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A solidariedade que anda de bicicleta não importa quantos quilômetros

Ciclistas sorocabanos enfrentaram 70 km sobre duas rodas para levar doações a família quilombola em Ariri
A solida riedade que anda de bicicleta
Viagem aconteceu no início do mês de dezembro, mas história que levou o grupo até Ariri começou em 2015. Crédito da foto: Acervo Pessoal

São 12 anos de aventuras pedalando juntos por vários cantos, mas Aparecido Joaquim Mendes, 49, o Cido, e Rosemary França Gonzales, 48, a Rose, sorocabanos conhecidos como Casal 20, dizem nunca ter vivido experiência parecida à do último dia 3 de dezembro.

Para entender o episódio recente, é preciso voltar no tempo. Em 20 de novembro de 2015, pleno Dia da Consciência Negra, eles passaram, coincidentemente, por uma comunidade quilombola de Ariri, distrito de Cananéia, no Litoral Sul do Estado, e nunca mais tiraram da memória duas pessoas: seu Antônio e dona Adalziza. Naquela ocasião, a intenção era conseguir água para se hidratar e seguir o trajeto. Os bikers, sujos de lama dos pés à cabeça, foram surpreendidos: a dupla humilde insistiu para que sentassem, ficassem para conversar um pouco e Adalziza, de quebra, ainda preparou bolinhos de chuva.

A solidariedade que anda de bicicleta
Lama e pedra no caminho percorrido pelo grupo de ciclistas. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Três anos depois, as lembranças daquele 20 de novembro retornaram latentes. Rose descreve como uma espécie de “chamado”. A memória repentina, daquelas que não se explicam racionalmente, fez com que o casal de sorocabanos decidisse voltar àquela região para revisitar Antônio e Adalziza. Não seria um simples reencontro. Eles queriam mais. Por se tratar de uma região de preservação natural, a vida dos moradores de lá é consolidada à base da cultura de subsistência. Cido e Rose, então, decidiram levar algumas doações para fazer mais feliz o Natal de Antônio, Adalziza e família.

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Mas a missão não foi fácil. Começou a ser pensada há pelo menos quatro meses, pois exigiria preparação. Sob duas rodas, não seria tranquilo levar uma cesta básica, panetones, além de doces e duas bolas de futebol às crianças da família. Para deixar o desafio alcançável, a viagem até Cananéia seria de carro para, depois, enfrentarem cerca de 70 quilômetros de ida até Ariri. Cido e Rose precisariam carregar aproximadamente 12 quilos cada um (oito das doações e quatro de pertences e alimentação própria). Teriam, também, a ajuda de dois parceiros: José Pretel e Jair Alves, que os acompanhariam.

Vencendo obstáculos

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Amigos partiram de Cananéia levando mantimentos, doces e brinquedos para serem doados. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Pouco a pouco, eles foram treinando, colocando pesos nas bicicletas e fazendo trabalhos de fortalecimento muscular. Às vésperas do grande dia, obstáculos que poderiam dificultar a empreitada: souberam que a região de Cananéia havia sido atingida por uma forte tempestade de granizo, inclusive com registro de naufrágio de um barco e queda de postes de eletricidade. Mesmo assim, decidiram seguir adiante, firmes. Preparação, dificuldades e uma série de ingredientes na história, mas algo intrigava este repórter: “como vocês sabiam que Antônio e Adalziza estavam vivos?”, perguntei. “Pois é, esse era o maior dos nossos medos”, responderam.

Em meio às incertezas, Cido, Rose, José e Jair chegaram à Cananéia no dia 2 e, logo de manhã, no dia 3, seguiram para Ariri. Para a felicidade de todos, lá estavam Antônio e Adalziza, com 86 e 73 anos de idade, respectivamente. “Quase ninguém para aqui. A gente pensou que seria mais alguém pedindo água para seguir o trajeto”, teriam dito os dois depois de se surpreenderem e, emocionados, verem as doações postas sobre a mesa da cozinha.

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Rose e Cido são conhecidos como Casal 20. Crédito da foto: Acervo Pessoal

O Casal 20 levou fotos de três anos atrás para que a dupla recordasse a ocasião. “Levamos não só alimento para o corpo deles, mas um alimento para a alma, com carinho, amor e gratidão”, diz Rose. “A dona Adalziza nos contou que, dias antes, uma pessoa da comunidade tinha falado que alguém traria conforto e daria muitas alegrias para ela”, lembra Cido.

Cachoeira do Rio das Minas: uma recompensa

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Conhecer a cachoeira do Rio das Minas foi uma grata surpresa. Crédito da foto: Acervo Pessoal

A retribuição de Antônio e Adalziza aos presentes recebidos veio com a indicação para que Cido, Rose, José e Jair visitassem uma cachoeira próxima, conhecida como Cachoeira do Rio das Minas, uma referência às extrações de ouro no passado. “Saímos já um pouco cansados para entrar ainda mais na mata fechada. Percorremos uns dois quilômetros de trilha e pedras até chegar”, comenta Cido sobre a aventura. Frente a frente com o local indicado, Rose diz que a sensação é de que tinham “transpassado um portal”. “Foi um grande presente, uma sensação de paz e liberdade inexplicáveis”, resume.

Depois, voltaram até a casa dos dois para agradecer e se despedir. “Acho que dei uns 10 abraços na dona Adalziza, estava difícil de ir embora”, afirma Rose. “Eles ficaram acenando, dando tchau da janela até sairmos do campo de visão. Essa imagem eu nunca mais vou esquecer”, completa.

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Visita foi alento para os anfitriões

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Grupo de ciclistas com Antônio e Adalziza durante a visita do começo do mês. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Em três anos, a vida de Antônio e Adalziza mudou, com o caminho deles sendo cruzado por grandes dificuldades. Durante a visita, Cido e Rose descobriram que o casal do Litoral perdeu dois filhos: um rapaz em um acidente de carro e uma moça vítima de câncer. Além disso, Adalziza sofreu uma queda durante esse período e precisou ficar pelo menos três meses acamada. “A gente percebeu quando chegou que eles estavam um pouco tristes”, conta Rose. “Mas depois, ao longo da visita, a gente via que eles ficaram mais felizes. Dona Adalziza fez um café ‘novinho’ e ‘quentinho’, inesquecível para nossas almas”, recorda.

Antes de abrirem as bolsas acopladas às bicicletas, nenhum dos dois sabia que dentro delas haveria os presentes de Natal. A princípio, Rose perguntou se poderiam lavar as roupas sujas que traziam do trajeto. “Ela de pronto foi pegar o sabão”, lembra. “Então começamos a abrir os alforges e tirar os mantimentos e eles ficaram espantados, sem entender o que estava acontecendo.” (Esdras Felipe Pereira)

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