A corrida contra a extinção: os desafios de estudar o Cágado-da-serra

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Ao medir o casco, os pesquisadores conseguem monitorar o crescimento, saúde, condição corporal e até obter informações sobre a reprodução da espécie

Por: Alexandre Tersi, Ana Clara Abrami, Camilly Medeiros e Maria Eduarda Forti (Curso de Jornalismo da Universidade de Sorocaba – com supervisão da professora Mônica Cristina Ribeiro Gomes)

Na Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do país, a vida de espécies discretas – que não são perceptíveis no dia a dia – pode passar despercebida até que seja tarde demais. Uma dessas espécies é o Cágado-da-serra (Hydromedusa maximiliani), cuja sobrevivência está diretamente ligada à qualidade dos riachos onde habita.

A fim de atualizar e ampliar o conhecimento sobre essa espécie e seu ecossistema, visando à sua conservação, um grupo de cientistas se mobilizou, ao longo de 2025, em torno do projeto de pesquisa “Caminhos para a reintrodução do cágado-da-serra (Hydromedusamaximiliani): subsídios estratégicos para a Bacia do Rio Doce”. O estudo foi desenvolvido em áreas de Mata Atlântica, presentes no Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e no Parque Estadual Carlos Botelho (PECB), que tem parte de seu território localizada na Região Metropolitana de Sorocaba, no município de São Miguel Arcanjo. A pesquisa foi liderada pelo professor doutor Thiago Simon Marques, coordenador do curso de Ciências Biológicas e docente do Programa de Pós-Graduação em Processos Tecnológicos, da Universidade de Sorocaba (Uniso).

O Cágado-da-serra pertence à família dos cágados, o que significa que é um réptil que vive tanto em água doce quanto em terra, e, ao contrário dos jabutis, os cágados conseguem esconder seu pescoço lateralmente no casco. Essa vertente da espécie, especificamente, se caracteriza pelo pescoço mais longo e por sua expressão facial que lembra um sorriso.

Porém, mais do que habitante dos riachos, o Cágado-da-serra exerce funções importantes no ecossistema. Ele atua como indicador da qualidade da água, já que a sua presença indica que a água está limpa, bem oxigenada e fria.

No entanto, devido à poluição dos cursos de água, o assoreamento e o avanço de atividades como mineração e agropecuária, além da expansão urbana, esse ambiente tem se encontrado cada vez mais ameaçado. A consequência disso é que os cágados estão tendo ainda menos condições para reprodução, já que demoram 10 anos para atingir a maturidade sexual.

Dessa forma, a escolha por estudar essa espécie se deu pela extinção iminente, mas também pela possibilidade de explorar a conservação da Mata Atlântica e pela manutenção da saúde hídrica do local.

O dia a dia da pesquisa em campo

O projeto foi estruturado de forma integrada, com cinco eixos principais que orientaram o estudo, são eles: a estrutura populacional, dieta, genética, saúde e modelagem de adequabilidade de habitat.

Parte das atividades em campo ocorreu no Parque Estadual Carlos Botelho (PECB). Lá, os pesquisadores utilizaram técnicas de captura, marcação e recaptura para monitorar os indivíduos ao longo do tempo. A partir dessa metodologia, foi possível estimar o tamanho populacional, as taxas de sobrevivência e os padrões de movimentação da espécie.

O professor doutor Thiago Simon Marques, pesquisador e líder do projeto, explica que cada indivíduo amostrado fornece dados biométricos relevantes para a análise da estrutura populacional, além de material genético e informações sobre uso de habitat e alimentação. Essas informações estabelecem um fluxo contínuo entre o trabalho de campo e as etapas de análise em laboratório.

Surpresas

Como em toda pesquisa em campo, ao longo do estudo situações inesperadas fizeram parte da rotina. Um dos principais desafios foi a dificuldade de encontrar os animais, mesmo em locais onde se espera que eles estejam. Em alguns casos, foi registrada sua presença em áreas consideradas inadequadas, enquanto que, em locais ideais, não foram encontrados. Esses resultados revelam lacunas no entendimento do comportamento do animal, que se mostra mais complexo do que o previsto.

Diante da dificuldade de localizar indivíduos da espécie, os cientistas precisaram adaptar constantemente suas estratégias; eles recorreram a coletas repetidas e a um planejamento mais flexível, com decisões baseadas na construção progressiva de dados sobre o comportamento do Cágado-da-serra.

Neliton Ricardo Freitas Lara, um dos pesquisadores do projeto, conta que mesmo perante todos esses e outros desafios, a troca de experiências e aprendizagens em uma equipe tão grande e diversa foi um dos maiores benefícios.

Com o avanço da pesquisa, a percepção sobre o Cágado-da-serra também mudou. Embora dependa de ambientes preservados, o animal apresentou respostas menos previsíveis do que se imaginava. Marques explica que é exatamente por isso que são necessárias abordagens integradas para a conservação da espécie.

A pesquisa, que contou com um investimento de R$800 mil através do edital de incentivo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), reuniu profissionais de diversas áreas, como veterinária, biologia e engenharia; e, ao final, o que se obteve não foi apenas um retrato mais específico do Cágado-da-serra, mas um conjunto de ferramentas para orientar políticas de conservação.

Nesse cenário de degradação acelerada, entender o presente da espécie pode ser o único meio de garantir o futuro dela e dos ecossistemas que se beneficiam da sua presença.