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‘Para eles é mais difícil’: transgêneros narram a luta por um espaço no mercado de trabalho

Mini documentário 'Luta e Resistência' mostra as dificuldades e os caminhos enfrentados por profissionais trans em Sorocaba

 

“Eu estudo tanto, sou muito qualificada, mas cheguei a pensar que acabaria fortalecendo o estigma da mulher trans que se prostitui”,
Uma Reis Sorrequia, 23 anos.

Atualmente a sorocabana trabalha no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, mas até ser contratada passou por diversas situações de transfobia em entrevistas de emprego. Não é diferente com a jovem Laura Marcelli, 28, que hoje faz estágio no Sesc e cursa pedagogia na UFSCar Sorocaba. Odara da Matta Soares, 26, já foi uma das melhores funcionárias em uma loja de departamento, mas ao assumir a atual identidade foi demitida e a rejeição lhe causou muitos problemas com baixa autoestima.

Raynan Souza, 21, sentiu o preconceito mais forte do que nunca quando iniciou sua transição de gênero e ainda assim era obrigado a usar uniforme feminino no seu primeiro emprego. Hoje ele é “o cara do TI” na Apex Tools, uma multinacional com sede em Sorocaba que possui um Comitê de Diversidade. Já Vic Barreto, 23, não teve a mesma sorte no acolhimento do mercado formal e o trabalho autônomo foi a solução encontrada.

Além das dificuldades normais para ingressar no mercado de trabalho em um País com mais de 13 milhões de desempregados como o Brasil, a comunidade LGBT+ se depara com outro fator que fecha as portas: o preconceito. Um estudo social realizado pelo Linkedin no mês passado, que ouviu mais de mil profissionais LGBT+ de diversos setores e regiões brasileiras, mostra que cerca de 35% dos entrevistados já sofreu algum tipo de discriminação velada ou direta no local de trabalho. Quando se fala em pessoas transgêneros o preconceito e as barreiras só crescem diante da busca pelo emprego formal.

Segundo levantamento da organização Transgender Europe, mais de 900 pessoas foram mortas em crimes motivados por transfobia no Brasil entre 2008 e 2018, o que coloca o país no primeiro lugar entre as nações com maior número de mortes de transgênero no mundo. A cultura de violência e a discriminação contra esse grupo também resulta em uma alta taxa de evasão escolar: 82% das pessoas transgêneros não concluem seus estudos, de acordo com uma pesquisa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

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Odara da Matta deixou a faculdade por conta do preconceito. Foto: Arquivo Pessoal (14/08/2019)

Rejeição

Odara da Matta Soares conseguiu seu primeiro emprego em um grande rede de lojas de departamento, mas ao iniciar a transição para o gênero feminino, foi demitida. “Antes eu conversei com a gerência, perguntei se teria algum problema e me falaram que não. Quando eu fui dispensada, mesmo sendo uma das melhores funcionárias, percebi que competência não era o critério mais importante e isso me devastou”, conta a jovem, que conviveu com a depressão após esse episódio.

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O preconceito também afastou Odara da faculdade de moda, em um centro acadêmico da região. “Era muito pesado lidar com o julgamento das pessoas e eu abri mão de uma coisa que eu gostava muito.” Atualmente Odara é youtuber e a temática LGBT+ é o foco de seu canal de vídeos, chamado “Não sou obrigada”. “Eu realmente acredito que a informação é a melhor maneira que quebrar esses preconceitos.”

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Laura começou sua transição ao ingressar na universidade. Foto: Arquivo pessoal (14/08/2019)

Luta e enfrentamento

Enquanto homem gay, Laura Marcelli lembra que o mercado de trabalho era menos cruel. Ela só foi iniciar sua transição perto dos 26 anos, mas revela que sempre sentiu que faltava algo para se sentir completa. “Quando eu era criança rezava e pedia para Deus que no outro dia eu acordasse como menina. Adiei minha transição porque imaginava que era melhor me consolidar na carreira e só depois me assumir”, relembra. Ao ingressar na universidade, porém, sentiu que era hora de começar o processo em busca de si mesma e o primeiro trabalho veio como estagiária no Sesc Sorocaba.

