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Luciano, um guerreiro que não fugiu à luta

O coletor de lixo conta como superou momentos difíceis e, amante dos livros, hoje estuda para ser professor
Luciano, um guerreiro que não fugiu à luta
Muitos dos livros lidos por Luciano foram encontrados no lixo. Lixo para uns, tesouro para outros. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Luciano é coletor de lixo em Sorocaba. Da infância difícil, com a morte precoce da mãe e do abandono material do pai, ele conta uma história de superação. Ele agora caminha para a graduação em um curso superior e planeja ser professor de História.

Apesar do progresso, não esquece dos dias em que passou fome, cometeu delitos e envolveu-se com drogas. Hoje Luciano é pai de família, casado e em suas palestras, ministradas para jovens em escolas da cidade, ele conta que depois de alguns dias preso resolveu mudar de vida. E mudou.

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Voltou a estudar. Depois de um longo caminho, começou a trabalhar na coleta de lixo. E é no lixo que recolhe diariamente nas ruas que encontrou vários livros. Lixo para uns, tesouro para ele. Conheça a inspiradora história desse sorocabano que como, descrito pelo repórter, é um guerreiro.

A morte da mãe e o alcoolismo do pai

Guerreiro não foge da luta e não pode correr. Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer. Os versos de “Tá Escrito”, do Grupo Revelação, tocam no rádio numa tarde fria de terça-feira enquanto o repórter fotográfico Erick Pinheiro e eu aguardamos o personagem de mais uma reportagem. A trilha sonora soava perfeitamente e poderia ser o fundo musical da vida de Luciano Ferreira de Lima, de 37 anos, coletor de lixo e futuro historiador.

Os capítulos da vida de Luciano precisariam ser muito bem divididos. É tarefa das mais complicadas contar a história deste homem, hoje coletor de lixo em Sorocaba. Não por falta do que dizer. Pelo contrário. Tudo começa em 1982, quando o caçula nasce em uma família com mais nove irmãos. O pai se aposentou na antiga metalúrgica Nossa Senhora Aparecida, a mãe foi costureira. Aposentado, o pai de Luciano montou uma borracharia, que teria sido a primeira da avenida Itavuvu.

Mesmo diante das dificuldades naturais de uma grande família, os primeiros anos da vida do menino foram mais tranquilos se comparado ao que viria pela frente. As coisas passaram a degringolar em 1988. A mãe adoeceu, teve cirrose hepática (mesmo sem beber) e faleceu. Dali em diante, o pai de Luciano afogou a tristeza no álcool e dividia os lucros da borracharia entre bebidas e garotas de programa. “Ele perdeu o juízo depois da morte da minha mãe. Vivia bêbado, às vezes caído no chão. Quando decidiu parar de beber já era tarde demais, faleceu em 2010.”

Furtos e drogas

Em meio à desestruturação familiar, o garoto interrompeu os estudos aos 11 anos. A doença e a ausência do pai fizeram com que ele e alguns dos irmãos passassem dificuldades e chegou a faltar comida. “O meu pai às vezes dava ‘cincão’ e mandava a gente comprar carcaça de frango e banana”, recorda-se. A falta de apoio o levou aos primeiros delitos. Aos 12 anos, cometeu furtos em uma loja do então Shopping Esplanada. “Tinha aqueles cartuchos de videogame, a gente furtava bastante. Mas uma vez pegaram um rapaz e ele entregou todo mundo”, lembra.

Dos pequenos delitos, cinco anos se passaram até conhecer a cocaína. “Com 17 anos eu passei a me envolver mais na criminalidade e nas drogas. Eu não era um cara mau, só queria um pouquinho de atenção. Eu era muito tímido e os meus amigos eram mais descolados.” Aos 21 anos, nas palavras de Luciano, ele deu “mais trabalho às autoridades”. Tentou parar com as situações ilícitas, mas a falta de emprego não permitira. Iniciou furtos a aparelhos de CD, “que só ‘playboy’ tinha na época”, até ser preso em data que carrega na ponta da língua: 17 de agosto de 2003.

