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Moradora de Sorocaba conta detalhes do período que passou com Kat Schurmann

Simone passou seis meses com a 1ª família brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro



Simone hoje mora em Sorocaba e trabalha como eletricista. Um arrependimento: não ter passado mais tempo com Kat – Foto: Erick Pinheiro

“O que eu me arrependo de verdade é não ter passado mais tempo com ela, de ela ter partido e eu saber que a gente poderia ter feito mais coisas legais juntas.” A hoje eletricista e moradora de Sorocaba Simone Cristina da Silva, 36, carrega esse sentimento há quase 20 anos. De 2002 a 2003, ela foi a cuidadora da menina Kat Schurmann, à época com 9 anos de idade. Adotada por Heloisa e Vilfredo Schurmann, integrantes da família de brasileiros que foi a primeira a dar a volta ao mundo de veleiro, Kat nasceu em 1992, na Nova Zelândia. A jovem carregava o vírus HIV desde o nascimento e as complicações da Aids causaram a morte dela em 29 de maio de 2006, aos 13 anos.

Simone trabalhou para a família durante seis meses, tempo suficiente para alimentar um amor genuíno por Kat. Inclusive, lembra facilmente das características da garota. “A Kat era sorridente, esperta. Falava português, dominava o inglês, dizia que gostava do espanhol e que ‘arranhava’ o francês. Ela conhecia o mundo inteiro, contava sobre lugares onde ia. Ela já tinha visto de tudo, conhecia culturas e gostava de falar sobre isso”, comenta, sobre a menina autodidata que estudava por conta própria e chegou a conhecer 19 países ao redor do mundo.

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O período como cuidadora de Kat foi totalmente por acaso na vida de Simone. A paulistana trabalhava no restaurante de um flat na Vila Olímpia, onde os Schurmann sempre se hospedavam. Certo dia, lá estava Heloísa fazendo entrevistas com mulheres para cuidar de Kat. “A Kat estava bem entediada e eu comecei a brincar com ela, distrai-la entre uma entrevista e outra”, recorda. Diante da afinidade momentânea construída pelas duas, a matriarca da família logo convidou Simone para participar do processo. “Ela perguntou quanto eu ganhava, se estava feliz, mas eu disse que sim, estava com a carteira registrada”, lembra.

Até que o destino tratou de unir o laço criado entre Simone e Kat naqueles poucos minutos de convivência. O restaurante estava prestes a fechar e a paulistana foi despedida dois meses depois do encontro. “Mas uma amiga continuou trabalhando no flat, então a dona Heloísa pediu o meu contato a ela e imediatamente entrou em contato comigo”, diz. A mãe da menina, então, fez a proposta para que Simone cuidasse de Kat na casa da família, em Ilhabela. Desempregada, ela aceitou prontamente.

Amigas

Simone com Kat: a menina era sorridente e esperta – Foto: Acervo Pessoal

Com a proximidade, Simone virou Mônica para Kat. “Um dia ela falou: ‘eu acho que seu nome tem que ser Mônica’. E aí todo mundo passou a me chamar de Mônica. Até eu saí convencida de que me chamava Mônica”, conta, aos risos. A menina também não gostava que dissessem que Simone era a cuidadora dela. “Para a Kat, eu era uma amiga.”

O carinho pela família, aliás, faz a paulistana ter lembranças da personalidade de cada um deles na ponta da língua. E, mesmo depois de tanto tempo, os prefixos ‘dona’ e ‘seu’ não se perdem no vocabulário. “Dona Heloisa é simples, gosta de usar ‘shortão’, camiseta e um chinelinho de couro, uma típica americana. Seu Vilfredo também, já acorda sorrindo, entra na cozinha fazendo aquele barulho, dando bom dia para todo mundo, perguntando como estávamos. O Wilhelm (filho caçula) a gente via muito pouco, porque viajava mais. O seu David (filho do meio) a gente já conhecia de São Paulo, super-sorridente, brincalhão. E tinha o Pierre (filho mais velho), que era mais sério”, descreve.

Em relação a Kat, a menina que adorava brincar de teatro e era fã de batata frita, cenouras fininhas e ovos, Simone afirma que “apesar de ser rica, inteligente, não era mimada”. “E ela tinha uma educação bem rígida, tinha as obrigações dela. Assistir televisão era só uma ou duas horas por dia no máximo. O resto ela tinha que ser proativa, criativa e, de fato, achava mil e uma coisas para fazer.”

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Naquele período, segundo a ex-cuidadora, a menina não sabia que carregava o vírus, assim como boa parte dos colaboradores da família. “Ela tomava bastante remédios, durante a madrugada, de manhã e à tarde. Eram os coquetéis que a gente chamava de ‘meméia da Kat’. Era como se fosse uma vitamina, para ajudar na imunidade dela, mas os rótulos eram todos tirados.”

Uma pequena e amada marinheira

Seis meses com Kat Schurmann
Foto: Divulgação

Kat Schurmann nasceu em 1992 na Nova Zelândia. Aos 3 anos, tornou-se a mais jovem marinheira ao ser adotada pela Família Schurmann. Participou da Magalhães Global Adventure dos 5 aos 8 anos, navegando ao redor do mundo e conhecendo 19 países.

