Cruzeirinho

Hoje a conversa é séria no Cruzeirinho e o tema é segurança

Infelizmente, o mundo não é feito somente de pessoas do bem. Crianças podem ser facilmente enganadas por adultos com más intenções
Nemo desobedeceu seu pai e foi sozinho para fora do recife – Foto: Divulgação

O assunto do Cruzeirinho de hoje é muito sério e com certeza seus pais já falaram com você sobre isso: cuidado com estranhos. Talvez você pense que já sabe tudo a respeito e nem precisa ler este texto. Mas logo você verá que não é bem assim.

Vamos então começar com uma pergunta: quem é estranho ou desconhecido pra você? Seu vizinho, o “moço” da padaria, uma atriz da TV, um jogador famoso de futebol, o porteiro do condomínio… Todos você conhece, sabe quem são, portanto não seriam desconhecidos ou estranhos, correto? Negativo. Quando a gente fala sobre estranhos ou desconhecidos estamos falando de pessoas que não convivemos com tanta proximidade, como acontece com os nossos pais, avós e familiares em geral.

Isso não significa que todas as pessoas desconhecidas sejam más, mas como não existe nenhum jeito de saber quem é bom ou não, é recomendado se prevenir. Como? Obedecendo uma simples regra: nunca fique longe de um adulto de sua confiança.

No filme “Procurando Nemo”, o peixinho desobedeceu seu pai e foi sozinho para fora do recife, onde nenhum peixe ousaria ir. E o que aconteceu? Nemo acabou sendo capturado por dois mergulhadores, que o levaram de barco para muito longe. Ana Laura Schliemann, psicóloga especialista em crianças e adolescentes, e que também é professora na PUC-SP, lembra que demorou muito para o pai de Nemo encontrá-lo — e que, enquanto isso, o peixinho passou por muitas situações difíceis. “Tem crianças que acabam não encontrando mais a mãe, o pai”, alerta.

Ela recomenda que você assista de novo ao filme do Nemo e preste atenção em tudo o que ele passou. “Criança não deve ficar sozinha nem em casa, nem em lugar algum sem um adulto que conheça e confie”, afirma a psicóloga.

Ana Laura ensina que o ideal é que você, criança, não converse com adultos desconhecidos, a não ser que você esteja acompanhado de alguém de sua confiança, como seu pai, sua mãe ou outro familiar. Afinal, pense bem: por que um adulto estranho quer ficar conversando com uma criança?

Pode ser que um dia você esteja em um supermercado ou algum outro lugar, com alguém da sua família, e uma pessoa desconhecida se aproxime para pedir informação ou ajuda. Você saberia o que fazer? O correto é procurar o adulto de sua confiança (que deve, claro, estar bem perto de você) e ele sim conversará com o outro adulto.

Veja como é perigoso — e fácil — ‘cair na conversa’ de um estranho

No dia 13 de março, uma quarta-feira, a reportagem do Cruzeirinho foi até um local, onde frequentemente estão muitas crianças, com o objetivo de falar com algumas delas e tentar, de alguma forma, ver se seria fácil levá-las dali. Para isso foi comprado um saco de balas, mas não foi preciso usar nenhuma delas! Quase todas as crianças abordadas, com idade entre 2 e 12 anos, sairiam dali sem precisar de nada além de um pedido.

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Na intenção de ajudar, Pedro pensou em sair de onde estava com um estranho – Foto: Fábio Rogério

Primeiro a conversa foi com a mãe do Pedro Henrique da Cunha Pires, 12 anos, sem ele saber. Depois, o próximo passo foi ir até o local onde Pedro estava, a alguns metros da mãe. Em seguida, iniciada uma conversa com ele, sobre o projeto que participa.

Pedro mostrou-se muito atencioso e então veio um pedido: “vamos comigo até lá fora, pra você explicar para a minha sobrinha sobre esse curso?”. Na intenção de ajudar, Pedro toparia, como muitas crianças fariam. Disse que iria, mas só se fosse um pouco mais cedo, porque naquele horário sua mãe iria buscá-lo. Como de fato ocorreu.

Uma colega de turma de Pedro logo se disponibilizou a ir, no entanto, a menina foi pedir autorização para o professor. Assim que a reportagem se identificou e falou do tema do Cruzeirinho, muitas crianças se aglomeraram ao redor da mesa onde Pedro estava sendo entrevistado. A partir daí, algumas se preocuparam, começaram a querer ajudar nas respostas, outra criança foi até a mãe de Pedro para avisar o que estava acontecendo e outras tantas quiseram também ser entrevistadas.

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Verônica diz tomar cuidado com conversas pela internet – Foto: Fábio Rogério

Algumas crianças estavam se achando mais espertas, claro, porque já sabiam do que se tratava, mas o que elas não esperavam é que também “cairiam na conversa” da reportagem. Bastou falar para as meninas que tinha muita gente ali e isso poderia atrapalhar a entrevista, que elas aceitaram um convite para ir conversar no banheiro.

Verônica Sagges Silva e Amanda Rafaela Roman de Almeida, ambas com 10 anos, toparam na hora. Foi então que o alerta foi feito: dar entrevista no banheiro? Aí elas compreenderam que também teriam sido enganadas. A justificativa foi que elas já estavam conversando com a repórter, que esta tinha inspirado confiança e também estava com o crachá de identificação do jornal. Mas que garantia elas tinham que não se tratava de um crachá falso? E se fosse alguém com crachá falando que é de uma agência de modelos? Aceitariam sair dali para tirar fotos? Ambas concordaram com o perigo. “As pessoas podem nos sequestrar, falar bobagem”, acrescentou Amanda.