“Fiquei um dia na delegacia e seis no CDP (Centro de Detenção Provisória). Não foi uma prisão muito longa, mas deu para eu pensar. Era uma época de frio e eu repensei sobre toda a minha história, a minha vida e decidi mudar, decidi que nunca mais queria pisar ali”, descreve. E mudou, até tornar-se o marido amado por Renata, de 32 anos. E o pai exemplo para Marcos Vinicius, de 10, e Melissa, de 5.

O retorno à escola

Luciano, um guerreiro que não fugiu à luta
A pequena casa de dois cômodos no Pq. São Bento guarda muitos livros, a maioria deles vindos do lixo. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Luciano deixou a prisão e conseguiu abandonar as drogas. No início de 2004, foi para o supletivo na Escola Estadual João Clímaco, na Vila Fiori. Ele morava com o pai no bairro Paineiras. Estava desempregado e precisava cuidar da casa. Para ir às aulas saía a pé, às 17h — eram 12 quilômetros de ida e volta. Chegava às 18h, ainda aproveitava a merenda e estudava a partir das 19h. “Como era supletivo, era mais o pessoal que queria só o diploma. Mas eu fui na intenção de aprender. Eu saí da escola não porque era burro, mas porque não tive incentivo para estudar”, declara.

O desejo pelo aprendizado era tanto que a longa caminhada, faça sol ou chuva, precisava valer a pena. “Chegava sexta-feira tinha eu e mais dois alunos e a professora queria dispensar. Eu dizia ‘não professora, não vai dispensar não, eu vim e volto a pé’”, relembra. E o esforço de Luciano teve reconhecimento. Primeiro, uma professora de português recomendou que a leitura fosse parte da vida dele (o que aconteceu e logo você, leitor, entenderá). Depois, venceu um sarau com uma cantiga que compôs e apresentou em um concurso da escola.

No dia seguinte à vitória no concurso, ele foi chamado à diretoria. “Fiquei assustado, mas lá tinha uma caixa e a diretora falou: ‘Luciano, esse presente é seu. Você é um exemplo a todos nós.’” Era uma bicicleta comprada com dinheiro arrecadado pelos colegas de classe para que não precisasse mais ir a pé estudar. “Aquilo foi o combustível para eu ver que era capaz. Quando você cresce em uma família desestruturada, você cresce com complexo de inferioridade. E aí começou a mudar”, diz.

De vendedor a radialista

Luciano já fez praticamente de tudo até se tornar coletor de lixo. Um dos irmãos o levava no trabalho para que ele não ficasse na rua. Nisso, aprendeu minimamente a pintar máquinas e automóveis. Em 2007, foi chamado para trabalhar em uma empresa que produz pás eólicas. “Coincidentemente, minha pena saiu naquele ano, três anos de trabalho comunitário. Fui pedir para mudar de horário para conseguir conciliar, expliquei a situação. Dias depois, veio minha carta de demissão. Aí o chão saiu do pé.”

Pego de surpresa com o baque, começou a vender trufas na frente de uma faculdade e, assim, pôde comprar alguns itens necessários ao filho recém-nascido. Em outro período, percorria vários quilômetros vendendo produtos de limpeza. Em 2010, após pintar o carro de um amigo, recebeu uma oportunidade em uma oficina. Trabalhou como funcionário até 2013, quando decidiu abrir uma oficina com o irmão. Cresceram até 2016, mas a crise econômica os castigou e tiveram de fechar.

O homem multifunções chegou até a apresentar um programa numa web rádio. “Eu senti uma voz dentro do meu coração, por Deus do céu. Senti que devia ajudar pessoas que estavam presas e pessoas que estavam tentando se recuperar do vício das drogas. E tinha que ser no rádio.” E conseguiu, descobrindo que um vizinho era dono da web rádio que ele ouvia. “Um dia fui polir um farol do carro dele. E perguntei como fazia para ter espaço lá (no rádio). Ele perguntou qual o horário. Eu disse que tinha de ser 11 da noite. Ele falou que era impossível, me perguntou quanto era o serviço (do carro) e eu disse que nada.” No outro dia, o vizinho procurou Luciano. “Ele disse que não tinha conseguido dormir, que o programa era meu por três meses”, lembra, sorridente. Luciano teve ajuda do cunhado para operar a mesa de som e tentava levar alento aos ouvintes. Mal sabia que, tempo depois, ele mesmo teria de retroalimentar a própria esperança.

