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Estudo da Uniso avalia mudanças no ensino da Medicina

É com esses dois modelos, o tradicional e as metodologias ativas, que a educação médica convive hoje no Brasil

É possível que você não saiba, mas a forma como nossos médicos aprendem seu ofício vem passando por transformações nas últimas décadas, tanto no Brasil quanto no mundo. Na Universidade de Sorocaba (Uniso), no Programa de Pós-Graduação em Educação, a médica endocrinologista Maria Valéria Pavan foi uma das pesquisadoras preocupadas em compreender melhor esse cenário de transição entre dois modelos de ensino. Numa parceria entre a Uniso e a Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) do câmpus de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ela avaliou, em sua pesquisa de doutorado, os determinantes externos e internos da reforma curricular pela qual passou o curso de Medicina da instituição, assim como a percepção dos docentes sobre as mudanças desencadeadas pela reforma.

É sempre bom conhecer um pouquinho de História: naturalmente, este momento que vivemos não é a primeira fase de mudanças pela qual o ensino da Medicina passou desde que os princípios do diagnóstico, do tratamento e da ética médica começaram a ser desenvolvidos lá atrás – na verdade, há mais de 2.400 anos – por Hipócrates, na antiga Grécia. No grande hiato da Idade Média, seus preceitos foram esquecidos (uma vez que as moléstias costumavam ser atribuídas simplesmente a uma vontade divina sobre a qual o homem tinha pouco ou nenhum controle). Mas, no século X, o ensino médico voltou a ser uma preocupação na Europa. Aqueles antigos escritos de Hipócrates, antes deixados de lado, voltaram a ser revisitados. Crescia o interesse pela anatomia, estudada por meio da dissecação de cadáveres, e, ao longo dos vários séculos seguintes, cresceu também o entendimento sobre o funcionamento do corpo humano. Aos poucos, o ensino passou a ser associado à prática. E, enquanto o século XVIII trouxe uma série de melhorias de ordem metodológica, como a prática do diagnóstico baseado no exame físico, o século XX trouxe um boom de novas tecnologias. Todas essas mudanças contribuíram, no fim das contas, para que um documento conhecido como Relatório Flexner fosse proposto nos EUA e no Canadá, estabelecendo-se como o padrão do ensino médico nos nossos tempos.

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A professora Maria Valéria estudou o impacto da transição entre dois modelos de ensino na Medicina. Foto: Paulo Ribeiro

“Esse é o modelo da formação médica que conhecemos hoje, cuja origem data de 1910, quando Abraham Flexner organizou o ensino médico na América do Norte. Até aquele momento, naqueles países, a formação dos profissionais da medicina acontecia de variadas formas, podendo ser conduzida tanto na universidade quanto pelo antigo sistema de mestre e aprendiz. A partir da implementação do relatório nos EUA, o modelo foi difundido para muitos países, principalmente na América Latina. Foi esse documento, baseado no modelo alemão de ensino, que contemplou a vinculação da escola de Medicina ao hospital universitário e dividiu a formação médica em três fases: a básica, a clínica e a profissionalizante”, contextualiza Pavan.

Mais de cem anos depois, ainda é o modelo hegemônico – e ainda suscita discussão e críticas, entre elas a de dividir o paciente em “compartimentos” e falhar ao prover uma visão integral e ampliada do ser humano e de suas condições de saúde. Por outro lado, qual seria a alternativa? “O questionamento sobre o modelo tradicional do ensino da Medicina, com foco no conteúdo e centralizado no professor, levou ao surgimento de novas propostas pedagógicas, com mudanças na forma de ensinar – ou melhor, mudanças no modelo para a aquisição do conhecimento”, acrescenta a pesquisadora, fazendo alusão às chamadas metodologias ativas de ensino. (Confira informações sobre o termo ao final)

É com esses dois modelos – o tradicional, baseado no Relatório Flexner, e o das metodologias ativas, originado no fim da década de 60 – que a educação médica convive hoje no Brasil. O segundo modelo, como destaca a professora, é centrado no estudante, que passa a ser compreendido como um agente de construção do próprio conhecimento. Outra mudança importante diz respeito aos cenários e ao momento em que o aluno é inserido nessas práticas médicas; no modelo em uso na FCMS da PUC-SP, isso ocorre desde o início do curso e as práticas são conduzidas primordialmente na atenção primária à saúde, como orientado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina.

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Foi depois de um período fora do Brasil e às vésperas de iniciar seu doutorado que Pavan – formada endocrinologista em meados da década de 90 – percebeu que os conceitos estavam mudando. “Hoje, entende-se que o médico deve cumprir grande parte da sua formação na atenção básica à saúde, desde o início do curso, para que possa entrar em contato com os problemas mais comuns pelos quais passa a população, compreendendo assim as diversas situações em que a saúde e as doenças se apresentam e como as pessoas e o sistema de saúde se colocam nesse contexto. Ela reforça, contudo, que existe uma progressão na complexidade das atividades realizadas por aluno, buscando garantir a eficácia e a segurança dos procedimentos.

A grande pergunta que fica, no fim das contas, é se esses novos profissionais estão mais aptos para exercer a prática médica e, consequentemente, prover um melhor serviço de saúde à comunidade. Os resultados, segundo a pesquisadora, são promissores. “Ainda que tenham sido apontadas algumas dificuldades de avaliação e lacunas na capacitação contínua dos docentes, esse novo modelo pedagógico e a própria motivação dos alunos foram indicados pelos docentes da FCMS da PUC-SP como fatores que facilitam o progresso do currículo. Alguns estudos mostram que os médicos formados pelo novo modelo curricular parecem ter o mesmo ganho cognitivo daqueles formados no sistema tradicional. Entretanto, estamos formando médicos mais reflexivos, mais preparados para trabalhar em equipe, melhor avaliados pelos gestores e também pelos usuários do sistema de saúde”, conclui.

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Para saber mais: o que são metodologias ativas?

“Nas circunstâncias didático-pedagógicas das metodologias ativas, o papel do professor vai além de simplesmente transmitir conteúdos”, explica o prof. Dr. Waldemar Marques, orientador da pesquisa. “Nesse caminho de aprendizagem, o papel fundamental do professor é suscitar situações e problemas que estimulem o raciocínio, coordenando os esforços de seus alunos para a análise e a busca por soluções. Na educação superior, essas metodologias foram introduzidas nos cursos de Medicina no século passado, por volta da década de 60.” Ele defende que, em algumas áreas – como a própria Medicina –, a avaliação desses processos e métodos formativos se colocam com mais premência: “Assim como uma ponte construída por um engenheiro mal formado apresenta grandes chances de desabar, um diagnóstico e uma terapia mal conduzidos por um médico mal formado podem levar ao agravamento da saúde de um paciente e, no limite, à morte.”

Com base na tese “A reforma curricular em um curso de Medicina: Determinantes externos e internos e o impacto sobre o trabalho docente”, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Waldemar Marques e coorientação da professora doutora Maria Helena Senger, e aprovada em 3 de fevereiro de 2016. Acesse: https://bit.ly/3cs34yK
Texto: Guilherme Profeta

 

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