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Morder e arranhar

Confira a coluna de Neusa Gatto
Morder e arranhar
Crédito da foto: Neusa Gatto Pereira

Neusa Gatto

Grafite, para! Já vamos chegar! Dentro da caixa onde estou ouço essa voz. Da moça que me deu esse nome e tá me levando embora. Vou pra algum lugar. Onde, não sei. Tava tão bem na casa do meu amigo Cicinho onde fiquei uns dias. A gente até já tava se entendendo. Sei, sei, respondia eu quando já ia me deitar no canto da escada, lugar preferido dele. Bastava um olhar e eu já armava a saída…

Escuta o que tou falando gato, não me interrompa, ralhava ele quando eu me alvoroçava pra entender alguma coisa. Terminava e aí então, me olhava fixamente: diga, pirralho! Aí já tinha até esquecido o que ia perguntar.

Hei gato! Vai ficar filosofando ou vai tratar de sair daí? penso num flash. Diacho! E, mio, pulo, arranho. Soco a tampa. Não ouço os apelos pra me acalmar. Não quero saber. E salto, salto, salto. Salto tanto que saio pelo teto. Me desequilibro. Agarro na beirada da caixa e caio. Escorrego e rolo pro chão. Então trato de me esconder. Entro num lugar escuro. Quantos fios trançados… Fico ali, quieto. Parece que ouço música.

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E, então, vapt. Uma mão me agarra. Dou escândalo. Tento morder, arranhar. E, mio, mio, mio. Não adianta. Lá vamos nós.

Na casa em que chegamos, logo estou no chão. Olho pros lados. Dou uma geral no ambiente. Algumas coisas me interessam. Mas, vejo mais tarde, penso. Lambo minhas patas. E, então dois olhos verdes estão plantados em mim. Um enorme gato rajado, ali, na minha frente. E, nenhuma rota de fuga.

Oi, eu sou o Mestre, mia ele. O tom é amistoso, ainda bem, penso eu. Já vou avisando, continua, não gosto de briga. Curto meditar sozinho. Corro atrás de uns passarinhos. Não venha beliscar na minha tigela que não sou de dividir comida. E não me acorde da siesta da tarde. Ora, ora, ora, vou ter companhia, digo pra mim mesmo. E, então arrisco: olha, se é pra deixar as coisas às claras, sou do tipo um tanto mal humorado. Tenho lá meus temperamentos. Mas sei respeitar hierarquia. Só não folgar comigo…

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Vai dar trabalho, resmunga o Mestre, e olha sério pra mim.

Fite, banho! Escuto a moça falar. Banho?

Dentro de uma água morna esperneio. Grito até. Não adianta. Então, vamos acabar logo com isso, esgoelo longamente.

Fim da tortura, a recompensa: aveia com leite. Enfio a cara e como desesperadamente. Raspo o prato. Exausto, arrasto minha barriga cheia até o tapete da sala e durmo. Sonho e sonho. Com uma montanha de papa de aveia, pássaros, borboletas. Um sono cheio de corridas, saltos, brincadeiras. Uma nova vida começa pra mim.

 

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