Do lixo, os livros e o futuro

Com o negócio próprio fechado, as dificuldades para Luciano, a esposa Renata e os filhos aumentaram consideravelmente. Ele se viu novamente sem comida em casa, dependente de doações. “Aí a noiva de um amigo nosso trabalhava na coleta de lixo e eu pedi um emprego. Ele falou ‘tá louco, posso arrumar algum trabalho de fiscal para você’. E eu disse ‘não, quero ser coletor de lixo, correr atrás do caminhão’. Olhei para os meus filhos e fui”, relembra. O trabalho foi iniciado em fevereiro de 2017.

Luciano, um guerreiro que não fugiu à luta
Com a família, ele ouve da esposa que é um exemplo. Crédito da foto: Erick Pinheiro

De início, Luciano penou. “A gente percorria 30 km diários. E eu não me alimentava bem, tinha momentos de fraqueza”, diz. Com o tempo Luciano se acostumou com o serviço e passou a ser conhecido por uma peculiaridade: recolhe todos os livros que encontra nos contêineres. “Dou um talento neles e trago embora, me achavam louco no começo”, diz.

A casa de Luciano, no Pq. São Bento, tem dois cômodos e foi tomada pelas publicações. “Tinha hora que ele me deixava irada, vinha com um monte de livros, tinha que começar a enfiar debaixo da cama”, brinca Renata sobre o marido que devorou mais de 100 títulos em menos de três anos. “A coleta de lixo me transformou muito”, garante ele.

Um dos capítulos mais importantes da vida de Luciano aconteceu recentemente. Com o uniforme de trabalho, ele estava em um shopping para uma consulta odontológica quando o chamaram em um estande de faculdade que promovia inscrições para vestibular. “Ela perguntou se eu queria prestar vestibular, e eu não tinha ideia de que. Decidi tentar História. Tenho uma grande história, e quero contar histórias de maneira profissional (risos).”

Luciano foi beneficiado com uma bolsa de 70% para estudos à distância. Ele não tem computador em casa e vai ao polo sempre que necessário. “Eu baixo as apostilas lá, mando imprimir. É assim que consigo estudar”, conta ele, que sonha com o dia em que será o primeiro coletor-professor da cidade.

História é contada a jovens em palestras

E nesta vida repleta de capítulos aparentemente distantes do acaso, Luciano presenciou há três meses um acidente leve próximo à Vila Helena. Desceu do caminhão para ajudar e conheceu a diretora da E.E. Guiomar Camolesi. Em meio à tentativa de acalmá-la, contou a própria história e foi convidado a dar palestra aos alunos. “Ela perguntou se eu tinha coragem. E dia 28 de março eu fui. Para a minha surpresa a escola estava lotada, tive que dar duas palestras.” “Eu quis levar aos jovens a reflexão de que não basta só informação, precisa ter conhecimento. E que o professor precisa ser olhado com mais carinho para eles terem sucesso na vida”, acrescenta.

O sucesso da palestra se espalhou e ele tem sido convidado por outras escolas. “Para mim é novidade tudo que está acontecendo hoje. Talvez isso acabe, mas já estive nas ondas do rádio, já palestrei para mais ou menos 400 pessoas, estou aqui agora com vocês, isso ninguém apaga”, começa. “Não dava para imaginar porque quase ninguém nunca acreditou em mim”. O discurso de Luciano se encerra, mas é alavancado por Renata. “Eu sonho junto com ele. A gente está aqui, em dois cômodos, mas diante de todo o aprendizado, de tudo o que ele representa, a gente é testemunho a partir da nossa vida de que não se pode desistir.” (Esdras Felipe Pereira)

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