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Militares do Exército em Sorocaba viajam até Roraima para trabalhar com refugiados venezuelanos

Quatro militares sorocabanos passaram três meses no Norte do País na missão humanitária Operação Acolhida
Operação Acolhida, uma missão humanitária
As funções dos oficiais nos abrigos eram as mais variadas, incluindo, além da segurança interna, controle da distribuição de água e energia. Crédito da foto: Divulgação

O clima quente com temperatura de quase 40 graus no solo dos abrigos de chão de cascalho contrastavam com as chuvas torrenciais nos alojamentos de plástico, Rondon 1, 2 e 3, na cidade de Boa Vista, em Roraima. Esses locais serviram de morada para quatro militares da 14ª Circunscrição de Serviço Militar de Sorocaba, que integraram por cerca de três meses o efetivo da “Operação Acolhida”, missão humanitária do Governo Federal para receber refugiados venezuelanos.

Silvio Dutra de Souza e Cesar Castilho Meirelles de Castro, ambos subtenentes. Flávio Antônio Simplício e Fábio Antônio dos Santos, 2 º sargentos, são parte dos militares de todo o País que participaram da Operação Acolhida.

Eles partiram em missão em 29 de abril, quando saíram de Sorocaba com destino à base aérea militar de Boa Vista. Após sair da área militar, a primeira visão encontrada pelos militares foi do aglomerado de venezuelanos na região da rodoviária da capital. Homens, mulheres, muitas grávidas, e crianças que aguardavam por uma vaga em um dos abrigos.

Apesar de conseguir abrigar muitas pessoas, a capacidade dos alojamentos ainda não é suficiente para todos os que cruzam a fronteira, contam os agentes do Exército. Enquanto não conseguem entrar nos abrigos, muitos passam tempos morando nas ruas da capital do Estado.

As funções dos oficiais nos abrigos eram as mais variadas, incluindo, além da segurança interna, controle da distribuição de água e energia — que hora ou outra sofria queda — alimentos, café da manhã, almoço e jantar, e o acionamento de socorro por ambulância quando alguém passasse mal.

Alojamentos de plástico, também chamados de carpas, são construídos sobre cascalho. Crédito da foto: ACNUR/ Reynesson Damasceno

Sensação de impotência

Durante uma distribuição de refeições, Dutra percebeu que a quantia de pessoas na fila ultrapassava o de comida disponível. Para ele, sensação de impotência. “Eu tinha uns biscoitinhos na mochila, e até pensei em distribuir aquilo ali, mas não ia dar”, comentou o subtenente. Esse cenário de fome, segundo os militares, favorece a prostituição, com mulheres oferecendo programas por até R$ 2. Outra cena vista por Dutra que marca os sintomas da fome vivida por essas pessoas era uma fila de venezuelanos para comprar carne — literalmente — podre. “Cheguei a ver uma criança bebendo água suja de um rio”, lembrou o oficial.

Operação Acolhida, uma missão humanitária
Dutra, Castro, Simplício e Santos, militares de Sorocaba que foram para Roraima em abril. Arquivo Pessoal

Simplício conta que se deparou com uma briga entre duas mulheres. Uma delas era lactante e precisou ficar presa por ter agredido a outra. O trabalho dos militares foi encontrar uma mulher que pudesse amamentar o filho dela enquanto estava presa, quando acharam a avó da criança, que também estava amamentando. “Descobrimos que ela estava no abrigo ao lado, o Rondon 3.”

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Os agentes precisaram lidar também com o problema de refugiados que pegavam os mantimentos e vendiam para comprar drogas. A situação ocorrera diversas vezes com fraldas descartáveis, por exemplo, e até alimentos fornecidos pelo Exército. Por isso, os mantimentos passaram a ser ainda mais racionados e distribuídos no momento do consumo.

Experiência intensa

Apesar de já terem participado de outras missões pelo Exército, a Operação Acolhida certamente foi a mais intensa, justamente por seu caráter humanitário. O sol forte obrigava os militares a usarem óculos escuros e, além de protegerem os olhos, serviram para esconder muitas lágrimas, conforme declarou Castilho.

O subtenente ficou tocado principalmente com as crianças que não tinham sequer um chinelo para pisar no chão de pedras. E foi esse simples objeto, sandálias de borracha, contam os oficiais, que eles mais deram de presente para os venezuelanos durante a missão. “Tinha um rapaz andando sem metade do chinelo, aí eu dei meu chinelo para ele”, comentou Simplício.

