Biomateriais representam nova fronteira no tratamento da osteonecrose maxilar

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Adriana Duarte de Almeida manipula material de pesquisa numa capela de fluxo laminar no Laboratório de Pesquisa Toxicológica (Lapetox) da Uniso. Foto: Paulo Ribeiro

Você sabe o que as carapaças de caranguejo, as algas pardas e um dos minerais encontrados em nossos ossos e dentes têm em comum? Os três contêm propriedades que podem aliviar a condição patológica de pacientes que sofrem de osteonecrose maxilar — ou seja, a incapacidade dos ossos da mandíbula de se reparar e se remodelar, o que pode resultar em sequelas estéticas e funcionais, sem contar as sequelas psicológicas. Essa é uma condição de risco para os pacientes que fazem uso de uma classe específica de medicamentos: os bisfosfonatos, utilizados no tratamento da osteoporose, da doença de Paget, do mieloma múltiplo (um tipo de câncer de medula) e de alguns cânceres metastáticos, como o de mama, próstata e pulmão.

Muitos pacientes fazem uso dos bisfosfonatos, mas há uma série de complicações que podem surgir a partir desse tratamento, desde dores de cabeça e conjuntivite até anemia e insuficiência renal. Dentre esses efeitos adversos, a osteonecrose maxilar merece destaque. Os primeiros registros desse efeito colateral datam de 2003 e a ocorrência costuma ser maior nos casos em que o bisfosfonato é administrado como medicação de apoio para o tratamento das doenças, por via intravenosa.

Ainda não há um consenso por parte da comunidade médica com relação ao tratamento da osteonecrose. “A literatura ainda permanece sob um contexto de incertezas no que se refere a abordagens terapêuticas e preventivas para essa doença. Os tratamentos não são completamente eficazes e variam de acordo com a gravidade do caso”, diz Adriana Duarte de Almeida, que estudou alternativas terapêuticas para a osteonecrose em sua pesquisa de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Processos Tecnológicos e Ambientais da Universidade de Sorocaba (Uniso), sob orientação da professora doutora Denise Grotto. Ela relata que antibióticos costumam ser aplicados em casos assintomáticos e, quando ocorrem sintomas perceptíveis pelo paciente, são realizados procedimentos de raspagem, para a remoção dos tecidos mortos, e também de irrigação com soluções antimicrobianas, para tratar das infecções. Intervenções cirúrgicas são consideradas procedimentos de risco por muitos médicos, por aumentar ainda mais a área de exposição dos ossos afetados e abrir novas vias de contaminação.

Almeida (à esquerda), acompanhada da orientadora do estudo, a professora doutora Denise Grotto. Foto: Paulo Ribeiro

 

“Mesmo quando a doença está controlada”, conta Almeida, “os pacientes costumam apresentar uma qualidade de vida reduzida em função de complicações bucais como a dor, a infecção e a ocorrência de fístulas. Assim, uma vez que os tratamentos convencionais não são totalmente eficazes, é muito importante pesquisar biomateriais que possam estimular o crescimento dos ossos, agindo na cicatrização e na reparação óssea, para melhorar a qualidade de vida desses pacientes.” E foi isso que ela fez.

Para saber mais: o que são biomateriais?

“Um biomaterial”, a pesquisadora explica, é “qualquer substância ou combinação de substâncias, que possa ser utilizada para reparar ou substituir, parcial ou totalmente, qualquer tecido, órgão ou função do corpo. Os biomateriais não devem ser tóxicos, nem produzir substâncias tóxicas, e devem ser compatíveis com os tecidos do corpo, além de ser biologicamente desintegrados e eliminados pelas fezes ou pela urina.”

Adriana Duarte de Almeida manipula material de pesquisa numa capela de fluxo laminar no Laboratório de Pesquisa Toxicológica (Lapetox) da Uniso. Foto: Paulo Ribeiro

Em sua pesquisa, o objetivo foi padronizar um modelo experimental de osteotomia — ou seja, uma cirurgia realizada diretamente no osso — para a inserção de um scaffold para a prevenção da osteonecrose maxilar. Scaffolds, na engenharia de tecidos, são estruturas biodegradáveis tridimensionais que contêm células ou algum tipo de biomaterial e, por isso, podem dar uma mãozinha ao corpo na hora de se regenerar, ajuda que é muito bem-vinda quando o tecido se encontra danificado e frágil. Para isso, Almeida usou scaffolds já testados, à base de três substâncias: a quitosana, o alginato de sódio e a hidroxiapatita.

As perguntas que ela precisava responder eram as seguintes: em primeiro lugar, esses scaffolds podem minimizar os efeitos inflamatórios decorrentes da exposição ao bisfosfonato, sendo assim utilizados para o tratamento da osteonecrose? E, se sim, eles são seguros para o restante do corpo, especialmente para o fígado e os rins? Os testes em ratos mostraram que a resposta a ambas as perguntas é sim: “Ao estudarmos como a doença afeta os tecidos — o que se chama de histopatologia —, observamos que os scaffolds foram eficazes tanto na prevenção quanto na minimização da osteonecrose. Além disso, eles se mostraram seguros, também, para as funções hepática e renal. Inclusive, o presente trabalho foi um dos pioneiros no que diz respeito à avaliação do quadro clínico dos animais, permitindo avaliar a segurança da implantação do biomaterial”, destaca a pesquisadora.

O próximo passo, para as pesquisas que ainda estão por vir, é desenvolver uma forma de apresentação adequada para esse biomaterial, que facilite sua aplicação, como um pó ou um biofilme. Além disso, o produto resultante precisa apresentar efeito antibacteriano. “Depois disso”, Almeida conclui, “resta ainda que sejam realizados estudos clínicos com seres humanos, que apresentem resultados significativos para uma possível aplicação terapêutica em pacientes reais.”

Para saber mais: continuidade da pesquisa

A dissertação de Almeida dá continuidade a um outro estudo da Uniso, de autoria da pesquisadora Márcia de Araújo Rebelo, que desenvolveu e avaliou scaffolds à base de quitosana (um derivado da quitina, que é encontrada nas carapaças de crustáceos como o caranguejo, o camarão e a lagosta), alginato de sódio (um componente encontrado em algas pardas e também produzido por algumas bactérias) e hidroxiapatita (um mineral natural encontrado nos ossos, utilizado em implantes e próteses). Esses scaffolds se mostraram promissores para a regeneração óssea. Com os dispositivos prontos, Almeida pôde então seguir ao próximo passo da pesquisa: aplicar os scaffolds em seres vivos para confirmar os resultados.

Com base na dissertação “Modelo experimental de osteotomia para inserção de scaffold na prevenção de osteonecrose maxilo-mandibular in vivo”, do Programa de Pós-Graduação em Processos Tecnológicos e Ambientais da Uniso, com orientação da professora doutora Denise Grotto e colaboração do professor doutor Marco Vinicius Chaud, aprovada em 24 de fevereiro de 2017. Acesse a pesquisa: http://pta.uniso.br/documentos/discentes/2017/adriana-de-almeida.pdf

Texto: Guilherme Profeta