Escolas de dança retomam atividades com precauções

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Bailarinas durante apresentação. Crédito da foto: Pxhere

Bailarinas durante apresentação. Crédito da foto: Pxhere

Se o baile começou e você ficou sem par, calma, não se preocupe: dançar sozinho é o que existe de mais recomendável. Pelo menos, por enquanto.

Depois de quase seis meses, as escolas de dança de salão estão retomando suas atividades - que estiveram suspensas por consequência da pandemia de Covid-19. O desafio não é pequeno.

Como ensinar a dançar com distanciamento social? Baile sem mão na cintura? Sem nenhum contato? Como dançar bolero, tango, forró ou samba de gafieira sem estar juntinho? Sim, os professores e especialistas garantem que é possível.

Na Escola de Dança Celso Vieira, por exemplo, todo o processo foi adaptado para o período pandêmico. As salas têm no máximo 10 pessoas, com dois metros de distanciamento entre elas.

Na chegada, os alunos passam por medição de temperatura e por um tapete sanitizante. E, claro, o álcool está espalhado por todos os cantos. As aulas estão com horários reduzidos e o uso de máscara é obrigatório.

A questão, porém, é viabilizar uma aula de dança em que todos estão sem seus pares (ou não podem tocá-los). "Adaptamos o desenvolvimento de técnicas em que o aluno evolui sem precisar dançar com um parceiro. Trabalhamos os ritmos, o equilíbrio, movimentos mais lúdicos e a musicalidade", disse Celso Vieira, proprietário da escola que leva o seu nome.

Clóvis Jurado, da Casa de Dança Carlinhos de Jesus, contou que, a princípio, os passos serão aprendidos de forma individual, mas que, assim como outras escolas, estuda a possibilidade de implementar turmas com casais (namorados, marido e mulher) ou pessoas que já morem junto. "Mesmo sem um parceiro, é possível atingir um bom nível de dança", falou.

Na academia Milena Malzoni Dance Center, a proprietária contou que, mesmo antes da pandemia, já falava a seus alunos sobre consciência corporal que, primeiro, deveria ser atingida individualmente. "Para ser bom junto, a dança tem de ser boa sozinha", afirmou Milena.

Segundo Milena, essa também é uma oportunidade, principalmente para as mulheres, de não depositar todas as expectativas da dança no outro. "A gente ouvia muito coisas como: ‘Se ele me levar, eu vou (no contexto de uma dança)’. Algumas mulheres deixam ser rebocadas, como cones da CET. Aprendendo sozinhas, elas ganham mais consciência corporal e confiança."

On-line

É verdade que muitas escolas promovem aulas on-line. Apesar do sucesso, professores e alunos não se iludiram com os resultados. "Oferecemos a possibilidade do online para que mantivéssemos contato com os alunos. Nos reinventamos por meio do Zoom (plataforma de videoconferência). Ensinamos até mesmo os alunos mais idosos a usar essa ferramenta. Ainda assim, optamos por movimentos mais lúdicos. A impossibilidade de acompanhar de perto e corrigir movimentos fez com que tivéssemos cuidado com as aulas a distância", lembrou Vieira. "Apesar disso, acredito que essa é uma modalidade que veio para ficar", completou.

Do lado dos aprendizes, o on-line roubava o que de mais precioso parece existir em uma aula de dança: a sociabilização. "A dança é social. A presença física é essencial. Tem o olhar, o ambiente Nada supera uma aula presencial", disse Villdene Feola, de 57 anos.

A dança, segundo muitos alunos, tem a capacidade de fazer com que a pandemia desapareça por uns minutos. "Ela transporta a gente para outro lugar. E tudo desaparece. O prazer de dançar é revigorante", garantiu Andréia Roman Cruz, de 45 anos. O envolvimento com os passos de dança faz com que os alunos também se esqueçam de qualquer incômodo provocado pelo uso da máscara.

Terapia

Não é raro encontrar quem comemore a volta das aulas presenciais por uma questão de saúde mental. "Uso a dança como terapia. Meu trabalho me deixa muito estressada. Dançar é minha válvula de escape", disse a produtora de eventos Heliane Garcia, de 37 anos "Ficar sem dançar é muito difícil, terrível. A dança é uma terapia. Não sei viver sem dançar. É algo que eu faço desde muito pequena. É parte de quem eu sou", afirmou Maria Ester Carrião, de 44 anos.

Apesar das dificuldades impostas pelo coronavírus, existe um consenso entre os donos de escola de dança. É provável que, segundo eles, o pós-Covid se transforme em uma época de ouro para esse tipo de atividade. "Parte do que é a dança vem dessa vontade do abraço. Hoje, estamos impedidos. Mas, logo, iremos valorizar mais essa possibilidade do abraço e do contato físico", explicou Vieira.

"As pessoas vão perceber que não vale a pena investir somente em suas profissões e seu trabalho. Vão procurar aquilo que lhes dá prazer", disse Jurado. "Acredito que as pessoas vão procurar ocupar o tempo livre com coisas que resultem em melhor qualidade de vida", completou Milena. (Estadão Conteúdo)