“Quando eu era criança rezava e pedia para Deus que no outro dia eu acordasse como menina. Adiei minha transição porque imaginava que era melhor me consolidar na carreira e só depois me assumir”. Laura Marcelli, 28 anos.

“Foi um momento feliz, mas que logo depois me jogou na cara a dificuldade que é para lidar com o preconceito das pessoas. Eu recebi e ainda recebo muitos olhares me julgando. Já pensei em suicídio e minha saúde mental ficou muito abalada”, recorda a jovem diante da experiência de lidar com o público. A estudante destaca que a abertura de portas foi essencial, mas sabe que muitas empresas ainda negam oportunidades para pessoas trans.

O acesso à educação, afirma Laura Marcelli, é a base da pirâmide na busca do emprego formal. “Se a escola não acolhe, não aborda a diversidade, não fala sobre gênero, a sociedade não se prepara para a nossa existência”, afirma a estudante. O apoio familiar, revela, também é primordial, mas no seu caso, essa etapa foi vencida com mais facilidade. “Eu sei que é um privilégio conseguir manter laços afetivos com a família quando se assume trans”, destaca a jovem, que se apresenta como travesti.

Para Uma, o Sesc também foi sua primeira oportunidade e durante o estágio ela iniciou a transição. “As minhas relações amorosa e familiar estavam acabadas. Eu sentia que não tinha mais nada a perder. Eu só tinha de seguro o estágio e os estudos, então comecei a transição com acompanhamento endócrino”, relembra a jovem.

Sobre o mercado de trabalho, Uma destaca que as discussões precisam ser mais amplas. “Quando se discute a aposentadoria, a mulher trans e a travesti nem são lembradas. Como vamos falar de aposentadoria para uma parcela da população que morre aos 35 anos?”

Levantamento da associação europeia TransRespect confirma a preocupação da estudante sorocabana. O Brasil, segundo o estudo divulgado em 2017, foi responsável por 40% dos 2.600 assassinatos em todo o mundo nos últimos dez anos. A expectativa de vida de pessoas trans é menor que a metade do restante da população brasileira, que vive, em média, até os 75.

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Uma foi a primeira estagiária trans do Sesc Sorocaba. Arquivo pessoal (14/08/2019)

Uma relata que a prostituição acaba sendo a única fonte de renda encontrada por muitas mulheres trans e travestis. A jovem relembra que ao concluir um intercâmbio feito na Argentina, antes de ser contratada para o estágio no Sesc, chegou a pensar que a rua seria sua única opção. Após o estágio, Uma foi contratada temporariamente para uma exposição no MIS, onde está atualmente. “Tenho vários projetos em andamento, mas sinto que a sociedade não consegue nos acolher. O problema não sou eu. O problema é de quem não me aceita, não me respeita”, conclui.

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Kátia é gerente adjunta do Sesc Sorocaba e acredita que a educação é o principal instrumento para a diversidade. Foto: Acervo Pessoal/Facebook.

Inclusão e respeito

Kátia Pensa Barelli, gerente adjunta do Sesc Sorocaba, destaca que é uma política da rede trabalhar e respeitar a diversidade. Ela destaca que ainda hoje é comum pessoas procurarem a direção da entidade para reclamar sobre a presença de pessoas LGBT+, mas na maioria das vezes, através do diálogo, é possível resolver as questões. “Reclamam porque duas meninas estão de mãos dadas. Nesse momento questionamos se o mesmo ocorresse com um casal hétero, se seria um problema. Parece que então a ficha cai. É preconceito. É homofobia.”

Ela afirma que o Sesc sempre levanta bandeiras de inclusão e seguirá assim até que a sociedade compreenda que o diferente também merece respeito. “Creio que a liberdade é uma porta que não se fecha mais. As pessoas precisam ser livres para viverem em sua plenitude.”

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Levantando bandeiras

Respeitar e implantar a diversidade é a bandeira levantada pela multinacional Apex Tools, fabricante de ferramentas com planta em Sorocaba. André Rolim, 33, é diretor de recursos humanos da empresa para América Latina e conta ser o primeiro executivo assumidamente LGBT do grupo. “A caminhada até aqui foi longa, mas consigo ter o meu lugar de fala respeitado. É um peso gigante levantar esta bandeira e tenho como missão fazer com que ela continue de pé e que a Apex, independente da minha presença ou não, siga abrindo portas para a diversidade.”

