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A vida (nova) de pacientes psiquiátricos em uma Residência Terapêutica

Pacientes vindas de hospitais psiquiátricos desativados na cidade falam sobre o cotidiano longe dos muros fechados da internação
A vida (nova) em uma Residência Terapêutica
O ambiente doméstico prevalece e as moradoras, sob supervisão de cuidadores, são responsáveis pelos serviços da casa. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Rosana, Carla, Sandra, Elizabeth, Lucivania, Dina, Rita, Augusta, Matilde e Maria Tereza são parte do grupo de pacientes da saúde mental de Sorocaba que ganhou uma nova vida após a desinstitucionalização (Desinst) dos pacientes internados em hospitais psiquiátricos da cidade.

As 10 mulheres vivem atualmente em uma Residência Terapêutica (RT) no bairro do Éden, a maioria egressa dos hospitais psiquiátricos Mental e Vera Cruz, que foi transformado em polo da desinstitucionalização e, por isso, foi o último a fechar as portas em adesão ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

As casas recebem ex-pacientes de hospitais psiquiátricos de Sorocaba em busca de proporcionar mais independência e socialização às pessoas com deficiência intelectual que não podem retornar para suas famílias. Na cidade, são 40 casas espalhadas por diversos bairros, responsáveis por abrigar cerca de 360 moradores. Cada um desses locais é moradia de, em média, dez pessoas, sempre do mesmo sexo.

Maria Tereza, 50 anos, por sinal, é a mais falante do grupo que reside na RT do Éden e preserva na memória algumas lembranças de quando entrou pela primeira vez em um hospital psiquiátrico, aos oito anos. Ainda menina, foi internada no Mental pela avó e, desde então, não recebeu visitas de nenhum familiar.

Mas, a memória não faz com que ela tire o sorriso do rosto. “Elas são as minhas amiguinhas para sempre”, disse Maria Tereza sobre as amigas da residência. Maria comemora que na RT pode manter sua pequena coleção de bonecas e ursos de pelúcia, chamados por ela de “bichinhos”.

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Maria Tereza é falante e comemora que na RT pode manter sua pequena coleção de bonecas e ursos de pelúcia. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Em uma época em que era comum a internação de menores de idade e até crianças, assim como Maria Tereza, dona Matilde foi internada aos 12 anos, também no Hospital Mental. O prontuário da paciente informa que ela foi encontrada na rua e encaminhada ao hospital pelo serviço de promoção social do Estado.

Sandra tem problemas de audição, fato que afeta também sua fala. Sorridente, ela apenas murmura mas, mesmo assim, não deixa de interagir com o grupo.

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Carlinha, 37 anos, como foi carinhosamente apelidada, também veio do Hospital Mental, antes referência no tratamento psiquiátrico para mulheres. Ela é quem comanda a cozinha no horário do almoço: prepara a salada, carnes e o suco. “Gosto mais daqui, a gente passeia. Lá [Hospital Mental] não podia assistir televisão direito, tinha muita gente”, contou a paciente.

A divisão de tarefas é muito bem feita na casa. Dina comenta que estudou até a quinta série e sabe ler e escrever. Por isso, quando alguma delas quer escrever uma carta ela é quem fica responsável por redigir o texto.

Rita, 66 anos, comenta que recentemente pintou o cabelo, que “estava quase loiro”, aderindo aos fios castanhos e, assim como a maioria, mantém as unhas feitas, as dela coloridas com esmalte rosa claro.

Diferente de Carlinha, prefere ficar longe da cozinha. “Nós não cozinha não. A gente tem um pouco de medo do fogão [sic]”, disse Rita.

Segundo Eline Araújo, coordenadora de saúde mental de Sorocaba, a desinstitucionalização foi importante para possibilitar qualidade de vida para os ex-internos dos hospitais psiquiátricos. “Considero que muitas pessoas estão iniciando a vida agora, porque elas foram desprovidas de toda a liberdade. Algumas voltaram a estudar, outras a namorar ou trabalhar, e foi ótimo. É como se a vida tivesse começado agora”, disse a coordenadora.

Rotina de cuidados

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Apesar dos problemas de audição e com a fala, Sandra é sorridente e não deixa de interagir com todos. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Para auxiliar nas tarefas diárias, seis funcionárias trabalham na residência. Cinco delas são cuidadoras, responsáveis por prestar apoio nas atividades de rotina da casa, uma psicóloga, e uma técnica de enfermagem, que ajuda na organização dos medicamentos.

Além das RTs, Sorocaba também conta com oito unidades dos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, que oferecem suporte no tratamento destes pacientes. Segundo a psicóloga responsável pela RT do Éden, Isabela Gambaro, todas as pacientes realizam acompanhamento nos Caps.

