Mix

A violência contra a mulher não escolhe idade

Agressões físicas e psicológicas são frequentes e casos de feminicídio crescem no Estado
Maria contou sua experiência no Instagram e foi procurada por jovens com histórias parecidas. Foto: Fábio Rogério

Nos últimos dias, duas mulheres foram mortas pelos companheiros em Sorocaba. Uma das vítimas estava com 44 anos, e a outra com 17. Os parceiros, em comum, não aceitavam o fim do relacionamento e os fatos mostram que a violência contra a mulher acontece em qualquer idade. Em Votorantim, uma jovem de apenas 14 anos foi sequestrada por um homem de 45 anos e, segundo o pai da vítima, os dois mantiveram um relacionamento e ele, não aceitando o fim, a manteve durante 20 dias em cativeiro.

De janeiro a setembro deste ano, 86 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado de São Paulo. A quantidade de crimes desse tipo em 2018 já é maior do que no ano passado todo, quando 85 mulheres morreram em decorrência da sua condição feminina. No interior do Estado, neste ano, foram 49 vítimas, enquanto que no mesmo período de 2017 foram 38 casos e no ano todo 52. Os dados são da Secretaria Estadual de Segurança Pública.

O Mix dessa semana traz a história de Luisa e Maria*, duas mulheres de 45 e 17 anos que viram a violência vir das mãos do marido e namorado, respectivamente. O caderno fala ainda sobre os tipos de violência contra a mulher e os canais existentes para buscar ajuda.

De um relacionamento abusivo nasce projeto ‘A Marca na Rosa’

O que já foi dor e insegurança, hoje é força para falar sem medo sobre um problema recorrente, que não escolhe cor, classe social ou idade: a violência doméstica. Com 17 anos, a estudante Maria* é autora do projeto “A Marca na Rosa”, que vai, através de fotos, música e dança, debater relacionamentos abusivos. O lançamento da ação será no dia 6 de novembro (veja matéria na página 2). Com apoio de Ana Cristina de Miranda Reis Miragaia, da Coordenadoria da Mulher da Secretaria da Cidadania e Participação Popular, também serão promovidas rodas de conversa em 53 escolas com alunos do ensino médio e em outras nove escolas com alunos do 9º ano do ensino fundamental.

“Vivi um relacionamento, aos 16 anos, que não era saudável”, conta Maria, que namorou por sete meses até conseguir colocar um ponto final na relação. Controlar horários, roupas e até com quem conversa. Ações como essa, na adolescência, podem ser encaradas pelas jovens como cuidado e carinho, mas Maria relata que são esses os indícios de um sentimento de posse de um homem sobre a mulher. “Eu comecei a me sentir mal. Sentia que não era mais dona de mim e sim que pertencia a ele e aquilo era errado”, relembra.

Hoje, prestes a completar 18 anos, ela conta que o abuso chegou a ser físico e que não sabia a quem recorrer. “Desconhecia a rede de apoio existente em Sorocaba e acho que falta essa abordagem focada nas adolescentes, porque a violência, mesmo de forma sutil, começa nos namoros, muito cedo”, destaca. Maria conta que na época não registrou boletim de ocorrência contra o ex-companheiro, mas hoje faria isso. Em seu projeto, para conscientizar e ajudar as jovens a identificar esse tipo de relação, ela também informa, junto com profissionais da rede, a quem recorrer e como pedir ajuda.

Projeto tem apoio da Coordenadoria da Mulher da Secretaria da Cidadania e Participação Popular. Foto: Fábio Rogério

Com apoio da mãe, uma coordenadora pedagógica de 38 anos, a estudante sentiu que falar sobre o assunto era o jeito mais eficaz de curar as feridas que essa experiência ruim lhe causou. “Eu quero que pela minha fala as meninas consigam, no momento mais difícil, quando estiverem se sentindo coagidas, identificar o problema e sair dele.” A mãe relembra que começou a notar a mudança de comportamento da filha após o início do namoro. “Ela sempre foi segura e independente e depois ficou mais passiva, submissa. Comecei a conversar bastante, mas nunca proibi nada, porque esse não é o caminho”, relata.

