Tratamento tópico desenvolvido na Uniso pode auxiliar no combate à celulite

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, 90% da população feminina sofre com as marcas onduladas e/ou granulosas

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Celulites se manifestam como marcas onduladas ou granulosas em determinadas partes do corpo; uma simples busca online mostra o quanto o assunto é motivo para preocupação de muita gente em todo o mundo

Como costuma acontecer com muitas mulheres, as inseguranças de Wingrid Rodrigues em relação ao próprio corpo começaram ainda durante a adolescência. Aos 30 anos de idade, ela se recorda de quando tinha apenas 15, numa ocasião específica em que assistiu a uma reportagem sobre técnicas para eliminar as celulites: naquela época, ela já era capaz de identificar as marcas surgindo em seu próprio corpo, entre os quadris, as coxas e as pernas, o que costumava deixá-la bastante preocupada, especialmente porque os procedimentos que ela viu na TV pareciam bastante invasivos — alguns envolviam agulhas, por exemplo; outros, dietas que lhe pareceram demasiadamente restritivas. Tudo isso só colaborou para aumentar sua ansiedade quanto à questão e, aos poucos, afetar a sua vida social e afetiva.

Desde então, shorts e saias, ou qualquer outro tipo de peça de vestuário que deixasse as celulites à mostra, deixaram de fazer parte de seu guarda-roupa. “Eu cheguei a doar todas as peças que faziam com que eu me sentisse mal”, ela diz. “Meu armário ficou vazio, com apenas uma calça. E coitado do meu marido! Ele sempre me elogiava muito, e ainda o faz, mas, infelizmente, a impressão que eu tenho é de que a celulite fala muito mais alto quando estou em frente ao espelho. Uma vez, por exemplo, ele me chamou para sair e eu escolhi uma roupa mais curta, mas, quando percebi as celulites, comecei a chorar e falei que não ia mais.”

Desde que se incomodou com as celulites pela primeira vez, Rodrigues vem experimentando diversas maneiras de eliminá-las, desde dietas e sessões de treinamento na academia até procedimentos estéticos. “Recentemente, decidi fechar um pacote de massagem modeladora e drenagem linfática. A minha esteticista até disse que estava dando resultado, só que eu não estava vendo diferença alguma”, ela conta. Chegou, então, um momento em que o investimento (tanto físico quanto financeiro) deixou de valer a pena, uma vez que os procedimentos estavam pesando no bolso e eram bastante doloridos. Hoje Rodrigues ainda convive com o problema.

E ela não está sozinha. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), 90% da população feminina sofre com as marcas onduladas e/ou granulosas conhecidas como celulite, que normalmente aparecem nas nádegas, nas pernas e no abdômen. A condição costuma se dar devido ao fato de as mulheres terem uma maior tendência para acumular células de gordura nos tecidos, quando comparadas aos homens.

A busca por tratamentos alternativos, especialmente aqueles que não sejam tão invasivos, não é uma preocupação exclusiva das pacientes, mas também da comunidade de profissionais da estética. É o caso, por exemplo, de Nathália Ramos de Souza, formada pela Universidade de Sorocaba (Uniso) em 2020. “Até hoje não existe nenhum tratamento que seja 100% eficaz”, ela lamenta. “Isso acontece em partes porque é muito difícil que um ativo chegue até a camada adiposa, uma das mais profundas da pele, apenas por meio da aplicação tópica.” Ela ressalta, também, que profissionais sérios devem se preocupar em recomendar e utilizar produtos que tenham sido respaldados pela ciência, que tenham se provado seguros para utilização em seres humanos e testados sem a interferência de vieses comerciais. “Não adianta que surjam produtos ‘mágicos’, que prometem reverter a situação, mas que tenham sido levados ao mercado sem qualquer embasamento científico”, ela defende.

É aí que entram pesquisas científicas como a de Audrey Stefani Naufal Hernandes. Farmacêutica especializada em Estética, ela optou por desenvolver o seu estudo de mestrado, defendido em 2021, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade. Tendo acumulado mais de dez anos de experiência no atendimento de mulheres, ela conhece de perto o desconforto que as celulites podem representar, e foi justamente isso que a levou a desenvolver um produto cosmético em gel, à base de cafeína, capaz de vencer as barreiras da pele e assim resultar num tratamento tópico não invasivo contra a celulite.

