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Envelhecimento da população motiva pesquisa em Ciências Farmacêuticas

Nas próximas três décadas, o número de pessoas com idade superior a 60 anos terá dobrado e, até 2100, terá triplicado, fazendo desse o grupo etário que cresce mais rapidamente em todo o mundo. Os dados foram publicados pela Organização das Nações Unidas (ONU) na revisão de 2017 do relatório World Population Prospects (em português, Perspectivas para a População Mundial), atualizado periodicamente desde 1951. No Brasil, ainda que o envelhecimento populacional não seja uma questão tão premente quanto, por exemplo, no Japão ou em muitos países europeus, esse é com certeza um problema em potencial para o futuro.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), hoje os grupos etários mais representativos da sociedade brasileira são o dos homens entre 20 e 24 anos (4,18% da população) e o das mulheres entre 30 e 34 anos (4,19%). Em 2060, brasileiros e brasileiras entre 60 e 64 anos somarão nada menos do que 6,69% da população. Ou seja, a pirâmide etária terá se invertido, o que costuma se dar por dois motivos: o aumento da expectativa de vida e a diminuição da taxa de natalidade.

Para a ONU, “o envelhecimento da população está prestes a se tornar uma das transformações sociais mais significativas do século XXI, com implicações para quase todos os setores da sociedade, incluindo os mercados de trabalho e financeiro, a demanda por bens e serviços (como moradia, transporte e proteção social), bem como as estruturas familiares e os laços entre as gerações.” Nesse contexto, o acesso a serviços de saúde certamente é uma questão fundamental a ser considerada.

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O enfermeiro Leandro Aparecido de Souza realizou estudo com idosos de 68 anos, em média. Crédito: Paulo Ribeiro

Essencialmente, foi essa preocupação que levou o enfermeiro Leandro Aparecido de Souza, docente no curso de graduação em Enfermagem da Universidade de Sorocaba (Uniso), a conduzir uma pesquisa de campo sobre a saúde do idoso como parte de seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade.

“Eu optei pelo tema porque a população idosa está crescendo cada vez mais e, paralelamente, nós sabemos, na enfermagem, que existe uma dificuldade dessa população em relação à adesão ao tratamento com medicamentos de uso contínuo. Eu quis unir as duas coisas, para descobrir se a adesão é realmente um problema ou não”, conta ele.

Especialmente em relação à população idosa, que costuma depender dos serviços de saúde mais do que outros grupos etários devido a doenças crônicas típicas da idade, o uso inadequado dos medicamentos pode aumentar ainda mais a demanda por esses serviços. Daí a importância de se estudar o assunto.

Em sua pesquisa, Souza compôs uma amostra formada a partir de idosos que frequentam a Universidade da Terceira Idade, um projeto de extensão da Uniso, e o Clube do Idoso, um espaço mantido pela prefeitura municipal. Ambos acontecem na cidade de Sorocaba, em que os idosos correspondem a 10,8% da população total. A amostra final foi integrada por 288 participantes com idade média de 68,2 anos, que aceitaram responder um questionário sobre o uso de medicamentos de uso contínuo, além de dados pessoais e socioeconômicos. O objetivo foi traçar um perfil dos idosos, identificando fatores de saúde e socioeconômicos relacionados à adesão ou à não adesão aos seus respectivos tratamentos.

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Resultados

“A prevalência de adesão ao tratamento medicamentoso identificada nesse estudo foi de 68%, sendo superior a estudos análogos conduzidos em países desenvolvidos, onde a adesão média gira em torno de 50%”, resume o pesquisador, traçando a hipótese de que um dos motivos que podem ter levado a tal resultado é o nível educacional dos respondentes como um todo e o fato de 69% terem acesso a convênios médicos particulares — ainda que, de forma conflitante, os idosos das classes C, D e E apresentem maior nível de adesão do que aqueles pertencentes às classes A e B, um resultado alinhado a outras pesquisas que mostram uma relação inversamente proporcional entre adesão e condições econômicas.

Na amostra selecionada, gênero e idade não resultaram em variações no nível de adesão. 78% dos respondentes declararam não residir sozinhos, o que pode, também, ter algum impacto nesse resultado — o pesquisador aponta que vários autores sugerem que a presença familiar pode ajudar a aumentar o nível de adesão, ainda que tal resultado não evidencie uma relação causal. A ocorrência de efeitos adversos foi apontada como uma razão para não adesão por quase metade dos respondentes (45,1%). Além disso, Souza verificou, também, que os participantes que declararam sofrer de hipertensão e colesterol elevado são mais aderentes ao tratamento em comparação àqueles que não apresentam essas condições, possivelmente por se lembrarem de tomar os medicamentos devidos cada vez que sentem os sinais físicos das doenças.

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Souza defende que pesquisas desse tipo, voltadas às realidades de cada população, são importantes para que os profissionais da saúde possam identificar fatores preditivos e, assim, contribuir para aumentar o nível de adesão à farmacoterapia, que é um dos aspectos determinantes da eficácia de um tratamento. “Para os grupos vulneráveis à não adesão, enfermeiros, médicos e profissionais da saúde de modo geral devem aumentar as medidas de educação, traçando estratégias específicas”, conclui.

Para saber mais: O que é adesão à farmacoterapia?

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito de adesão inclui o consumo de medicamentos nas doses e nos horários prescritos, o cumprimento de dietas adequadas e o comparecimento periódico às consultas necessárias. “A não adesão pode estar relacionada aos esquecimentos — que ocorrem frequentemente com os idosos — e a fatores socioeconômicos, comportamentais ou ainda farmacológicos, como é o caso das reações adversas”, explica Souza.

 

Texto: Guilherme Profeta

Texto elaborado com base na dissertação “Fatores preditivos de adesão ao tratamento farmacológico em idosos: estudo transversal”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Fernando de Sá Del Fiol e aprovada em 29 de agosto de 2016. Com dados adicionais do relatório World Population Prospects, da ONU, e do IBGE. Acesse a pesquisa pelo link: http://farmacia.uniso.br/producao-discente/dissertacoes/2016/leandro-souza.pdf

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