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Cuidado ao usar medicamentos para dormir

Pesquisadora diz que uso de medicamentos para dormir no Brasil é um problema de saúde pública

Em janeiro de 1964, o jovem Randy Gardner, de 17 anos, decidiu fazer um experimento científico para a escola onde estudava, na Califórnia. A ideia era ver quanto tempo conseguia ficar sem dormir e quais os efeitos da falta de sono para o seu corpo. Com muita força de vontade e ajuda dos amigos, Gardner conseguiu ficar mais de 264 horas acordado (foram 11 dias e 25 minutos exatamente).

Kátia Kodaira realizou o estudo no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas. Foto: Paulo Ribeiro

Com o feito, Gardner entrou para o Guinness Book, mas sofreu e enfrentou muitas dificuldades ao longo da jornada para se tornar o ser humano que mais tempo ficou acordado. Logo nos primeiros dias do experimento, o estudante começou a sofrer problemas cognitivos e dificuldades para identificar objetos pelo tato. Em seguida, passou a ter depressão, falta de coordenação, dificuldade de concentração, problemas com a memória de curto prazo, paranoia e alucinações. Mas, além de registrar seu nome no Guinness, Gardner ajudou a ciência a entender melhor a importância do sono.

No Brasil, mais precisamente em Sorocaba, a pesquisadora Kátia Kodaira também decidiu estudar o tema. Dedicada, ela perdeu algumas noites de sono para levantar dados, analisá-los e escrever três artigos e trabalhos em congressos que, posteriormente, foram ampliados com referenciais teóricos e reunidos em sua dissertação de mestrado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Sorocaba (Uniso), apresentada em fevereiro de 2017 e orientada pelo professor doutor Marcus Tolentino Silva. “O objetivo da pesquisa foi investigar a frequência do uso de medicamentos para dormir no Brasil e os possíveis fatores associados (sociais, demográficos, estilo de vida e doenças crônicas). Os resultados apontaram maior frequência de uso entre mulheres, idosos e pessoas das etnias branca e amarela, com ensino até o fundamental, fumantes e com sintomas depressivos”, resume Kodaira.

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O sono e seus distúrbios

O sono é uma condição natural do organismo e exerce função essencial no dia a dia de um indivíduo. “É caracterizado como um processo biológico complexo, transitório e reversível, que se alterna com períodos de vigília e é primordial para a recuperação física e psicológica do ser humano”, explica a pesquisadora.

Segundo Kodaira, perder o “sono saudável” compromete a saúde e o organismo sob diversos aspectos, além de desencadear consequências negativas na vida social, ocupacional ou na aprendizagem, onde o psicológico é afetado.

Kodaira destaca vários tipos de distúrbios do sono, mas aponta que o mais comum é a insônia, que atinge cerca de um terço da população mundial em algum momento da vida. “No Brasil, protocolos ou diretrizes específicos desenvolvidos para o tratamento de distúrbios do sono e a insônia são escassos, e ainda estão ausentes dos protocolos clínicos do Ministério da Saúde”, afirma.

O tratamento dos distúrbios do sono, segundo a pesquisadora, depende dos aspectos de cada um dos sintomas que surgem durante a evolução do transtorno. A terapia visa como objetivos à melhora na qualidade e na quantidade do sono, à diminuição de sintomas diurnos e ao favorecimento da qualidade de vida.

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“Apesar da grande disponibilidade de diferentes classes farmacológicas empregadas no manejo dos distúrbios do sono, a maioria, senão todos, são substâncias que causam dependência e diversas complicações para o indivíduo. O paciente deve ser acompanhado com reavaliações frequentes, para verificar a efetividade do tratamento e possíveis efeitos adversos indesejáveis”, explica Kodaira.

Ela ressalta que, no Brasil, as informações sobre uso de medicamentos para dormir ainda são escassas. “A sua relação com os distúrbios do sono, doenças crônicas e psiquiátricas, por exemplo, são temas pouco explorados”, diz.

No Brasil

Em 2013, o Governo Federal realizou a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), um estudo de base domiciliar aplicado em todo o Brasil em parceria com o IBGE. Kodaira analisou os dados que se referem ao sono e constatou que a prevalência do uso de medicamentos para dormir foi de 7,6%. O tempo médio de duração do tratamento foi em torno de 9,75 dias.

Um total de 11,2% dos que usaram medicamentos para dormir admitiram que o fizeram sem orientação médica. A análise multivariada mostrou fatores estatisticamente significativos associados ao uso de medicamentos para dormir entre mulheres (duas vezes mais que os homens), pessoas com faixa etária acima dos 60 anos (cinco vezes mais que os jovens adultos entre 18 a 24 anos), em etnias branca e parda, fumantes (47% a mais que os não fumantes) e com sintomas depressivos graves e muito graves.

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“Os resultados mostram que o uso de medicamentos para dormir no Brasil é um problema de saúde pública preocupante. Ressalta-se a ausência de informações quanto à classe farmacológica e aos critérios adotados no emprego destes medicamentos, além da falta de orientação de profissional capacitado sobre os possíveis eventos adversos. Sendo assim, são necessários ações e programas voltados à conscientização da população sobre os riscos relativos ao consumo e ao planejamento de intervenções que visem ao uso racional desses medicamentos. Os distúrbios do sono e seus fatores associados também deveriam ser introduzidos aos inquéritos de saúde, uma vez que problemas relacionados ao sono são temas amplamente estudados em outros países e têm significativo impacto na qualidade de vida da população”, conclui a pesquisadora.

Texto: Marcel Stefano

Texto produzido com base na dissertação “Uso de medicamentos para dormir no Brasil”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com orientação do professor doutor Marcus Tolentino Silva e aprovada em 3 de fevereiro de 2017. A dissertação pode ser encontrada e baixada clicando aqui.

 

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