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Além de proporcionar experiências, hábito da leitura pode afastar doenças

Os livros podem afastar a depressão, retardar o envelhecimento do cérebro e evitar o mal de Alzheimer
Quem lê seus males espanta
Viver várias histórias e conhecer lugares fantásticos sem sair do lugar é o que fascina Ariane – Foto: Erick Pinheiro

Um mundo paralelo. Um amigo. Uma válvula de escape. O livro, seja lá qual for o gênero, pode proporcionar muitas experiências ricas, tornar a vida mais leve e também é como uma ginástica para o cérebro. Cientistas da Universidade Emory, dos Estados Unidos, descobriram que ler afeta o cérebro como se o leitor realmente tivesse vivenciado os eventos sobre o qual lê.

A pessoa que mantém o hábito da leitura também consegue retardar em aproximadamente 30% a redução do funcionamento do cérebro que ocorre naturalmente com o passar dos anos. Pesquisas também comprovam que ter o livro como amigo fiel protege contra doenças como o mal de Alzheimer.

Com o pai vendedor de livros, Ariane Gisele dos Reis, 33, relembra que desde os três anos já era incentivada a ter contato com revistas em quadrinhos e contos infantis. A analista de marketing digital conta que lê de tudo, desde a bula de remédio até os clássicos da literatura. “Meu gênero favorito é fantasia como Harry Potter e Senhor dos Anéis. Também amo romances históricos e de época”. Seu livro favorito é O Mundo de Sofia, do autor Jostein Gaarder.

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Além de ler, Ariane também é apaixonada pela escrita e para unir esses dois prazeres ela mantém um blog batizado de My Dear Library há nove anos. Ela recorda que a ideia do blog surgiu em um momento difícil de sua vida, quando deixou sua cidade natal, Joinville, em Santa Catarina, e chegou a Sorocaba. “Demorei um pouco para me adaptar e fazer novos amigos, por isso o blog foi o meio que encontrei de conversar sobre livros e músicas”, conta a analista.

Para ela, os livros são sempre seus “melhores amigos”. O fato de viver várias histórias e conhecer tantos lugares fanáticos sem sair do lugar é o que fascina Ariane, que considera a leitura como o presente mais preciso deixado por seus pais. “Nunca me sinto sozinha na companhia de um bom livro e sempre quando leio a última frase, fico com o coração um pouco apertado, pois a sensação é que realmente estou me despedindo de um amigo”, compara.

O hábito vem do exemplo

Quem lê seus males espanta
A leitura foi a válvula de escape contra a depressão para Camilla – Foto: Acervo Pessoal

A jovem estudante de pedagogia Camilla Fenley Antas de Abreu, 20, conta que sempre observou a mãe lendo e isso despertou nela o mesmo hábito. “Ela foi meu exemplo para adquirir essa paixão.” Na adolescência, conta encontrou nas páginas dos livros uma válvula de escape para driblar a ansiedade. “Era uma forma de me acalmar saindo da minha realidade, seja aprendendo algo novo com os livros ou entrando em algum universo diferente daquele em que eu estava vivendo”, relembra.

Embora goste de ler de tudo um pouco, a estudante tem preferência pelos livros de terror e suspense. Ela também fica intrigada com narrativas de investigação policial e reportagem. Camila lê desde best sellers até livros menos conhecidos. “Eu gostaria sim de conversar com mais pessoas as histórias que leio, mas sinto que muitas vezes, se não são livros muito populares, fica difícil falar sobre.” Entre os livros que considera mais marcantes está A menina que roubava livros.

João ainda não sabe ler, mas já ama o universo da leitura

Ele ainda não consegue ler frases inteiras, escreve algumas palavras, acha difícil juntar vogais e consoantes e confessa: “Ainda estou aprendendo”. O pequeno João Pedro Marconato Negrão, 6, embora ainda seja um aprendiz na alfabetização, com certeza já “leu” mais livros que muito adultos e é capaz de identificar autores e ilustradores pelo traço.

Histórias com animais ou então com ídolos do rock são as que mais agradam João Pedro e ele é capaz de listar pelo três de seus preferidos na literatura infantil. “Gosto muito do Alexandre Rampazo, da Eva Furnari e da Sil”, fala o pequeno, com intimidade, ao se referir à escritora e ilustradora sorocabana Silvana Rando, que é amiga da família de João Pedro. A mãe dele, a pedagoga Vanessa Marconato Negrão, 35, conta que desde os primeiros meses de vida os livros já faziam parte da rotina. “Sempre ofereci para que ele explorasse e eu e o pai sempre lemos bastante para ele.”