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Amanda sabe dos perigos, mas não desconfiou do convite – Foto: Fábio Rogério

Questionadas se usam a internet e com quem falam, elas responderam que é só com parentes e amigos. “Se alguém me adicionar e eu não souber quem é, eu bloqueio na hora”, ensinou Verônica.

É importante ter cuidado e desconfiar

“Um estranho é alguém desconhecido que pode chamar a gente para tentar nos levar para algum lugar”, resume Nicolas Marvin Soares, 9 anos. “Minha mãe falou que se eu notar algo assim, é pra sair correndo”, disse.

Nicolas lembra que um dia estava com um grupo em São Paulo e, num momento em que se afastou um pouco, percebeu que um moço o seguia. “Aí ele veio até mim e falou que era pra ir embora com ele. Eu saí correndo”, conta.

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Nicolas aprendeu que ao desconfiar de algo deve sair correndo – Foto: Fábio Rogério

Como todas as crianças, Nicolas já ouviu falar do “homem do saco”. Pais e mães falam disso justamente para que seus filhos tenham cuidado com estranhos — mas não significa que o “homem do saco” esteja mesmo com um saco na mão. E aquilo que ele faz, mulheres também podem fazer. “Para mim é um homem que tem brinquedos no saco dele, oferece para as crianças e quando vão pegar, ele puxa, bate na criança e coloca no saco para matar, vi algo assim no YouTube”, comenta. Questionado se um vizinho, por exemplo, aparecesse querendo levá-lo embora ele iria ou não, Nicolas disse que não sabia responder e que precisa conversar com sua mãe a respeito — afinal o vizinho é conhecido dele e amigo da família. “Mas minha mãe me avisaria antes”, lembrou.

Já Milton Albuquerque Machado, 9 anos, disse que iria sim embora com o vizinho, por ser conhecido. Questionado o que faria se alguém desconhecido oferecesse um brinquedo, ele disse que não pegaria. “Porque vem de um estranho e poderia ter qualquer coisa no brinquedo”, acrescentou ele, que estava acompanhado das irmãs Ana Rita Albuquerque Machado, 6 anos, e Júlia Albuquerque Machado, 3 anos.

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Miguel, Joaquim, Ana Rita, Lígia, Júlia e Milton participaram de uma conversa sobre o assunto – Foto: Fábio Rogério

Miguel Moraes Santiago, 4 anos, que estava acompanhado do irmão Joaquim Moraes Santiago, 2 anos, disse que tem medo de falar com pessoas estranhas — mas quando a reportagem perguntou para um grupo formado por seis crianças, com idades dos 2 aos 7 anos, se topariam ir lá fora, ele foi um dos que topariam.

A Lígia Zago Camargo, 7 anos, chegou a dizer: “em qualquer lugar que você falar eu vou”. Lígia demonstrou que tem muita vontade de sair sozinha, sem os pais, e por isso toparia. Durante a conversa com a reportagem, em uma situação que ela percebesse maldade na pessoa adulta, ela beliscaria e chutaria. “Mas se for um homem bem grandão e forte?” “Daí é difícil, eu teria de bater mais e chutar muito mais”, respondeu. Sobre alguém oferecendo brinquedo, Lígia disse que pegaria e sairia correndo. No entanto ela não pensou que a pessoa poderia estar armada ou que alguém mais forte do que ela a dominaria facilmente.

Dizer “não”

A única criança que foi exceção e não cedeu à maioria das propostas da reportagem foi a Antonella Bellotti, de 5 anos. Antonella estava brincando no parque e a estratégia foi começar elogiando o que ela conseguia fazer. Depois de ter feito “amizade”, disse que tinha uma boneca para dar pra ela. Os olhos brilharam e a menina quis. Então expliquei que teríamos de ir lá fora buscar. “Prefiro que você vá buscar e traga aqui para mim”, respondeu. Em outro momento, ofereci uma bala, mas Antonella logo recusou. Veio então uma ideia para a terceira tentativa, e aí ela cedeu. Disse que tinha um parque também do outro lado e a chamei para brincar lá. A menina aceitou na hora, saiu correndo em direção ao outro lado, mas antes foi avisar a mãe e chamar para ir junto. Uma atitude segura!

Hoje a conversa é séria. E o assunto é segurança
Diante de um convite, Antonella consultou a mãe, que estava perto – Foto: Fábio Rogério

Todas as crianças entrevistadas disseram que os pais já tinham conversado com elas sobre esse assunto. “Pais e filhos devem falar sempre sobre esse tema”, orienta a psicóloga Ana Laura Schliemann, que faz um alerta: “Por mais que a gente pense que sabe tudo, a gente tem de reconhecer que não é assim. Não sabemos os riscos. A gente nunca sabe tudo e nem nunca vai saber tudo.”

Ana Laura lembra que uma pessoa maldosa nem sempre vai parecer má, ela pode parecer muito boa, muito amigável, ser bem legal e divertida a ponto de nos passar até mesmo uma sensação de confiança, mas de fato quem é essa pessoa?

Leve este jornal até o papai e a mamãe e converse com eles sobre isso! Tenha um ótimo domingo e não se esqueça: proteja-se.

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