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Doação de órgãos: ‘a vida que se refaz da dor’

Denise e Maria, duas mães que tiveram a nobre iniciativa de doar os órgãos de seus filhos, contam que a alegria de salvar vidas ajuda a superar o luto da perda
A vida que se refaz da dor
Crédito da foto: Pixabay.com

Murilo Henrique da Silva Bastos, 21 anos, e Larissa Cristine Arruda, 19, não tiveram a oportunidade de se conhecer, mas ambos podem ser considerados de importância transcendental no papel de salvar ou renovar a esperança de uma série de vidas. A mãe dele, Denise da Silva, 47, e a dela, Maria das Dores Arruda, 61, tampouco já ficaram frente a frente. As duas sabem, no entanto, que do sofrimento das perdas de Murilo e Larissa, o legado de bondade dos filhos teve como capítulo final a doação múltipla de órgãos. No Brasil, em 27 de setembro, próxima quinta-feira, é celebrado o Dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos. Um dia para conscientizar e reforçar esse tema ainda difícil de ser tratado.

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Os dois jovens partiram de maneira inesperada. Murilo estudava ciências da computação e era estagiário da Prefeitura de Mairinque. Vivia um de seus períodos mais felizes quando sofreu um acidente de carro, em agosto do ano passado. O moço estava em um relacionamento e, em um fim de semana, convidou pela primeira vez a namorada e os sogros para jantarem no sítio da família dele, em Araçariguama. Estava eufórico, conta a mãe, e foi logo de manhã ao sítio para deixar tudo pronto e limpo. “A gente combinou de a minha nora avisar quando estivessem no acesso à estrada de terra para chegar no sítio e aí ele iria encontrá-los”, lembra.

Sob a noite gelada, a família se aquecia em frente ao fogão de lenha e, diante do telefonema da namorada, Murilo disse um “já volto” e pegou o carro. “E nunca mais voltou para casa”, lamenta Denise, tomada por muita emoção. O carro capotou na estrada e o rapaz foi levado às pressas ao Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS). Alguns dias depois, veio o diagnóstico de morte encefálica e a família foi perguntada sobre a intenção de doar os órgãos dele. “A gente sempre comentou em casa sobre doação de órgãos, mas nunca imaginava que seria numa situação dessas”, diz a mãe.

A vida que se refaz da dor
Denise leva no peito o amor pelo filho Murilo, morto aos 21 anos em um acidente de carro. Crédito da foto: Fábio Rogério

Os pulmões, coração, pâncreas, fígado, rins e córneas de Murilo estavam saudáveis e, com o aval da família, foram doados. Denise, uma mulher de sensibilidade e força admiráveis, contrasta a partida precoce do jovem à “herança” deixada por ele de modo impressionante. “No cemitério, eu chorava, todos choravam… Mas eu dizia: ‘a gente tem o choro de dor, mas imaginem sete, oito famílias chorando de alegria, porque ele conseguiu salvar vidas. Isso é gratificante, a gente sempre tem que pensar no próximo. Hoje, certamente, têm pessoas que estão muito bem com um pedaço do meu filho”, declara, exibindo com orgulho uma camiseta confeccionada com os dizeres “Murilo, filho amado, te amarei eternamente!”.

Coração batendo

A força também é uma característica facilmente perceptível em Maria, mãe de Larissa. O luto da família é ainda mais recente: a jovem traçava um caminho ambicioso, cheio de planos e sonhos, mas interrompido por um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico sofrido três meses atrás. Maria descreve a filha como “corajosa, que não tinha medo de nada”. A garota, duas semanas antes de falecer, apresentou o trabalho de conclusão para o curso técnico de administração na Etec Fernando Prestes e seria efetivada no trabalho.

A vida que se refaz da dor
Maria se alegra em saber que o coração da filha Larissa continua batendo, ainda que seja em outra pessoa. Crédito da foto: Fábio Rogério

“A gente era muito grudada, aqui era só eu e ela, era uma filha excepcional. Às vezes até dispensava a companhia dos amigos para sair passear comigo”, recorda-se Maria. O triste adeus veio após dois dias internada no CHS. “E a doação dos órgãos me veio à cabeça por causa da bondade dela. O corpo não era meu, mas como lembrei que minha filha era muito generosa, sempre procurava ajudar as pessoas ao redor, aceitei a doação”, pontua. E, assim como Denise, a mãe de Larissa aborda o tema com sensatez surpreendente, embora ainda dominada pelo luto. “Eu sei que o coração dela está batendo em um peito, em algum lugar. Eu sei que os rins dela salvaram vida. É claro que não queria que nada disso tivesse acontecido, mas fico feliz de nesse momento tão difícil para a gente, ela ter conseguido ajudar.”

Mesmo nunca tendo conversado sobre o assunto doação de órgãos com a filha, Maria recebeu o que considera um “sinal” no dia do velório. “Deus é tão perfeito e maravilhoso que, na Ossel, a melhor amiga dela me mostrou uma conversa entre elas sobre doação de órgãos. Eu não sabia disso, mas ela falou para a amiga que queria muito ser doadora. Então foi um sinal de que eu tinha feito a coisa certa.”