Embora Maria não falasse abertamente com Joana sobre as dificuldades que estava enfrentando, a mãe sentia o distanciamento. Após colocar fim ao relacionamento, a jovem começou a escrever poemas e dessa forma externou a dor que a relação havia causado. “Eu vi minha filha voltando. Senti que novamente ela era a menina forte e determinada que eu criei.” Sobre o projeto, a mãe conta que a iniciativa é motivo de muito orgulho, mas no início, embora tenha incentivado a filha, ficou temerosa com uma nova frustração. “Queria que ela andasse com as próprias pernas e agora, que tudo está se concretizando, o mérito é todo dela. Eu fico muito feliz pela coragem que ela teve e um orgulho enorme pela mulher que ela está se tornando”, conta.

Primeiro Maria, através do Instagram, relatou o que havia ocorrido com ela e depois de contar sobre os abusos muitas adolescentes a procuraram para falar de situações parecidas. “A gente fica muito fragilizada e não sabe com quem desabafar. Quando eu me abri, muitas meninas se identificaram. Mais de 30 garotas me procuraram para narrar problemas semelhantes ou até piores”, relembra.

Diante da repercussão, a estudante começou a imaginar como dar destaque ao tema com foco nas adolescentes e procurou ajuda na Coordenadoria da Mulher de Sorocaba. Ana Cristina, responsável pelo setor, conta que junto com Maria, projetou a ação e fez os contatos necessários para que “A Marca na Rosa” seja oficialmente inaugurada no dia 6 de novembro, com uma exposição de fotos e apresentações artísticas. A partir de março do ano que vem, Ana Cristina, junto com uma equipe da rede de apoio à mulher de Sorocaba, percorrerão escolas para abordar os relacionamentos abusivos.

* Maria é nome fictício. Como a jovem ainda não completou 18 anos, o Cruzeiro do Sul preservará sua identidade, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

‘Eles querem que a gente acredite que somos difíceis’

“Eles querem que a gente acredite que somos pessoas difíceis de conviver, que ninguém será capaz de nos amar”, desabafa Luisa*, 45. Ela é uma das vítimas de violência doméstica que buscaram ajuda no Centro de Referência da Mulher (Cerem) e há pouco mais de quatro meses conseguiu se desvencilhar de uma relação que durou oito anos, entre namoro, noivado e casamento.

Com curso superior e até então com a carreira consolidada, Luisa abriu mão do próprio trabalho para acompanhar o companheiro em um novo negócio, fora de Sorocaba. “Hoje eu vejo que desde o início já havia sinais de dominação, mas quando a gente está envolvida emocionalmente e frágil, parece que uma cegueira toma conta.” Após o casamento, em outra cidade e em dificuldades financeiras, a relação rapidamente se tornou violenta, com brigas constantes, humilhação e ameaças. Ela relata que em uma das discussões, após ser xingada, o ex-companheiro quase a agrediu fisicamente, mas por conta dos gritos, vizinhos notaram e ligaram em seu celular. “Quando o telefone tocou e me perguntaram se eu estava bem ele recuou”, relembra.

Luisa esperou o ex-marido sair de casa, pegou algumas roupas e fugiu. Ficou escondida por dez dias. Foto: Fábio Rogério

Luisa, por estar longe de familiares e por ter se afastados de muitos amigos em decorrência do casamento, se sentia acuada vivendo em uma cidade distante de Sorocaba. Aos poucos ela conta que foi articulando para conseguir regressar e ao voltar para cá se sentiu mais confiante para por fim ao relacionamento. Com a ajuda de amigos, ela esperou que o ex-marido sair de casa e fugiu. “Peguei algumas mudas de roupa e fiquei escondida por dez dias e nesse período ele me mandou muitas mensagens pedindo para voltar, mas eu já estava decidida. Tinha notado que se continuasse naquela relação poderia entrar para as estatísticas de feminicídio”, conta, emocionada.

Ela registrou boletim de ocorrência contra o ex-companheiro e não manteve mais contato. Atualmente aguarda o fim do processo de divórcio e recorda que ela foi a quinta esposa dele. “Parece óbvio hoje pra mim que ele só buscava vítimas e eu fui mais uma. Se colocava como frágil, culpava as ex-companheiras e hoje eu percebo que era tudo mentira.” Retomando a carreira, Luisa conta que vem trabalhando para recuperar sua autoestima e os laços de amizade que ficaram fragilizados.

