredito que essas pessoas que estão liberando informações, se eles não estão ganhando financeiramente, estão ganhando fama. Se aquele cientista Didier Raoult conseguir provar que a cloroquina com azitromicina funciona, ele vai ganhar o Nobel de medicina e vai ser lembrado, vai ser o Alexander Fleming da modernidade. Ele está nas redes sociais, está publicando a toda hora. Mas acho que depois que voltarmos à normalidade, acho que os padrões financeiros e de patentes voltam a ser o que eram.”

Ciência vai melhorar

A pesquisadora Yoshida acha que o impacto da pandemia vai trazer mudanças positivas para a Ciência. “A Ciência é feita por pessoas. Todo ser humano tem a oportunidade de repensar suas prioridades, de repensar como vinha agindo. E acho que as pessoas começam a distribuir melhor seu tempo, fazendo melhor uso desses recursos. Por exemplo: a reunião precisa ser presencial? É essencial que seja presencial? Isso pode mudar o modo como conduzimos nossas equipes.”

Para Del Fiol, certamente, o mundo não vai ser o mesmo. “As pessoas vão valorizar mais a Ciência, vão valorizar mais os pesquisadores”, acredita. (Texto: Marcel Stefano)

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