Fluente em inglês e português, estudou por correspondência pelo método americano de ensino da Calvert School. Corajosa marinheira, Kat praticou diversas modalidades de aventuras: desceu rios em rafting, subiu montanhas e vulcões, nadou com os golfinhos e mergulhou em Fernando de Noronha. Sempre alegre e brincalhona, era uma determinada defensora do meio ambiente e inspirou a criação da fundação do Instituto Kat Schurmann.

Kat faleceu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos de idade, devido a complicações decorrentes do vírus HIV, do qual era portadora desde seu nascimento. A pequena e amada marinheira está simbolicamente presente na Expedição Oriente no nome do veleiro Kat, batizado em sua homenagem. (Fonte: schurmann.com.br)

Na despedida veio a revelação sobre o HIV e a doença de Kat

Simone soube da existência do vírus no corpo de Kat apenas quando estava se despedindo da família. Ela namorava um rapaz em São Paulo e o relacionamento estava fadado a terminar devido à distância. “Eu fui comunicar a dona Heloísa, não falei que era por causa de um amor quase de adolescente, não tive coragem, falei que estava com saudade da família”, começa. “E aí, eu com as malas já prontas, ela disse, com lágrimas nos olhos: ‘Simone, vou te contar uma coisa, a Kat é uma criança em fase terminal’. Aí eu não entendi direito e ela falou o que a Kat tinha. Ela disse que nenhum funcionário da família sabia, que só estava contando para mim. E eu guardei o segredo, nunca contei para ninguém, mesmo quando saí de lá”, continua.

Seis meses com Kat Schurmann
Por conta do preconceito, a família manteve discrição sobre a doença de Kat – Foto: Divulgação

A então amiga de Kat obviamente ficou balançada, mas seguiu o coração apaixonado. Logo que chegou a São Paulo, porém, decepcionou-se. “Soube que ele tinha outra”, lamenta. “Como eu quis voltar atrás, mas eu tinha vergonha de pedir para a dona Heloísa”, diz ela, que chegou a visitar a família ao menos três vezes após deixar a função de cuidadora. A respeito da decisão da matriarca dos Schurmann em manter sigilo sobre o vírus, Simone julga ser compreensível. “Concordo plenamente com a dona Heloísa. Se hoje em dia as pessoas já tratam com uma certa diferença, imagina nos anos 2000. Naquela época o preconceito era muito grande, as pessoas não entendiam. E esse era o medo da dona Heloísa, de que taxassem a Kat por o que ela tinha”, declara.

A ex-cuidadora lembra que a própria Kat, apesar de não ter ciência do HIV, era bem instruída para determinadas situações. “Quando a Kat se machucava, era pedido para ninguém limpá-la. Qualquer ‘sanguinho’ ninguém mexia, ela mesmo limpava se a dona Heloísa não estivesse. A Kat sabia fazer as próprias ataduras, era muito auto de si.”

E o último contato de Simone com a família foi cerca de dois anos antes da morte de Kat, cuja data ela ainda tem na ponta da língua. “Como eu chorei quando soube. Ela morreu em 29 de maio de 2006, mas só divulgaram depois, acho que a pedido da família. Eu soube porque minha mãe me ligou, falando que estava passando uma reportagem na TV”, resume. “Depois da morte da Kat, nunca mais tive coragem de procurá-los. Eu queria estar com ela nesse momento, que a gente sabia que uma hora ou outra ia acontecer, mas não imaginava que tão rápido”, cita.

A influência indireta na educação das filhas

“Não sei tanto se foi por conta da dona Heloísa, mas ela, não sei o que aconteceu, sempre deixou algo bem marcado em mim, assim como toda família.” Simone descreve assim a sequência da vida “pós família Schurmann”. Há quatro anos, a paulistana adotou Carol, hoje a mais velha do trio de filhas, com 18 anos. Além dela, Melissa, 9, e Noemi, 12, são as “herdeiras”. “A dona Heloísa sempre dizia: ‘Simone, quando você tiver os seus filhos, o seu ‘não’ sempre tem de valer’. Ela nunca precisou gritar em casa e é assim que tento educar minhas filhas”, afirma.

Seis meses com Kat Schurmann
Simone com as filhas, a família veio para Sorocaba em busca de tranquilidade – Foto: Acervo Pessoal

Simone mudou-se para Sorocaba há pouco mais de um ano, justamente pensando no crescimento das filhas — a mãe dela veio morar aqui há 10 anos e, quando a visitava, passou a gostar da cidade. “Aqui não tem comparação com São Paulo. Lá, com essa história de drogas, dá muito medo. E a violência também. É claro que aqui existe, mas bem menos. Em São Paulo fui assaltada pelo menos nove vezes”, aponta. “As pessoas são muito mais acolhedoras em Sorocaba. Eu nunca ouvi tanto ‘Deus abençoe’ quanto aqui”, brinca.

Entre tantos enredos de uma vida digna de um livro, Simone também carrega outra curiosidade: é eletricista, profissão ainda não tão comum assim às mulheres. “Trabalhei por seis anos na Eletropaulo, que criou um grupo de mulheres eletricistas. Aqui em Sorocaba, no primeiro currículo que mandei, já me contrataram. Na entrevista, falaram que era para trabalhar na moto desligando disjuntor, o que chamamos de ‘corte no selo’, quando a pessoa atrasa a conta. Eu falei ‘o quê, eu eletricista vou desligar no selo (risos)?’. Eu contei que tinha experiência, aí eles se surpreenderam e confiaram no meu trabalho. Com um mês, já fui promovida”, orgulha-se a mulher de sorriso fácil e que esbanja determinação.

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