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Momentos!

Confira o artigo de Neusa Gatto, jornalista e produtora de vídeo
Momentos!
Crédito da foto: Neusa Gatto

Neusa Gatto

Um olhar estreito. Fixo. Focado pra dentro da casa o espanta. E o enternece. Ali, na sua frente, seu querido amigo dança. Como ele sempre imaginou que ele dançasse. Embora, nunca tenha visto. São raras as vezes em que nos aproximamos muito, pensa ele. De vez em quando. Algumas por iniciativa dele, outras, minha. O conheço um pouco mais a partir de agora. Miudezas. Sei que ele também me observa. Momentos de olho no olho, como se me visse pela primeira vez.

Estranho, porém, entendo. Sou um pouco assim também. Como se fosse um susto, uma folhinha ao vento, uma sombra na parede, uma mosca a zanzar no ar, já me deixam ligado.

Sento no parapeito da janela e continuo ali, a olhar. Bebeu a mais. Sábado é dia de suas alquimias alcoólicas.

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Daqui, capto a energia dele a dançar. E devolvo, com prazer, meu melhor olhar esverdeado.

Opa! Ele me viu. Chega à janela e sibila alguma coisa. Meu nome. Me mantenho impassível e inclino a cabeça. Ganho cafuné. Gosto do seu carinho. Sem exagero. Na medida, em momentos individuais e profundos. Nas horas certas.

Está só, como de costume.

Mas, enfim. Sou apenas um gato. Ainda na flor da idade que começa a compreender a vida e a si mesmo. Talvez por não ter tido uma infância amorosa. Ter perambulado pra escapar de índoles incompreensivelmente más. Sim, sou um tanto esquivo.

– Oi Grafite. Que lindo. É bravo? Perguntam alguns, talvez por minha cara de poucos amigos, que criei pra minha autodefesa. Olho apenas. Longamente pra quem pergunta. Entendem de um jeito ou de outro, na patada, quase sempre, que decido quem se aproxima. Quem ganha meu chamego. Ali, olho no olho, identifico os que podem se achegar.

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Olha o gato, vão dizer, a esnobar… como sempre…

Não, sem esnobismos, preservo apenas minha individualidade. Meu espaço. Não me importa se gostam ou não… Sou assim.

E, então, um perfume no ar me arrepia os pelos. Giro as orelhas em busca de algum som. Olho de lado e sinto nas costas mãos que me acarinham. Assusto, mas meu sexto sentido me alerta pra não revidar. Conheço o ser que me afaga. E gosto. Me espicho, rolo no chão, demonstro o agrado. Recebo um beijo no nariz. Que insolência deliciosa tem ela. Fecho os olhos e, num instante, lá estão os dois juntos, a dançar. Sorriem. Se olham. Entendo agora a felicidade dele. Saio devagar. Não quero ser indiscreto. Vou pra escada curtir uma sombra. Uns passarinhos. Borboletas a voar e um bom cochilo, daqueles que só os gatos sabem aproveitar.

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Neusa Gatto é jornalista e produtora de vídeo

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