A batalha de seu Mauri

Poder comemorar o que teoricamente parece algo tão simples. O aposentado Mauri Antunes de Barros, de Sorocaba, que completará 74 anos em novembro, tem fácil em mente as lembranças dos anos difíceis até, finalmente, receber novos rins por meio de um transplante. O procedimento foi em 2007, mas, antes disso, “seu” Mauri, como também é chamado, teve de aguardar na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) por oito anos, nos quais precisava de hemodiálise três vezes por semana, demandando quatro horas do dia a cada sessão. “Eu não podia beber água, chupava gelo. Se bebesse, ficava ainda mais pesado. É uma coisa simples que faz muita falta quando você não pode, eu tinha muita sede”, diz.

A vida que se refaz da dor
Aposentado ganhou um rim e uma vida nova em 2007. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Mauri se considera um lutador, que venceu várias batalhas graças à fé e ao apoio da família. Isso porque, além do transplante, teve de trocar duas válvulas do coração. “Estou novinho em folha igual carro velho”, brinca o aposentado. Para se ter uma ideia da dificuldade em conseguir um novo órgão, ele lembra que, até hoje, algumas pessoas que passavam por hemodiálise à mesma época, ainda não foram transplantadas.

E, para brindar o belo roteiro de persistência, os olhos atentos de Mauri proporcionaram mais uma bela história. Depois do transplante, segundo ele, uma pasta de controle dos médicos estava sobre a cama e, lá, o aposentado conseguiu ver o nome de quem havia sido o doador. “A pessoa tinha 48 anos e eu marquei em um papel o nome. Consegui descobrir quem era e, um ano depois, na missa de um ano de falecimento, eu fui na igreja, conheci os familiares. Subi até no altar, todo mundo ficou muito emocionado”, lembra.

CHS registra maior número de doadores na região de Sorocaba

Na região de Sorocaba, o CHS é a instituição hospitalar com maior número de doadores de múltiplos órgãos entre janeiro de 2016 e 14 de setembro deste ano, conforme levantamento do Sistema Estadual de Transplantes (SET), da Secretaria de Estado da Saúde, ao qual o Cruzeiro do Sul teve acesso. São 44 doadores efetivos, de acordo com os dados. Entre os primeiros estão, ainda, a Santa Casa de Itu (11), Santa Casa de Itapeva (10), Santa Casa de Sorocaba (8) e Unimed Sorocaba e Hospital Regional de Itapetininga (com três doadores cada).

A posição se deve ao importante trabalho que vem sendo desenvolvido pela Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes (CIHT) do CHS. Mesmo o levantamento sendo baseado na região de Sorocaba, regulada pela Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Santa Casa de Itu, a enfermeira Cláudia Santos, da CIHT, afirma que o hospital é o que apresenta números mais expressivos em todo o sudoeste paulista. Até 2015, aliás, era o próprio CHS o responsável por funcionar como OPO — a mudança ocorreu por deliberação da Secretaria Estadual da Saúde.

Apesar de, nas palavras de Cláudia, o CHS ter sido “sempre destaque na questão de captação de órgãos”, a frente de trabalho ficou um pouco prejudicada com a mudança de sede da OPO para Itu. Foi então que, em fevereiro de 2017, a CIHT-CHS foi praticamente recriada para resgatar o potencial do hospital no segmento. “A intenção era proporcionar um atendimento mais humanizado às famílias”, comenta a profissional, que atua na comissão junto de outras duas enfermeiras, um oficial administrativo e um coordenador médico.

De acordo com Cláudia, o processo de doação de órgãos começa com a determinação da morte encefálica, procedimento que, por lei, precisa ser realizado por meio de dois testes clínicos, avaliados por dois médicos diferentes. “Para mim, o grande desafio é ser honesto e transparente com a família, sem ferir os princípios e valores, principalmente os religiosos, já que muitos acreditam em um milagre. Há momentos em que eu tenho que olhar nos olhos de uma mãe e dizer que não espere por boas notícias, que infelizmente ela não vai levar o filho dela para casa”, explica a enfermeira, que inclusive acompanhou de perto, com extremo zelo, os casos de Murilo e Larissa, citados nesta reportagem.

A profissional ressalta a importância do trabalho multidisciplinar no CHS. “Quando a família opta pela doação de órgãos, o corpo é liberado para a família ou IML em menos de 24 horas”, garante. A outra frente fundamental, diz, é a de convencimento das famílias, sobretudo por meio da humanização. Segundo ela, entre outros fatores que contribuem para a recusa familiar, há o caso de a pessoa falecida ser contra a doação em vida; medo da deformação do corpo, o que não ocorre; questões religiosas; e descrédito na estrutura dos serviços de saúde. (Esdras Felipe Pereira)

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