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Uma sombra mirrada, cinza!

Uma sombra mirrada, cinza!
Crédito da foto: Nandouno

A sexta-feira promete ser de noite morna. Espero que não pro meu lado, se é que me entendem… Tou empolgado e hoje até me arrisco pra chegar até ela. Algo meio intrépido, que mais sinto que entendo.

Daqui, da mureta da casa vejo a janela. De onde nos olhamos. Lindos olhos azuis que me espiam por entre os vidros. Láli, minha siamesa linda. Me apaixonei. E, olha que sou até um cara difícil pra essas coisas. Emocionais, vamos dizer assim. Mas, agora… Me pego no disfarce, na ronda, a espreitar… só pra ver você.

Me sinto um tanto mais romântico do que, de fato, sou. Um cara que sei, sei, ninguém precisa me lembrar. Um dia, de boa. Tranquilo. Comunicativo. No outro, arisco. Na base das mordidas e arranhões. Quem sabe, com o amor, tou numas de mais equilíbrio “psicofelino”? Eh, eh, eh…

E, oops, quase caio da mureta quando a janela se fecha de repente. Pulo fora. Me escondo. Espero. Silêncio. Lá dentro, ouço uma voz carinhosa: Vai pegar friagem, Lalinha… ficar doente…

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Então, penso: quem sabe um dia!?

Madrugada e subo a rua. Vou pra casa. De longe ouço o som alto da moçada na calçada. Riem, conversam. Passo batido. Na esquina, alguns “brothers” meus: Estopa, Sardinha, Lili… A galera do terreno baldio. Tudo gato pobre. Tudo gato livre, como diz aquela música que de vez em quando ouço na minha casa. Batutas, eles. Amigos de todas as horas.

Entro pelo portão de casa e, de cara, sinto alguma coisa estranha. Um cheiro diferente no ar. Rodo as orelhas em busca de sons. Fixo os olhos na escuridão. E, então, uma sombra. Pequena. Mirrada. Cinza. Um rato? Me agacho. Regulo o foco. Sacudo o corpo. Esquento os músculos.

Tou pronto pro salto certeiro quando a figurinha mia. Isso, mia fraquinho. Cambaleante, se encaminha pra mim. Levanto num salto. Mando um baita rosnado. Pra botar pra correr. Mas, o pequeno não capta a mensagem. Fica ali a me olhar. A tremer. Suplicante.

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Ok. Paz. Não vou exercer ali meu instinto territorialista. Tocar pra fora ou mandar patada. Não, não sou gato de partir pra ignorância. E nem de covardias com crianças, certo? Deixo ele ali e vou procurar comida, que é o que me interessa.

Chego à tigela e, não é que o sujeitinho já tá lá? Olho pra ele e penso comigo. Aí não, né? Primeiro o dono da casa. Então, sou obrigado a exercer meus direitos de proprietário: como primeiro. E, com olhar tão pidão em mim, até perco a fome. Viro as costas, saio e, em segundos, o pequerrucho, dentro do prato, come como doido.

Engole inteiro. Satisfeito, sai de barriga cheia. Se esparrama na escada do quintal, justo meu lugar preferido. Mas, por conta do seu tamanho e minha bondade de coração, deixo que fique.

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E ele fica. Um, dois, três dias. Uma semana. Duas. Penso, vai morar aqui? Se for, terá que decorar todas as “minhas” regras. Sair fora dos “meus” cantos. Ir devagar na intimidade na casa.

E, então, num dia chuvoso, daqueles de preguiça total, percebo movimento diferente no quintal. Ouço vozes, risos. Olho de longe e lá está o cinzinha no colo de uma moça.

Mia, esperneia, mas não tem jeito. Vapt! Vai pra dentro de uma caixa de papelão. Calma Grafite, diz ela carinhosamente. Ah, já ganhou nome, o malandrinho, penso. Achou protetora. Casa.

Me aproximo do portão. Cheiro a caixa já no carro. Não é que me apeguei a ele? Falante. Curioso. Brincalhão. Bravinho. Miadinhos fracos me dizem adeus.

Fica tranquilo baby, mio tranquilizador. Você vai ficar bem, Grafite. Esperto e inteligente como é, tem um belo futuro pela frente, com muitas histórias pra contar ainda…. (Neusa Gatto)

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