Hernandes explica que a cafeína é capaz de “quebrar” a gordura, evitando que as células adiposas se transformem em celulite, e por isso ela já é utilizada em várias formulações cosméticas. Mas, para que a cafeína de fato tenha algum efeito, ela ressalta que é preciso garantir que ela chegue à gordura sem ser degradada no caminho — é por isso que somente beber o café não eliminaria o problema (até porque, naturalmente, existe um limite de quanto café um ser humano normal é capaz de tomar sem ter uma série de efeitos colaterais). Para garantir que a cafeína fosse capaz de chegar às células adiposas e dar conta do recado, Hernandes a combinou a uma substância conhecida como líquido iônico, um tipo de sal orgânico em estado líquido que vem sendo empregado pela indústria farmacêutica e em pesquisas acadêmicas para facilitar a permeação de certos ativos na pele.

Depois do desenvolvimento inicial, o gel formulado por Hernandes foi testado em mulheres de 18 a 55 anos, que já apresentavam celulite. Após exames iniciais e entrevistas, elas tiveram o produto aplicado sobre a pele em dez sessões realizadas ao longo de cinco semanas. Em algumas, a aplicação foi completa: com o líquido iônico e o gel acrescido de cafeína. Já em outras, apenas o gel com a cafeína foi aplicado. Ao fim do estudo, comprovou-se que as pacientes que fizeram uso do gel e do líquido iônico simultaneamente apresentaram um nível de melhoria superior àquele observado nas mulheres que passaram pela aplicação do gel sem o líquido. Constatou-se, também, uma diminuição nas medidas do culote e das coxas das mulheres que receberam o gel com o líquido iônico na formulação.

Hernandes conclui que a cafeína é uma substância promissora no combate às celulites, porém, para que o produto possa ser comercializado, são necessárias outras etapas de pesquisa, que incluem testes em grupos maiores de pacientes e melhorias na formulação do produto. “Essa primeira etapa serviu para testar se o líquido iônico apresentava capacidade de permeação no tecido subcutâneo”, ela explica. “Agora que foi comprovado que sim, a ideia é potencializar a formulação com outros ativos, além da cafeína, de modo a atingir resultados ainda melhores, além de seguir futuramente com o tema em um doutorado.”

Para saber mais: Por que as mulheres têm mais celulite?

A celulite atinge a maior parte da população feminina. E isso acontece por questões biológicas: até os seis anos de idade, meninos e meninas costumam produzir a mesma quantidade de adipócitos (células que armazenam gordura), porém os meninos continuam produzindo essa mesma quantidade por toda a vida (a menos que ganhem peso), enquanto a quantidade de adipócitos das meninas aumenta à medida que elas entram na puberdade. É isso que causa as mudanças no formato do corpo, já que, nelas, as células de gordura se acumulam em partes específicas como os quadris, as coxas, as nádegas, os flancos, os joelhos e a região dos culotes, exatamente aquelas que conferem curvas ao corpo feminino. Já os meninos acumulam gordura apenas na região abdominal. Além disso, a estrutura da hipoderme (a camada mais interna da pele) também é diferente nas mulheres: enquanto nos homens as células adiposas são divididas por septos cruzados como uma rede, que impedem que elas “escapem” por entre os espaços, nas mulheres essas mesmas células são divididas por septos paralelos, o que leva à aparência de “buraquinhos” e àquele aspecto semelhante a uma casca de laranja, que incomoda tanta gente. Quando o incômodo se torna excessivo e incapacitante, contudo, afetando excessivamente o bem-estar da paciente, a recomendação é que o tratamento não seja somente estético, mas também psicológico. É o que recomenda a psicóloga Ana Maria Pivetta, consultada para esta reportagem.

Na Uniso, estudos desse tipo fazem parte da linha de pesquisa identificada como “Avaliação de Substâncias Bioativas e Sistemas de Liberação de Fármacos”. Confira na edição 4 (jun./2020) da revista Uniso Ciência um estudo semelhante, voltado à utilização de líquidos iônicos para vencer a barreira da pele e facilitar a aplicação da insulina em pacientes diabéticos, sem a necessidade de agulhas. Acesse o link: https://uniso.br/unisociencia/r5/diabetes-insulina-aplicacao-pele.pdf

Com base na dissertação “Produto cosmético com cafeína associada a líquido iônico para tratamento de celulite”, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Uniso, com orientação da professora doutora Marta Maria Duarte Carvalho Vila e coorientação do professor doutor Victor Manuel Cardoso Figueiredo Balcão, aprovada em 10 de novembro de 2020. Acesse a pesquisa: https://uniso.br/mestrado-doutorado/farmacia/dissertacoes/2020/audrey-stefani-naufal-hernandes.pdf.

Texto: Por: Focs, Agência Experimental de Jornalismo da Uniso*

*Participaram dos processos de pesquisa e redação para esta reportagem os seguintes estudantes do Programa de Graduação em Jornalismo da Uniso: Ana Ferreira, Ana Fragoso, Brenda Ponciano, Daniele Gonzales, Deividy Venâncio, Fernanda Sena e Thaís Verderamis