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Levar comida a quem tem fome

Programa Mundial de Alimentos, da ONU, ganhou o Nobel da Paz e alerta sobre mortes por falta de comida
Levar comida a quem tem fome
Crianças fazem fila para uma refeição diária em área carente do Equador. Crédito da foto: Jamie Martin / Banco Mundial

A fome teve um aumento de 80% durante a pandemia do novo coronavírus. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que 690 milhões de pessoas no planeta vivem em situação de insegurança alimentar e ao menos 20 mil morrem por dia em decorrência da falta de alimentos, até mesmo no Brasil. Embora seja um país exportador, cerca de 10,3 milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para obter alimentos diariamente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — o equivalente à população de Portugal.

Este ano, o prêmio Nobel da Paz foi dado para o braço humanitário da ONU contra a fome no mundo, o Programa Mundial de Alimentos (PMA). A premiação foi anunciada no último dia 9. Isso dá visibilidade ao problema global e lembra que reduzir a insegurança alimentar é trabalhar pela paz, avalia o diretor regional para a América Latina e Caribe do PMA, Miguel Barreto.

“A pandemia não pode se converter em uma pandemia de fome. Estamos preocupados com o aumento da insegurança alimentar severa”, disse Miguel Barreto. Um relatório elaborado da ONU publicado em julho revelou que 47,7 milhões de latino-americanos não tiveram comida suficiente em 2019.

“Onde há conflito, há fome. E onde há fome, frequentemente, há conflito. Hoje, é um lembrete de que segurança alimentar, paz e estabilidade caminham juntas. Sem paz, não podemos alcançar nosso objetivo global de fome zero. E, enquanto houver fome, nunca teremos um mundo pacífico”, escreveu David Beasley, diretor-geral da entidade.

Levar comida a quem tem fome
O peruano Miguel Barreto é o diretor regional para a América Latina e Caribe do PMA. Crédito da foto: Divulgação

“Essa premiação sublinha o papel da ONU e a urgência de se lidar com a questão da segurança alimentar no contexto da pandemia, que não afeta apenas os países mais pobres, mas também populações vulneráveis em países de renda média e nos países mais ricos”, afirma Adriana Abdenur, pesquisadora de relações internacionais e diretora da Plataforma Cipó.

O diretor regional para a América Latina e Caribe do PMA, Miguel Barreto, comenta sobre o prêmio. Ele lembra que “A paz não é somente um mundo livre de conflitos, é um mundo livre de fome e de desnutrição”. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Qual a importância do reconhecimento com o Nobel da Paz para o trabalho do PMA?

É um reconhecimento mundial do trabalho dos funcionários do PMA que colocam suas vidas em risco para levar alimentos a mais de 100 milhões de pessoas, particularmente mulheres e crianças. Somos a maior agência humanitária do mundo, com presença em mais de 80 países, lidamos com pessoas que sofrem por conflitos, mudanças climáticas, falta de acesso a alimentos. E, além do nosso trabalho, é um reconhecimento dos milhões de pessoas que sofrem por fome e desnutrição. A paz não é somente um mundo livre de conflitos, é um mundo livre de fome e de desnutrição. Não somente porque é uma luta ética, mas porque é a única maneira de prevenir maiores migrações, reduzir a insegurança e promover a possibilidade de que as pessoas possam se inserir adequadamente na sociedade. Esse assunto precisa estar na agenda pública.

O prêmio Nobel também é uma forma de ampliar a visibilidade de tema, em especial em regiões como a América Latina…

Levar comida a quem tem fome
Distribuição de comida em Cabo Delgado, durante ação humanitária em Moçambique. Crédito da foto: Eskinder Debebe / ONU

Sem dúvida. Na América Latina, temos um papel de apoio e suporte em áreas como a preparação de respostas a emergências, à rede de proteção social, às comunidades vulneráveis que sofrem de desnutrição, especialmente crianças que vão para escolas e recebem alimentos. Estamos em 12 países da região trabalhando com governos locais, sociedade civil e para colocar o tema da desnutrição e da fome no debate público. Esse prêmio constitui uma importante oportunidade para que percebamos que é importante estarmos juntos na luta contra a fome e a desnutrição. Essa luta é fundamental para o desenvolvimento dos países.

O financiamento é um tema crítico para muitas agências da ONU O prêmio também pode ajudar a angariar fundos para ações?

Confiamos que este prêmio vai renovar a confiança dos doadores para seguirem trabalhando com o PAM. Essa confiança já cresceu muito nos últimos anos e fez com que sejamos a maior agência humanitária do mundo. Com nossos sócios, doadores e governos, nos comprometemos a seguir fazendo o que estamos fazendo e incrementar nossos esforços para seguir buscando a erradicação da fome e da desnutrição. Precisamos trabalhar juntos — governo, doadores internacionais, setor privado e sociedade civil.

Qual é o panorama atual da segurança alimentar após meses de pandemia?

Desde a época da 2ª Guerra, nunca tivemos tantas crises humanas. Essa pandemia não pode se converter em uma pandemia de fome na América Latina e Caribe. Estamos muito preocupados com o aumento da insegurança alimentar severa na região, o efeito socioeconômico da pandemia é terrível. É uma região em que temos muitos trabalhadores informais. Em um nível mundial, a quantidade de pessoas em insegurança alimentar severa pode superar 230 milhões em 2021. São pessoas que não têm o que comer no dia a dia. Essa crise afeta, em maior medida, populações de migrantes. São milhões na nossa região. O diretor executivo David Beasley falou sobre a pandemia de fome no Conselho de Segurança da ONU, da fome de proporções bíblicas, que haverá mortes por Covid-19, mas também por falta de alimentos.

Que dificuldades a pandemia impôs ao trabalho do PMA?

Foi de chegar aos beneficiários, principalmente com o fechamento de fronteiras. Mas conseguimos buscar modalidades inovadoras de como fornecer alimentos. (Estadão Conteúdo)

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