A rotina inclui também atividades para o cuidado da casa, como lavar louças e as próprias roupas, organização dos quartos e banheiros, além das refeições programadas. Todas as atividades são supervisionadas e recebem auxílio das cuidadoras, responsáveis pelo preparo das refeições.

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“Cada uma é responsável pelo seu quarto, que possuí banheiro, e em cada quarto dormem duas. Todo dia elas limpam o quarto e o banheiro. A louça do dia sempre fica com uma dupla, uma lava e a outra enxuga”, explicou a psicóloga.

Entre as atividades, as mulheres fazem caminhada, academia, vão à feira e salão de beleza. Diferente dos hospitais, a residência não possui um médico ou enfermeiro diariamente para acompanhar as moradoras, com o objetivo de manter o ambiente de uma casa comum. Isabela explica que caso alguma delas passe mal é encaminhada para a Unidade Pré-Hospitalar (UPA) do bairro.

“Caso elas precisem fazer algum tratamento, como a Maria Tereza, que trata diabetes, passam em um consultório particular. Quando precisa de uma especialidade vão para um médico particular”, informou a responsável.

Vizinhança se adapta a elas

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Matilde mostra, com orgulho, as peças de roupa que ela mesma escolheu. Crédito da foto: Erick Pinheiro

De acordo com vizinhos das residências terapêuticas do Éden, as pacientes da saúde mental recebem ótimo tratamento por parte da gestão e organização da casa. Porém, relatam episódios de barulho. Uma moradora da rua, que preferiu ter a identidade preservada, conta que trabalha com a gravação de vídeo aulas para a internet e que após a mudança da RT para o local precisou encontrar formas de driblar o barulho.

“Minha solução foi deixar o barulho e falar na própria videoaula que moro ao lado de uma clínica com dez pacientes da saúde mental”, relatou a moradora. Outra situação percebida pela reportagem do jornal Cruzeiro do Sul foi a presença de cadeados nos portões de ambas as residências. Uma nota foi solicitada à Prefeitura, que informou que ele não fere o direito de ir e vir das moradoras das RTs. O cadeado é usado nas casas para a segurança das moradores contra assaltos e outros riscos que podem ocorrer com o portão aberto, assim como qualquer outra casa.

A Prefeitura ressaltou ainda que as moradoras não necessitam de autorização para saírem das casas, mas as pessoas com maior dependência que necessitam de auxílio são acompanhadas para atravessar as ruas ou voltar para a casa.

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Gestão é feita por convênios

As RTs são de natureza pública, porém podem ser estabelecidos convênios com entidades filantrópicas, associações, ongs e Organizações Sociais (OSs) para a implementação e acompanhamento das casas que recebem os pacientes vindos dos hospitais psiquiátricos que foram fechados. Em Sorocaba, o trabalho mantido em parceria com a Prefeitura é feito por três instituições: a Associação de Atenção Humanitária a Saúde (Athus), a Associação Paulista de Gestão Pública (APGP) e a Associação Protetora dos Insanos de Sorocaba (APIS). O fechamento dos hospitais psiquiátricos de Sorocaba aconteceu após a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre o Ministério Público e a Prefeitura de Sorocaba.

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Nas Residências Terapêuticas as moradoras recebem atenção de vários profissionais. Crédito da foto: Erick Pinheiro

A curatela das mulheres fica sob responsabilidade da direção da Athus, que repassa os benefícios de cada uma delas, como, por exemplo, para consultas médicas particulares, remédios de uso contínuo que não são fornecidos pela rede do Sistema Único de Saúde (SUS), produtos de higiene pessoal e alguns alimentos específicos solicitados pelas moradoras. Tudo isso é tabelado em uma prestação de contas mensal à pasta. Essas OSs são empresas conveniadas com a Prefeitura de Sorocaba.

Termo de Ajustamento de Conduta

O fechamento dos hospitais psiquiátricos de Sorocaba aconteceu a partir da assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) determinando a desinstitucionalização dos pacientes internados há muito tempo nessas instituições. O documento foi assinado em dezembro de 2012 pelo Ministério Público e as prefeituras de Sorocaba, Salto de Pirapora e Piedade.

Em Sorocaba, o Hospital Vera Cruz foi a última instituição a fechar as portas em 7 de março de 2018. O plano de ação do TAC era de oferecer aos pacientes da saúde mental tratamento terapêutico, baseado no princípio constitucional da dignidade humana, a reinserção social, por meio de recursos extra-hospitalares. (Aline Albuquerque – programa de estágio / Supervisão: Carolina Santana)

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