Mix

Pode me chamar de Fite!

Histórias do Grafite
Pode me chamar de Fite!
Crédito da foto: Neusa Gatto

Neusa Gatto

Devoro a comida na tigela quando, de repente, olho pra cima e dois olhos verdes enormes estão fixados em mim. Arrepio meus pelos. Dou um passo pra trás. Faço careta. Em vão. Ele se aproxima. Quem será esse? Será… o Chiconauta? O tal que o Mestre me alertou pra ter cuidado? O “gatonoico”?

Sempre com os olhos em mim, cheira meu nariz e já fala: sou o Chiconauta. Sabia, penso eu, com essa cara…

Também moro aqui, continua ele, e quero falar com você. Era o que eu temia, penso, mas enfrento o medo e mando essa: que negócio é esse de cheirar meu nariz? Falo e rápido já volteio o corpo pra sair. Ele me rodeia ameaçador e diz: eis que conheço o famoso Grafite. Famoso Grafite? Penso. E, na educação respondo: Sim, sou o Grafite. Mas, pode me chamar de Fite.

Fite? Já tem até apelido? E já soube que é o xodozinho da moça que mora aqui, fala ele um tanto enciumado. Xodó da moça? Do que ele tá falando?

Tou falando da hippie que nos serve. Não vejo você dançando com ela na sala? Brincando com suas pulseiras? Ou esparramado na mesa do computador enquanto ela escreve? Mas não vim aqui pra conversa fiada garoto, fala Chico. Bom, se não quer conversa tou indo embora. E, mais uma vez, me coloco em retirada. Mas, não tem jeito. Olhe aqui, mia alto ele. Não gosto de gato medroso, fraco, bobão, tímido, vacilão. Tá entendendo? Aqui, cada um sabe do seu espaço. Não folga na do outro.

Sei, sei, sei, o gato Mestre já me falou… E arrisco: Agora, com licença, vou acabar de comer.

Petulante o rapaz, cicia Chiconauta pro Mestre que acompanha a conversa.

Nem bem acabo de comer e a campainha toca. Me escondo rápido. E, de repente, me acham. Esperneio, mio, mio, mio o que posso e, então, sinto uma picada nas costas.

Pronto, vacinado, diz o homem que me espetou. Mestre e Chiconauta só olham. Chegou a vez dele, falam com um sorrisinho maroto.

Calma Fite, fala afetuosamente a moça que mora aqui. Pronto, acabou. Agora, você não fica doentinho. Vai crescer um gato forte. Bonito. Lindo como já é.

Ela então beija minha cabeça e eu me derreto todo. Olho de soslaio pro Chiconauta que nos observa. E, juro que vejo nele um olhar enviesado, estranho… Mas, não tenho medo. Nesse momento, sou o gato mais feliz do mundo!

Comentários