A psicóloga do Cerem Bianca Bonassi Pichiguelli relata que os agressores costumam ser homens sedutores, capazes de envolver a mulher até sentir que pode tornar a violência mais evidente. “Vai ser sutil no início. Vai ser um ciúme travestido de cuidado e depois vem a dominação. Normalmente durante o namoro eles são mais cuidadosos, mas depois do casamento, quando a mulher já está mais distante do círculo familiar, vem a agressão psicológica, patrimonial, moral, sexual, até que chega na violência física”, destaca. (L.P.)

*Luisa é um nome fictício utilizado para preservar a identidade da vítima, que ainda aguarda o fim do processo contra o ex-marido.

Prevenção é meta de ‘A Marca na Rosa’

A responsável pela Coordenadoria da Mulher de Sorocaba, Ana Cristina de Miranda Reis Miragaia, relembra que quando foi procurada por Maria*, estimulou a jovem a ampliar o projeto, que a princípio seria focado apenas nas redes sociais. “Eu quis levar para as escolas porque é justamente nesse ambiente que as relações amorosas começam e muitas vezes as meninas e os meninos, por não terem experiência, não sabem o que é um relacionamento saudável.”

Ana Cristina destaca que o principal objetivo do projeto “A Marca na Rosa” é a prevenção. “Sorocaba possui uma rede de proteção específica para mulheres vítimas de violência, mas pouco se faz para prevenir que os abusos ocorram. A gente só apaga incêndio, mas não evita que eles ocorram”, afirma. A coordenadora destaca que os alunos do ensino médio são o foco da ação por ser justamente na escola que as relações amorosas tendem a se iniciar. As escolas também possuem forte influência na construção de opiniões e falar aos meninos, aponta Ana Cristina, é extremamente necessário, pois muitas vezes a violência é naturalizada.

No dia 6 de novembro, próxima terça-feira, às 19h, no Barracão Cultural, conta Ana Cristina, será lançado oficialmente uma exposição de fotos com adolescentes chamando atenção para as consequências de relacionamentos abusivos. A mostra ocorrerá até janeiro do ano que vem, de forma itinerante.

Projeto vai promover rodas de conversas sobre relacionamentos com os adolescentes. Foto: Pixabay

Do dia 7 a 20 de novembro as fotos ficarão expostas no Shopping Pátio Cianê, no Centro de Sorocaba. Entre os dias 27 e 30 do mesmo mês as imagens poderão ser apreciadas no Pátio do Paço Municipal, no Alto da Boa Vista. Já no mês de dezembro, a Fundec recebe o projeto, dos dias 3 a 14. Em dois domingos de dezembro, nos dias 16 e 23, as fotos ficarão expostas no Parque Carlos Alberto de Souza, no Campolim. Por fim, entre os dias 2 a 11 de janeiro, a Biblioteca Municipal sediará a exposição. Ana Cristina conta que a agenda do projeto ainda não está fechada e novos locais podem entrar na programação do projeto itinerante.

Nas escolas o trabalho será iniciado em março do ano que vem e já no início do ano letivo será realizada uma formação para os professores mediadores de cada unidade educacional. Além das rodas de conversa, dias antes do evento será disponibilizada uma “caixa de segredos”, que ficará em um local acessível aos alunos. “De forma anônima, eles poderão falar sobre suas relações nessa caixa e eu poderei ler esses bilhetes antes do encontro”, conta Ana Cristina. Os debates nas escolas estão programados ao longo do ano que vem e podem ser ampliados.

* Maria é nome fictício. Como a jovem ainda não completou 18 anos, o Cruzeiro do Sul preservará sua identidade, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Cerem atendeu 383 vítimas neste ano

No Centro de Referência da Mulher (Cerem), que presta gratuitamente atendimento interdisciplinar especializado e contínuo às mulheres em vulnerabilidade, 42 jovens, com idade entre 14 e 24 anos, relataram serem vítimas de violência doméstica ao longo de 2018. A faixa etária que compreende mais vítimas é a de 25 a 39 anos, com 172 casos. De acordo com dados da Vigilância Social de Sorocaba, de janeiro até agora o Cerem recebeu 383 casos, gerando o total de 2.117 atendimentos, entre acompanhamento psicológico e de assistente social. No ano passado todo, 552 mulheres procuraram pelo serviço.

