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Exemplos da região mostram que o futuro da economia é circular

Cultura do descarte de materiais e produtos após a utilização dá lugar ao reaproveitamento de recursos
O conceito de circularidade está cada vez mais presente em empresas e indústrias. Foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS

A população do planeta Terra tende a crescer cada vez mais ano a ano, o que não é uma grande novidade. Mas e como fica a capacidade de prover recursos para a vida de quem o habita? A continuidade da espécie humana e a preservação do meio ambiente têm como fator inerente a necessidade de economizar e reaproveitar aquilo que ainda está disponível globalmente. Diante desse cenário, um conceito cada vez mais ouvido será grande aliado nesse processo de “sobrevivência”: a economia circular. O Cruzeiro do Sul conversou com o engenheiro civil e técnico ambiental Luiz Fernando Furtado para esclarecer pontos do assunto.

A economia circular, basicamente, é o reaproveitamento de recursos, sejam eles naturais ou não. O conceito é a antítese da economia linear, iniciada desde a Revolução Industrial, quando a dinâmica é o descarte de materiais e produtos após a utilização. “Diante de inúmeras evidências e fatos que sinalizam a escassez por recursos, a economia circular vem ganhando seu espaço. Hoje vemos uma maior quantidade de empresas, startups e empreendedores inovando e tentando viabilizar negócios e produtos envolvendo o conceito de circularidade”, cita Furtado.

Luiz Fernando Furtado. Foto: Divulgação

Segundo o especialista, que trabalha na da empresa sorocabana Élogi Soluções Ambientais Integradas, um dos exemplos de economia circular passa pela atitude de algumas indústrias de eletrônicos que oferecem desconto na compra de produtos em caso de entrega do equipamento antigo. Neste caso, o que aparenta ser obsoleto para o consumidor, torna-se importante na produção de novos itens. Ele ainda lembra de outra possibilidade. “Na área da construção civil, arquitetos e designers de interiores estão inserindo em seus projetos materiais que antes teriam como destino final os aterros sanitários ou lixões, e recebem agora uma nova importância, servindo como peças de decoração, algumas sendo valorizadas justamente por seu reaproveitamento e criatividade do profissional.”

Esse conceito contemporâneo é mais substancial em iniciativas de empresas e poder público graças à dimensão que alcançam. Cidadãos comuns, no entanto, também podem fazer a própria parte. “A nova geração já está presenciando fatos sem precedentes, como a crise hídrica, mudanças no clima e doenças tropicais causadas por desequilíbrio ecológico. A facilidade e velocidade com que as pessoas têm recebido informações influencia nas atitudes e posicionamentos em relação à sustentabilidade”, argumenta.

Plástico

O plástico é uma grande preocupação ao meio ambiente se não houver redução no consumo e reaproveitamento. Levantamento realizado em 2016 pelo Fórum Econômico Mundial de Davos, em parceria com a Ellen MacArthur Foundation e a consultoria McKinsey, apontou que em 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos. “O mundo clama por um consumo menor do plástico e um maior reaproveitamento de seu material, haja visto que é feito de resina sintética originada do petróleo, não sendo assim um material biodegradável e sua decomposição na natureza pode levar séculos”, explica Furtado.

O engenheiro e técnico ambiental aconselha as pessoas a evitarem o uso de copinhos, garrafas d’água, canudos e embalagens desnecessárias. “Se a redução não for possível, no dia a dia o plástico pode ser reaproveitado como objeto de decoração, frascos para armazenamento de objetos e alimentos, vasos de flores e brinquedos para crianças. Na impossibilidade da redução e do reúso, o correto descarte é fundamental para que o destino seja a reciclagem e não o meio ambiente.”

Energia que vem do aterro vira corretivo agrícola

Usar o que era considerado como resíduo em geração de energia ou em processos produtivos específicos. Esses são alguns projetos de uma multinacional francesa com atuação no Brasil e que é uma das pioneiras no País no que se refere à economia circular. A Veolia oferece soluções integradas de reaproveitamento de água, resíduos e energia para empresas e poder público. É ela, por exemplo, a responsável pela gestão da Central de Gerenciamento Ambiental de Iperó, o Aterro de Iperó, que desde 2010 recebe mais de mil toneladas de resíduos domiciliares e industriais não perigosos de 10 cidades da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) e de mais de 200 indústrias.