Quem lê seus males espanta
A mãe, Vanessa Negrão, e João Pedro, 6; leitura faz parte da rotina desde os primeiros meses de vida – Foto: Acervo Pessoal

Vidrado nos desenhos, João Pedro já teve a chance de conhecer alguns de seus ilustradores favoritos, como é o caso de Alexandre Rampazo. “Eu amo os desenhos. Ler é legal, mas eu estou aprendendo agora. O que eu não consigo entender, eu perguntou para a minha mãe ou para a professora.” Ele considera que escrever é mais fácil, pois consegue de alguma forma memorizar a sequencia de letras que formam as palavras.

João Pedro vai para a escola no período da manhã, conversa com todos que encontra, fala algumas palavras que surpreendem até mesmo a própria mãe. Ele tem um vocabulário rico, ama animais e ir ao sítio do avô é sempre uma aventura. Diante de um celular, com uma infinidade de jogos, quase sempre prefere um livro ou uma folha de papel sulfite e lápis de cor para desenhar.

Ofereça livros e não eletrônicos

A leitura é a passagem para um outro mundo e engana-se quem pensa que só se lê palavras. Na primeira infância, quando o alfabeto ainda é desconhecido, as crianças já possuem a capacidade de ler as imagens e compreender o que é um livro. A pedagoga e mediadora de leitura Vanessa Marconato Negrão, 35, destaca que através dos livros, “as crianças começam a nomear o mundo”. A neurologista infantil Tatiana Freire orienta que a leitura deve começar a ser estimulada antes de um ano, através de histórias contadas. A médica é taxativa em afirmar que as crianças não devem ser expostas precocemente a aparelhos eletrônicos, enquanto para os livros não há contraindicação.

Vanessa destaca que muitas pessoas pensam que o bebê não é capaz de entender a história, mas afirma que a partir dos três meses a criança já consegue compreender a cadência da história. “Como professora, noto na sala de aula uma grande diferença na evolução das crianças que são estimuladas desde cedo, já em casa. Essas crianças têm muito mais facilidade para se comunicar. Conseguem verbalizar sentimentos e têm o vocabulário rico.”

Quem lê seus males espanta
O livro é a principal ferramenta para apresentar aos pequenos o mundo das palavras – Foto: Pixabay.com

Na primeira infância, conta a pedagoga, o livro é a principal ferramenta para apresentar o mundo para os pequenos e ensinar de forma leve a infinidade de palavras existentes. “Não faço nenhum trabalho mecânico de alfabetização com os alunos, mas percebo que lendo para eles e os colocando em contato com o objeto livro, a alfabetização vai surgindo naturalmente”, afirma. Vanessa conta que não se prende a recomendação de faixa etária das publicações e sim busca histórias que se conectem com os pequenos ouvintes. “O nosso pecado é subestimar as crianças. Enquanto leio eles vão compreendendo pelo contexto. Não é necessário explicar palavra por palavra, a não ser quando eles perguntam.”

Ofereça livros

A neurologista infantil Tatiana Freire conta que nos primeiros anos de vida, além de escolher histórias que prendam a atenção, os livros devem ter muitas gravuras, para que a imaginação e criatividade da criança sejam estimuladas. “O hábito da leitura e interpretação de figuras também desenvolve o raciocínio e a memória”, afirma.

Tatiana reforça que a leitura deve ser introduzida como diversão, com fantoches, mudança de voz, de uma forma teatral que proporcione momentos de surpresa e felicidade. “Não é recomendado colocar horário fixo, pois nem sempre a criança estará com a mesma energia no mesmo horário. Não pode tornar a leitura uma punição”, alerta.

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A médica destaca que introduzir os livros no cotidiano da criança também é uma forma de prender sua atenção e evitar o contato precoce com equipamentos eletrônicos. Segundo Tatiana, o uso de eletrônicos faz a dopamina (substância cerebral relacionada ao prazer) se elevar durante a exposição, o que cria prazer imediato e o prazer imediato cria dependência. “Já o livro estimula a criança a raciocinar e demanda mais esforço cerebral.”

O uso de celulares, notebooks e tablets na primeira infância ocasiona alteração do desenvolvimento de alguns circuitos cerebrais, como a capacidade de reconhecimento de faces e de diálogo, a atenção alternada e a visão em profundidade. A Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria, proíbe o uso de eletrônicos em crianças com menos de dois anos. “Além de alterações cerebrais, também pode desencadear cefaleia, distúrbios oftalmológicos e ortopédicos”, destaca a médica. Já para os livros, não há contraindicação ou riscos.

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