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A tendência é desfile em formato digital

11 de Julho de 2020 às 00:01

A tendência é desfile em formato digital Passarelas foram substituídas por produções cinematográficas. Crédito da foto: Franck Fife / AFP

A moda entrou em território desconhecido: pela primeira vez, a Semana de Moda de Paris começou em formato 100% digital, com o desafio de atrair todos os olhares em plena crise sanitária.

Na ausência de passarelas, público VIP e aplausos, as empresas se voltaram para a imaginação ou recorreram a figuras da sétima arte, como foi o caso da Dior, que contou com o cineasta italiano Matteo Garrone para filmar sua nova coleção, e de Iris Van Herpen, que fez da atriz Carice van Houten a protagonista de seu vídeo.

A maioria das marcas pertencentes ao seleto clube da alta costura, que se caracteriza pelo trabalho manual e pelo uso dos tecidos mais nobres, apresentará suas coleções até quarta-feira em uma plataforma digital aberta pela primeira vez ao público em geral (https://hautecouture.fhcm.paris/fr).

Porém, no primeiro dia, a maioria das empresas tiveram que se contentar em mostrar apenas alguns itens da coleção outono-inverno, e algumas até se limitaram a mostrar os esboços, como Schiaparelli. E é que o setor de luxo sofre como todos os outros o colapso brutal resultante do confinamento e enfrenta o futuro com muitas perguntas.

“São tempos difíceis para a nossa indústria. É impossível saber o que acontecerá a seguir. Portanto, temos que pensar de maneira diferente”, disse a diretora artística da Dior, italiana Maria Grazia Chiuri, em uma reunião com jornalistas via Zoom. “Temos que encontrar uma nova linguagem”, alertou.

Formato miniatura

As primeiras palavras dessa futura linguagem foram do cineasta Matteo Garrone (“Gomorra”, “Dogman”), com um vídeo de 10 minutos ambientado em uma floresta idílica, povoada por belas criaturas com cabelos compridos que desejam usar vestidos de alta costura da marca parisiense, apresentados em miniatura numa espécie de baú.

Chiuri “me deu a ideia para este filme quando vi os mini-vestidos no baú, já era como um conto de fadas”, disse o cineasta.

“Foi um desafio gravá-lo em três semanas”, em Roma: “Queria que fosse emocional e não cerebral, é hora de alcançar o coração”, acrescentou Garrone. Uma aposta que funcionou a julgar pelo contador de visualizações da conta no Instagram da Dior: mais de 1,2 milhão nas duas primeiras horas.

A tendência é desfile em formato digital Publicações pela internet permitem apresentações da produção da moda. Crédito da foto: Francois Guillot / AFP

Menor que o habitual, a coleção de 36 “looks” viajará em tamanho miniatura para vários cantos do planeta para os clientes que desta vez não puderam viajar para Paris para assistir ao desfile.

A ideia de enviar esses vestidos de 40 cm foi inspirada no “Teatro da Mora”, um espetáculo itinerante com bonecas que servia para apresentar o know-how francês em matéria de confecção durante a Segunda Guerra Mundial.

Coleção que ainda virá

A Schiaparelli abriu a semana com um breve vídeo, cujo protagonista é seu diretor artístico, o americano Daniel Roseberry. Sentado no banco de um parque em Nova York, o estilista desenha os esboços de uma coleção que, por enquanto, não foi capaz de confeccionar.

“A pandemia abalou todas as certezas. Não tendo uma equipe para esta coleção, tive que me apoiar ainda mais na minha imaginação”, escreveu Roseberry em nota após apresentar o filme, no qual presta homenagem ao universo da fundadora da marca, Elsa Schiaparelli, tão próximo do surrealismo quanto “a época em que vivemos agora.”

A holandesa Iris Van Herpen vestiu sua compatriota Carice Von Houten com um único vestido branco, no mais puro estilo arquitetônico da estilista.

Van Herpen, que se define como uma criadora “conceitual”, admitiu a dificuldade de trabalhar durante o confinamento.

“Normalmente, não me sento para desenhar vestidos. Meu trabalho é mais experimental, com outras pessoas, testando os materiais”, disse ela em entrevista publicada na plataforma digital. Mas “durante a pandemia, nem sequer tivemos acesso ao produto”, comentou.

