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Educar para transformar: A sustentabilidade na engenharia

Uma preocupação premente de muitas das pesquisas em Educação é compreender como os currículos dos cursos de graduação mudam ao longo do tempo, seja pela influência da sociedade, quando novos assuntos até então tidos como descabidos entram no radar da opinião pública, ou por uma pressão mercadológica. A temática ambiental é um desses assuntos, que perpassa ambas as questões: conforme cresce o nível de sensibilidade da população em relação à sustentabilidade, tende a crescer também a quantidade de consumidores que vão demandar soluções ecologicamente amigáveis ao tomar suas decisões de compra. Um exemplo disso é a indústria da construção civil, tida como o setor de atividade humana que mais consome recursos naturais e que é responsável pela geração de nada menos do que 50% de todos os resíduos sólidos produzidos no mundo — os dados são do Conselho Internacional da Construção (CIB, da sigla em francês), divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente.

A arquiteta Ana Andrézia, há 30 anos atuando no mercado de Sorocaba e região, vem percebendo essa mudança de mentalidade na prática. “Nós, profissionais desse ramo — sejamos arquitetos ou engenheiros —, temos de analisar muitos pontos antes de especificar produtos que possam causar impactos negativos ao meio ambiente. Eu, por exemplo, procuro conhecer a empresa e a procedência dos materiais ao escolher acabamentos. Hoje é comum que alguns fornecedores nos levem inclusive às fábricas para podermos checar como tudo está funcionando em relação à temática sustentável.” A preocupação existe, diz ela, mas infelizmente ainda falta muito para colocar todos os conceitos em prática. O custo, por exemplo, é um dos grandes impeditivos.

Não é à toa que a construção sustentável é um dos tópicos abordados pela Agenda 21, um plano de ação global pela sustentabilidade apresentado em 1992 na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), no Rio de Janeiro (a famosa Rio 92).

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A pesquisadora Ariane Diniz Silva: “Sensibilização é o primeiro passo para mudança efetiva”. Foto: Paulo Ribeiro

Academicamente, também tem gente preocupada com essas questões. A professora doutora Ariane Diniz Silva, há nove anos lecionando para os cursos de Engenharia da Universidade de Sorocaba (Uniso), estudou em sua pesquisa de Mestrado como a temática ambiental era tratada, entre 2011 e 2012, nas grades curriculares dos cursos de Engenharia oferecidos no município de Sorocaba. Seu estudo compreendeu sete instituições de ensino e 25 cursos diferentes, de todas as áreas da Engenharia. Na época, ela chamou a atenção para a importância da inclusão da temática ambiental nas mais variadas disciplinas, mesmo aquelas que não têm relações óbvias com a sustentabilidade e o meio ambiente. Mais de seis anos depois, como professora da Uniso e de outras instituições de ensino, ela também diz perceber uma preocupação crescente em relação a essas temáticas.

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“Acredito que a sensibilização é o primeiro passo para uma mudança efetiva”, defende a professora. “Assim, a importância da educação ambiental vai muito além das disciplinas específicas para isso — como aquelas que recebem nomes óbvios como ‘Ambiente e Desenvolvimento Sustentável’, ‘Engenharia e Meio Ambiente’ ou ‘Responsabilidade Social e Meio Ambiente’. Na época do meu estudo, por exemplo, o curso de Engenharia Civil da Uniso tinha a disciplina ‘Sociologia e meio ambiente’, que era comum para algumas Engenharias; hoje, na nova grade da Engenharia Civil, essa disciplina foi substituída pela ‘Educação Ambiental’, que tem um enfoque mais específico em temáticas ambientais. Mas há outras disciplinas, não específicas, em que essas temáticas são igualmente trabalhadas: a norma ISO 14.000, que determina diretrizes para a gestão ambiental, é trabalhada na disciplina ‘Gerenciamento da Qualidade’; o uso de materiais alternativos e de reaproveitamento é abordado em ‘Tecnologias Emergentes da Construção’; e assim por diante.”

“Esse trabalho iniciou uma série de estudos relacionados à formação de engenheiros levando em consideração as questões ambientais. Nesse sentido, é uma das primeiras dissertações realizadas no Brasil”, destaca o orientador da pesquisa, o professor doutor Marcos Antonio dos Santos Reigota, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uniso. Segundo o pesquisador, que vem originalmente da Biologia e tem ampla atuação internacional na área de Educação Ambiental, o trabalho parte do princípio de que a temática ambiental pode e deve estar presente nos componentes curriculares das diversas áreas do conhecimento. “No caso das Engenharias, essa questão se tornou urgente”, acrescenta ele, “principalmente numa época em que vivíamos um boom imobiliário devastador para as áreas naturais.”

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Desde então, a inclusão do componente educacional ecológico nas práticas pedagógicas cotidianas de variados profissionais, mesmo aqueles com formações inicialmente distantes dessas questões, é um aspecto que vem permeando outras dissertações e teses defendidas na Uniso.

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Texto: Guilherme Profeta

Texto elaborado com base na dissertação “A temática ambiental na formação acadêmica dos engenheiros e engenheiras em Sorocaba”, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Marcos Antonio dos Santos Reigota e aprovada em 12 de junho de 2012; dados adicionais do Ministério do Meio Ambiente. Acesse a pesquisa clicando aqui.

 

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