De acordo com Luciana More, chefe de seção de proteção especial da Secretaria de Igualdade e Assistência Social (Sisas), 40,72% das mulheres atendidas no Cerem são da região sul e leste de Sorocaba, 37,13% pertencem área de abrangência da zona norte e 22,15% à oeste. “Trabalhando diretamente com essas vítimas e como mãe, eu também posso falar que o trabalho de prevenção é essencial, mas infelizmente ainda há muito machismo impregnado na nossa sociedade e muitas mulheres não conseguem notar o risco que estão correndo em suas relações afetivas”, afirma.

Ainda conforme os dados da Vigilância Social, 34,9% das vítimas que procuram atendimento no Cerem relatam agressões psicológicas e 20,7% denunciam agressão física. Das mulheres atendidas, 23,4% também sofreram violência moral; 16,4% violência patrimonial e 4,7% foram vítimas de violência sexual. Luciana conta que é crescente o número de mulheres com mais de 50 anos que procuram ajuda. Neste ano foram 82. “Creio que essas vítimas agora se sentem mais seguras para pedir ajuda. Atendemos mulheres que vivem em relações violentas por muitos anos”, relata.

Já o agressor, segundo os dados, em 36,4% dos casos é desempregado e com ensino médio completo (25,1%); 14,7% dos homens denunciados possuem ensino técnico ou superior. “A violência doméstica pode acontecer dentro dos lares menos prováveis e classe social não isenta ninguém”, afirma Luciana. Em 52,1% dos casos, o agressor é o ex-marido ou ex-namorado. 25,4% das vítimas que buscaram ajuda ainda estão casadas com o agressor. Do total de casos, 13,9% são de filhos que agridem as mães. Irmãos, pais ou outros familiares somam 5,4% do total de registros.

DDM: 900 casos de violência doméstica

Entre janeiro e setembro deste ano foram registrados 904 boletins de ocorrência de violência doméstica na Delegacia da Mulher de Sorocaba (DDM). Esse número, segundo a delegada titular Ana Luiza Job de Carvalho Salomone, é inferior ao total registrado na cidade, pois os crimes cometidos aos finais de semana e após às 18h de segunda a sexta são registrados nos demais plantões policiais. Sobre o projeto “A Marca na Rosa”, a delegada destaca a necessidade que abordar o assunto com as adolescentes, pois é justamente quando são iniciadas as relações.

Ana Luiza conta que há casos de mulheres com menos de 18 anos que procuram a DDM, mas são raros. “É preferível que uma menina, ao denunciar, faça o boletim acompanhada de um responsável legal e muitas vezes a jovem acaba não se abrindo com os pais e por isso não registra a ocorrência”, explica. Entre os boletins contabilizados nos nove primeiros meses deste ano há lesão corporal, ameaça, violência sexual, entre outros.

Na Vara do Juizado Especial Criminal (Jecrim) e da Violência Doméstica e Familiar contra Mulher de Sorocaba, também não há dados específicos sobre vítimas adolescentes. No total dos casos que se enquadram na Lei Maria da Penha, neste ano foram distribuídos 714 inquéritos e desses, 298 também tiveram concessão de medida protetiva. Para solicitar a medida protetiva, a vítima deve fazer essa solicitação primeiramente ao delegado, no momento do registro da ocorrência. Dessa forma o pedido chega ao Fórum e no dia seguinte já é realizada audiência para definir se a medida protetiva será ou não concedida, se baseando no risco que a vítima corre.

Botão do Pânico

Uma das ferramentas existentes em Sorocaba para garantir o cumprimento da medida protetiva é o Botão do Pânico e segundo a Secretaria de Igualdade e Assistência Social (Sias), entre fevereiro e setembro foram registrados 50 atendimentos às vítimas que acionaram a ferramenta. Até o momento, 142 mulheres estão cadastradas no aplicativo. Toda sorocabana que obter uma medida protetiva pelo poder judiciário terá o direito de se cadastrar gratuitamente.

Rede de apoio a mulheres vítimas de violência

Delegacia de Defesa da Mulher
(15) 32321417
Rua Caracas, 846, Jardim América

Centro de Referência da Mulher
(15) 32356770
Avenida Juscelino Kubitscheck, 440, Centro

Casa Abrigo – CIM Mulher
(15) 991636238

Defensoria Pública
(15) 32312478
Avenida Barão de Tatuí, 231, Jardim Vergueiro

Centro de Referência Especializado de Assistência Social
Norte (15) 32235319
Oeste (15) 32115070
Sul / Leste (15) 32191926

Coordenadoria da Mulher
(15) 32293440

Comentários