Apesar dos desafios, artesãos de Sorocaba se dedicam à arte

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Porta-joias de Ricardo Belloni pintados e decorados com apliques em diversas cores. Crédito da foto: Divulgação

Jogos de chá em miniatura pintados à mão por Olga Tavares Guimarães de Mattos. Crédito da foto: Divulgação

Os artesãos que decidem vender seus produtos nas feiras de Sorocaba passam por uma série de desafios. É para ajudar aqueles que vivem da arte, promovendo a união da classe e articulando o relacionamento com a Prefeitura que, há 30 anos, existe a Associação Sorocabana de Artesanato (ASA). Hoje, são 53 artesãos cadastrados, que se organizam entre cinco feiras, dois quiosques e a Casa do Artesão, no Shopping Cianê.

Uma das artesãs que dedica boa parte da vida a essa causa é Maura Dias, 62, que organiza as listas de presença dos feirantes e divulga os eventos nas redes sociais e nos sites da ASA. Ela concilia tais atribuições com a confecção de acessórios de cozinha, que vende em sua própria barraca. Feirante há 17 anos, Dias alerta que viver do artesanato não é fácil. As intempéries são exemplos de variáveis que dificultam o trabalho. Nos dias de tempestade, as barracas balançam desgovernadas, obrigando os feirantes a contrabalancear o peso no interior das estruturas, para impedi-las de sair voando. Os dias de Sol podem ser igualmente difíceis; Dias conta que chegou a ter câncer de pele, por ficar exposta à radiação solar que ultrapassa a proteção de lona. Outro desafio é ficar responsável por montar, desmontar e carregar a barraca, de feira em feira. No caso de Dias, há três anos ela monta duas barracas, a dela e a de uma amiga com problemas de saúde.

Entretanto, a maior dificuldade ainda é a financeira. Para muitos da Associação, as feiras são apenas um complemento de renda, mas há aqueles como Ricardo Belloni, aposentado de 65 anos, cujo sustento da família vem exclusivamente da arte. Como artista plástico, ele percorre o estado de São Paulo produzindo e vendendo itens diversos. Em Sorocaba, são seus porta-joias que enchem os olhos dos clientes. “Infelizmente, o artesanato já teve muito valor. Em outras épocas, vendíamos igual água. Hoje, tornou-se supérfluo, porque o poder aquisitivo das pessoas está muito baixo.”

Marcos Sampaio, 43, que expõe artigos em couro, como carteiras e jaquetas, concorda que nos últimos 15 anos o comércio vem se tornando difícil no país, mas diz que em Sorocaba ainda é possível viver das feiras. “O centro de Sorocaba, como um todo, perdeu clientes devido à quantidade de shoppings que abriram, mas, depois, vários desses shoppings já fecharam. Essa é a realidade”, ele pondera.

Porta-joias de Ricardo Belloni pintados e decorados com apliques em diversas cores. Crédito da foto: Divulgação

Feito com amor

Frente a tantos obstáculos, alguns acreditam que a persistência só pode ser um reflexo do amor pelo que se faz. Dias deixa bem clara sua posição: “A gente tem bastante dificuldade, mas faz feira quem ama, como eu. Sempre falo que a nossa intenção é expor, mostrar que nós estamos aqui e temos nosso trabalho. Se vender hoje, ótimo. Senão, não tem problema.” Ela diz que, independentemente das vendas em si, o grande diferencial do artesanato em relação aos shopping centers, ou às compras pela internet, é o relacionamento interpessoal, que é satisfatório tanto para quem compra quanto para quem vende.

“A gente brinca, conta da vida. Eu tenho clientes que vêm aqui só para tomar café comigo. A gente conquista as pessoas e isso é muito bom. Esse relacionamento a internet não dá”, ela afirma, defendendo que o toque pessoal é uma das maiores vantagens do artesanato, que vai além da simples customização. “Não faço muitas coisas, mas faço bem feito. Há 17 anos, quando eu pretendia entrar na feira, eu pedi um conselho a uma feirante antiga, sobre o que deveria fazer para ter sucesso. Ela só falou uma coisa, que eu guardo até hoje: deve-se fazer o que você gostaria de ver se fosse cliente. E isto resume tudo: carinho, atenção, um brinde ou um desconto.”

Com essa mesma mentalidade, Maria Aparecida Aliga Lopes, 55, entrou para a Associação há seis meses, buscando uma oportunidade de mostrar seu trabalho. Ela relembra que a primeira semana foi a mais difícil, pois começar a vender se mostrou um grande desafio, mas valeu a pena, porque ajudou a complementar a renda e a combater a depressão. “À medida que ia bordando, eu percebi que saía da depressão sem precisar de remédio. O artesanato me ajudou a esquecer dos problemas. O remédio é meu trabalho”, diz Lopes.

Para Olga Tavares Guimarães de Mattos, 68, que se dedica ao artesanato há 30 anos, cada item é muito mais do que um artigo decorativo. Cada peça sua é feita à mão, com pinturas únicas, inclusive as miniaturas. Mesmo o maior jogo de chá não consegue comportar tanto carinho. “Meus produtos são como filhos. Não tenho coragem de dar para outro vender. É ciúmes do trabalho da gente”, ela brinca.

Compartilhando da mesma opinião, Elzemarie Sugahara, 66, conta um pouco de sua história. Descendente de indígenas, ela aprendeu todo tipo de artesanato e cresceu vendendo esses produtos nas feiras com a família. Formou-se professora porque tinha o sonho de passar seus conhecimentos, porém, por decepções com o sistema de educação, decidiu se voltar ao artesanato. Hoje, a arte é o que mantém a família. Seus produtos mais conhecidos são os charmosos bebês de pano. Ela afirma que cada boneca tem feição e características únicas: “A pessoa que copia não vai longe. Por isso a concorrência não me assusta, só me faz querer trabalhar cada vez melhor.”

Para Sugahara, a missão é maior do que simplesmente vender um produto. “Quando a pessoa vem comprar alguma coisa, ela já está imaginando o que aquela coisa pode se tornar. Por exemplo, você vai numa loja comprar uma cortina para sua sala, mas não vai comprar qualquer uma; você vai olhar e pensar se ela vai ficar bem com o seu sofá, com a janela... Então você começa a sonhar com o que você quer. É isso que nós fazemos, vendemos sonhos”, ela conclui. (Celinne Nishimura - Agência Focs)