Agentes participaram da operação por três meses. Crédito da foto: Emídio Marques (30/09/19)

Prestes a irem para a reserva — a aposentadoria dos militares — os quatro garantem que, certamente, essa foi a “missão de suas vidas”. Além das agências da ONU, são instalados nos locais postos da Polícia e Receita Federal, Ministério da Saúde e Trabalho. Os imigrantes recebem vacinas, carteira de trabalho, registro nacional de estrangeiros e um Cadastro de Pessoa Física (CPF).

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Interior é chance de vida nova

O processo de interiorização é a chance de uma nova vida para esses refugiados. A ação consiste em conseguir trabalho, podendo ter moradia, para essas pessoas em diversas partes do País, como São Paulo, Rio de Janeiro e, o mais querido pelo venezuelanos, o Rio Grande do Sul. Toda essa triagem é feita por meio do posto do Ministério do Trabalho instalado no acampamento em Roraima.

Já foram emitidas, desde 2017, 70 mil carteiras de trabalho. Após a emissão de toda a documentação, os imigrantes que conseguirem um trabalho em uma cidade no interior do Brasil passam pelo abrigo Rondon 2. Ele funciona como uma estadia temporária para os venezuelanos.

Segundo a Casa Civil, mais de 20 mil imigrantes já foram interiorizados desde o início da operação. Os estados que mais receberam imigrantes venezuelanos são o Amazonas (2.860), seguido por São Paulo (1.522), Santa Catarina (1504), Rio Grande do Sul (1.442) e Mato Grosso do Sul (1164). Ao todo, 24 Estados de Norte a Sul do País e o Distrito Federal receberam venezuelanos.

Venezuela enfrenta maior crise já registrada na América Latina

Fronteira da Venezuela com o Brasil, na cidade de Pacaraima. Crédito da foto: Reprodução/Google Maps

Esta é a maior crise humanitária da história da América Latina, afirma o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade de Sorocaba (Uniso), Rodrigo Amaral. O especialista destaca que a crise na Venezuela ocorreu em meados dos anos 2000, com a implantação do regime socialista do governo de Hugo Chávez, que vem sendo mantido pelo atual presidente Nicolás Maduro.

O docente aponta que houve um grande impacto após um embargo econômico no país, devido a problemas políticos e as relações exteriores com a Venezuela. Com isso, a exportação do país caiu, principalmente do petróleo, principal produto que movimentava a economia. “Um terço desta exportação era destinada aos Estados Unidos”, explicou o professor. Desde então, a economia se mantém instável, estimulando a saída dos nativos do país. O salário mínimo de 40 mil bolívares, conforme cotação feita em 4 de outubro, equivale a U$$ 1,98 dólares americanos, cerca de R$ 8.

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Imigração

Operação Acolhida, uma missão humanitária
Desde 2017, o Brasil já recebeu mais de 200 mil venezuelanos. Crédito da foto: Edmar Barros / Arquivo Futura Press / Estadão Conteúdo (22/2/2019)

A ONU prevê que 5,3 milhões de refugiados e migrantes e venezuelanos deixarão o país até final de 2019. O órgão aponta ainda que o número de venezuelanos que já deixaram o país soma cerca de 4 milhões de pessoas.

A Polícia Federal estima um saldo migratório de mais de 200 mil venezuelanos, desde 2017, considerando aqueles que entraram e ficaram no Brasil. Conforme levantamento feito a partir do mesmo ano, o Brasil já recebeu 115 mil solicitações de refúgio e mais de 90 mil solicitações de residência temporária. “Se tratando de refugiados, está com um patamar parecido com o Afeganistão e a Síria”, comentou Amaral.

Trabalho é feito desde 2018

A missão humanitária, realizada pelas Forças Armadas com apoio de agências da Organização das Nações Unidas (ONU), desde março de 2018, tem levado aos refugiados venezuelanos condições básicas de sobrevivência para quem atravessa a fronteira da Venezuela com o Brasil em busca de uma nova vida. Mesmo com a fronteira na cidade de Pacaraima fechada, cerca de 500 pessoas entram diariamente no Brasil por rotas alternativas.

De início, a ideia dos abrigos era paliativa, já que os próprios nativos esperavam que a crise no país tivesse um prazo para terminar. Como a situação tem sido a mesma há vários meses, muitos decidiram não só procurar refúgio, mas ficar de vez no Brasil. E o primeiro Estado onde esses refugiados se instalam é Roraima.

Para haver controle migratório, o Exército Brasileiro vem atuando em 11 abrigos distribuídos na unidade federativa. Cada um desses abrigos é administrado por uma agência associada à ONU. (Aline Albuquerque – programa de estágio / Supervisão: Carolina Santana)

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