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André, Raynan, Natália e William integram a comissão de diversidade da Apex. Foto: Emídio Marques (14/08/2019)

O especialista em RH também conta que trabalhar com a inclusão e a diversidade se mostra cada vez mais rentável aos grandes grupos, pois seus clientes também são compostos por pessoas de variadas vivências. “Por mais que ainda existam os conservadores e preconceituosos, o respeito ao diferente é um caminho sem volta. Ninguém mais vai fingir ser o que não é, ninguém mais vai voltar para os seus armários e os intolerantes é que precisarão ao menos guardar seus preconceitos para si”, afirma André. Atualmente a Apex Tools organiza processos de seleção direcionados ao público LGBT+, mulheres, negros e pessoas com deficiência.

O grupo também conta com um Comitê de Diversidade, atualmente liderado pela especialista de RH Natália Tamaio, 32. “É um processo de evolução constante e em um ano e quatro meses nós conseguimos avançar bastante”, afirma. William Gushikem, 34, é analista de comunicação global na Apex Tools e conta que a política da empresa faz também com que a produtividade aumente. “Um lugar que permite que cada um seja o que é possibilita um ambiente mais agradável e isso reflete diretamente na qualidade do trabalho. Esse é o primeiro lugar que eu trabalho sem medo de ser eu mesmo”, destaca.

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Raynan é aprendiz de T.I na Apex Tools, em Sorocaba. Foto: Emídio Marques (15/08/2019)

Em meio a todas as mudanças que estão ocorrendo dentro das organizações, Raynan Souza, 21, conseguiu encontrar a oportunidade que precisava. Formado em análise e desenvolvimento de sistemas, o jovem conta que começou sua transição para o gênero masculino ainda durante a graduação. Ele trabalhava em uma confeitaria e durante o período que se apresentava como mulher lésbica ainda era bem aceito, mas quando iniciou a transição o empregador passou a exigir que ele usasse uniforme feminino. “As pessoas começam a criar barreiras achando que a gente vai sucumbir, voltar atrás e se esconder novamente. Na minha família, infelizmente, ainda me chamam pelo pronome feminino, mesmo eu já tendo passado por muitas mudanças físicas e até retificado o meu nome em documentos”, conta o rapaz, que deve passar por uma mastectomia no final de agosto.

No ambiente de trabalho atual, na Apex, Raynan conta que as relações são saudáveis e respeitosas. “Eu sei que sou privilegiado por conseguir ser bem aceito no mercado, mesmo em uma empresa dessa área de ferramentas, que tinha tudo para ser conservadora.” Ele lembra que é comum as pessoas terem curiosidade quando o tema é transexualidade e que não se importa com os questionamentos. “As pessoas têm dúvida até sobre como se dirigir a mim, mas sempre falo que em caso de dúvida, é só perguntar como a pessoa prefere ser chamada”, afirma.

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Vic Barreto sempre trabalhou de forma autônoma por encontrar dificuldades no mercado formal. Foto: Arquivo Pessoal. (14/08/2019)

Descoberta progressiva

Diferente de Raynan, Vic Barreto, 23, não conseguiu entrar no mercado de trabalho formal, mesmo após concluir sua licenciatura em Biologia. “Me esforcei muito, sigo estudando, enviando muito currículo, mas nunca consegui um emprego com carteira assinada. Sempre trabalhei de forma autônoma, vendendo doce, fazendo artesanato e atualmente sou consultor de vendas de uma linha nutricional”, relata.

Vic relembra que a aceitação da sociedade foi diminuindo conforme ele avançou em sua transição como homem trans. “Primeiro me assumi bissexual, depois lésbica, depois não binário e só há um ano e meio comecei a transição, fazendo acompanhamento com endocrinologista particular.” O jovem destaca que trazer o tema transexualidade à tona é necessário para que as pessoas tomem conhecimento sobre esse grupo e saiba que segregar, seja na família, entre amigos ou no mercado de trabalho, só contribui negativamente para a sociedade.

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