Naomi Campbell

A tendência é desfile em formato digital Movimento contra o racismo foi lembrado pela modelo Naomi Campbell. Crédito da foto: Jean-Baptiste Lacroix / AFP

A top britânica Naomi Campbell deu o tom político, exortando a indústria a começar a “impor a inclusão”, no contexto do movimento “Black Lives Matter”. “Devemos impor a inclusão da multiplicidade de identidades que compõem nossos países”, afirmou em mensagem postada na plataforma digital.

“É mais obrigatório do que nunca incluí-los permanentemente e não apenas temporariamente”, acrescentou a top de 50 anos, vestindo uma camisa com o slogan “Phenomenally Black”.

Na quinta-feira, a moda masculina assumiu por cinco dias, com novas marcas convidadas, como a do jovem estilista espanhol Archie Alled-Martínez.

Adaptação chega às passarelas

Sem público, sem aplausos, sem selfies. A Semana de Moda de Paris se adaptou à nova normalidade pós-Covid e aconteceu de forma digital pela primeira vez, com vídeos de alta costura que buscaram suprir a “mágica” das passarelas com engenhosidade tecnológica.

Entre segunda-feira e quarta-feira, marcas de alta costura, incluindo grandes casas como Dior e Chanel, desfilaram virtualmente e atraíram internautas do mundo inteiro. Givenchy e Armani não participaram.

YouTube, Google, Instagram, Facebook... A Semana de Moda também foi vivida nas redes sociais. O objetivo é que as coleções continuem alcançando o público, apesar da ausência das imagens glamourosas dos desfiles parisienses, ideais para dar a volta ao mundo.

Futuro e perguntas

Não é de surpreender que a indústria da moda esteja em uma encruzilhada: atingida pela desaceleração causada pela pandemia, alvo de críticas crescentes por incitar o consumo contínuo e por seu modelo insustentável, as marcas saem do confinamento atingidas economicamente e olhando para o futuro com muitas perguntas.

“A Semana de Moda digital era a única maneira de mostrar o trabalho realizado e retomar a atividade dessas empresas”, resume Gilles Lasbordes, diretor-geral do salão francês Première Vision.

Londres também organizou em junho seu calendário de desfiles on-line e Milão fará o mesmo a partir de 14 de julho.

Novo modelo

A tendência é desfile em formato digital Marcas sentem os efeitos da pandemia e enfrentarão desafios no novo cenário. Crédito da foto: Francois Guillot / AFP

A Federação Francesa de Alta Costura e Moda propôs que as empresas gravassem vídeos com no máximo 20 minutos. Mas, por exemplo, a estilista Xuan Thu Nguyen precisará de apenas quatro para apresentar quatro “looks”.

“Este é um vídeo artístico, que as pessoas poderão ver quantas vezes quiserem, acho mais interessante do que apresentar uma coleção inteira”, disse à AFP a holandesa de origem vietnamita, cujo vídeo de alta costura foi transmitido na segunda-feira.

À frente de sua empresa parisiense Xuan, a estilista se sente confortável com esse formato. “Não faz sentido criar tantos vestidos (para um desfile). Em cada coleção, há um tema a ser declinado: longo, curto, azul, vermelho... É um desperdício”, afirma.

O italiano Maurizio Galante também aprova essa experiência: “O desfile e o vídeo são como teatro e cinema, com linguagens completamente diferentes”, diz ele. No primeiro, “as energias circulam, mas perdemos muitos detalhes”, no segundo, “a mensagem que queremos transmitir é passada com sucesso”.

Mas para Xuan, essa nova normalidade na moda é apenas uma “pausa”, antes que as coleções brilhem novamente nas passarelas. “Eu poderia viver sem os desfiles, mas acho que no final alguém acabará sentindo falta”, acredita.

Uma opinião compartilhada por outras marcas emblemáticas: “Luxo é emoção e nada é tão emocional quanto uma passarela real. A eletricidade desse momento criativo, os prazos, a adrenalina...”, comentou recentemente o presidente da Dior, Pietro Beccari.

Para outros, a pandemia agiu como uma “revelação”. Gucci anunciou que apresentaria apenas duas coleções por ano e Saint Laurent retirou-se do calendário oficial de 2020 para trabalhar de acordo com a “criatividade”.

Por enquanto, resta ver como esta Semana de Moda sem precedentes vai repercutir e como será organizada a seguinte.

O próximo programa de “prêt-à-porter” em Paris, previsto para o final de setembro, será realizado segundo “as recomendações oficiais” em termos de medidas sanitárias, de acordo com os organizadores. (AFP)

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