Henrique Nicoletti. Foto: Divulgação

De acordo com o engenheiro Henrique Nicoletti, a decomposição dos resíduos gera dois subprodutos, o chorume e o biogás. “Esse biogás, que tem um porcentagem alta de metano e é altamente inflamável, pode ser reaproveitado na queima e geração de energia, então queremos implantar uma usina de biogás.” “E em fase de licenciamento futuro, estará a implantação de uma usina de geração de energia elétrica a partir do biogás. A geração será suficiente para manter toda a unidade e o que sobrar poderemos colocar na rede e fornecer aos bairros próximos, do entorno do aterro”, acrescenta.

O diretor de desenvolvimento da Veolia no Brasil, Alexandre Anaia, diz que a criação e concepção de processos que privilegiam a economia circular são fundamentais para reduzir a pressão sobre os recursos naturais.

De resíduo à corretivo agrícola

Anaia fala de um dos trabalhos desenvolvidos pela empresa. “Atendemos uma indústria de papel e celulose e, para produzir a celulose, ela gera quantidade grande de resíduos. Esse resíduo era colocado antigamente em aterros e aí a Veolia desenvolveu um processo: convertemos esse resíduo em corretivo agrícola, o que é usado nas plantações de eucalipto, usado para produzir papel”, exemplifica, sobre o conceito que coloca os recursos numa espécie de ciclo sem fim.

O diretor lembra, também, de um dos projetos mais recentes e significativos da empresa. Foi fechado um contrato de 30 anos para transformar os resíduos gerados pela população da Cidade do México em energia para alimentar o metrô local. A estimativa é que um terço dos resíduos domésticos do país sejam usados nesta nova planta de valorização energética.

Alexandre Anaia. Foto: Divulgação

Lixo eletrônico vira computador que é doado a projetos sociais

O Projeto Metarreciclagem existe há dez anos e é mantido pela Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda (Sedeter). A proposta existe em um prédio na Vila Barão (avenida 9 de Julho, 1.066) e recolhe lixo eletroeletrônico, entre computadores, celulares, impressoras, pilhas e outros itens, reaproveitando-os e enviando kits novos a entidades assistenciais da cidade — o que não é reutilizado segue para a Cooperativa Reviver para a reciclagem final. Até novembro de 2018, cerca de 40 toneladas de materiais foram recebidos, possibilitando a montagem de 47 kits (monitor, teclado, mouse e CPU) para 30 instituições sorocabanas.

Gilberto lidera o projeto que em 2018 transformou 40 toneladas de materiais. Foto: Erick Pinheiro

A iniciativa é capitaneada pelo coordenador Gilberto Vieira Ayres de Campos. Ele se orgulha de liderar projetos municipais em 32 de seus 37 anos como servidor público. No Metarreciclagem, além do reaproveitamento, são oferecidos cursos de informática básica e montagem/manutenção de máquinas. A carga horária é de 60h (cerca de três meses) e as próximas turmas vão começar em 2019. Outra possibilidade à comunidade é a de usar os computadores disponibilizados numa espécie de telecentro durante uma hora por dia, bem como tirar cópias gratuitas de documentos e currículos. Até 5 de novembro de 2018, foram atendidas cerca de 33.100 pessoas no local.

À parte à importância ambiental do projeto, Gilberto lembra de conquistas impagáveis relacionadas ao Metarreciclagem. “Das nossas primeiras turmas dos cursos, em 2009, 2010, nós temos alunos carentes, de alta vulnerabilidade social, que vinham aqui, estudavam, faziam os trabalhos e hoje dois estão fazendo medicina em uma universidade federal em Curitiba e vários muito bem em empresas de Sorocaba.”

O Metarreciclagem atende de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 11h30 e das 13h às 16h30. Mais informações: (15) 3417-3825; meta.recicla@gmail.com ou pelo endereço metareciclagemdesorocaba.blogspot.com.

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