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Uma verdadeira fábrica de construir sonhos

Depois de ser contemplado com bolsas de estudo, Pedro Navarro e sua mãe ajudam jovens com projeto
Uma verdadeira fábrica de construir sonhos
Ana Paula Cardoso ampliou o projeto do filho e inaugurou um Educandário, que ajuda vários alunos a conquistar ótimo desempenho. Crédito da foto: Fábio Rogério

“Minha vontade é estudar fora do país para ficar igual ao Pedro e ganhar muito dinheiro, para ajudar as pessoas que precisam e também a minha família. Isso me faria feliz.” Esse depoimento, de Pyetro Henrique Vieira dos Santos, 10 anos, faz referência a Pedro Henrique Cardoso Navarro, cuja trajetória de vida tem inspirado não apenas ele, mas muitas crianças e adolescentes da rede pública a fazerem planos ambiciosos.

Pedro está com 21 anos e o jornal Cruzeiro do Sul tem acompanhado seus passos nestes últimos cinco anos, desde que ganhou uma bolsa para estudar no exterior. Agora, por meio de uma iniciativa dele, que foi posteriormente abraçada e ampliada por sua mãe, Ana Paula Cardoso, a chance de um futuro melhor para estudantes de baixa renda está sendo espalhada por meio do Educandário e Instituto André Luiz.

Esse trabalho já começa a render frutos. Do ano passado para cá, 17 estudantes do Educandário conseguiram bolsas para escolas particulares, sem contar os outros que optaram por prestar vestibulinho para as Escolas Técnicas (Etecs). Na instituição são desenvolvidos dois projetos: Motivando o Futuro, que atualmente atende 40 jovens, e o Sementinhas, do qual participam 24 crianças, com idades de 8 a 11 anos. Os estudantes oriundos do Educandário que já alcançaram o objetivo de estudar em uma escola particular — mas podem ter dificuldade de adaptação no começo — também não ficam desamparados: recebem apoio, por meio do projeto Grude, que realiza aulas de reforço escolar. Ana Paula ainda observou que a necessidade esbarrava também nas crianças menores e criou a Casa Acolhedora Irmã Dulce, que em breve atenderá crianças de 4 a 7 anos.

Um incentivo que ganhou asas

Um incentivo que poderia ter ficado apenas na família de Pedro e Ana Paula se transformou num trabalho cujo objetivo maior é multiplicar sonhos. Tudo começou quando Pedro ainda estudava na rede pública. Conforme ele, não teria chance de ir para uma boa faculdade se não tivesse um ensino médio de qualidade. Quando estava no 9º ano, ele tentou bolsa de estudo para o ensino médio. Conseguiu em várias instituições, mas a principal delas foi obtida pelo programa Ismart. Pedro então foi parar no Uirapuru, com bolsa integral. Saiu de lá direto para a Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos. Atualmente, está no último ano da faculdade de Engenharia Química.

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O fato é que ter conseguido a bolsa para o ensino médio mudou muito a vida de Pedro. Ismart é uma instituição que distribui bolsas de estudos nos melhores colégios particulares, para jovens talentos de baixa renda. Além da mensalidade, o Ismart arca com custos de alimentação, uniforme, transporte e material didático. Ao concluírem o ensino médio, os bolsistas ainda podem ganhar bolsa-auxílio de um salário mínimo para cursar a faculdade, se aprovados nos vestibulares de excelência. Uma analista do Ismart, psicóloga ou pedagoga, dá suporte aos alunos e às famílias, ajudando os estudantes a se integrarem ao novo ambiente e a montar plano de estudos, por exemplo, acompanhando de perto o desenvolvimento deles.

Uma verdadeira fábrica de construir sonhos
Crianças e jovens têm, no Educandário e Instituto André Luiz, o apoio para crescer nos estudos. Crédito da foto: Fábio Rogério

Isso tudo fez Pedro pensar em como estava sendo privilegiado. Ele conta que um dia estava com um amigo, o Rafael Carlos Alves de Lima, que também foi contemplado pelo Ismart, conversando sobre o que teria faltado para os outros colegas da mesma escola, que não tiveram a mesma chance. Foi aí que decidiram fundar um projeto de incentivo a estudantes, o Motivando o Futuro, que começou em 2014. Os rapazes passaram a divulgar a realização das olimpíadas de português, ciências, entre outras; a incentivarem participação nos programas de verão das universidades dos Estados Unidos; passaram a fazer mentoria e a ajudar os estudantes a gostarem mais de educação. “Também proporcionamos a eles um aprendizado de modo mais prático. A gente se reunia com colegas para montar foguetes e ensinava conceitos de química e física disfarçados durante a montagem.”

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Em 2016, quando Pedro concluiu o ensino médio e foi fazer faculdade nos Estados Unidos, é que sua mãe, Ana Paula Cardoso, professora de português, resolveu dar continuidade, ampliando o trabalho. Surgiu assim o Educandário e Instituto André Luiz, mantido com a ajuda de voluntários — vale frisar que se trata de uma nova entidade, que não tem ligação com as Casas André Luiz.

O lema é oferecer ajuda para aqueles que querem ser ajudados

Ajudar quem quer ser ajudado, quem tem vontade de realizar altos voos na vida e só precisa de uma orientação. Esse é o principal objetivo de Ana Paula Cardoso com o Educandário. A instituição atua potencializando o ensino dos alunos da rede pública. “Sinto muito aliviada por poder agradecer a Deus pelo filho abençoado que me deu e agora estou levando aos outros aquilo que fiz por meu filho. Eu poderia me acomodar mas não, vamos levar essa oportunidade aos outros.”

Biancca Yokomizo Girardi, 14 anos, é uma das participantes do projeto Motivando o Futuro. Ela estuda no 9º ano de uma escola da rede estadual e se interessou em ir até o Educandário quando soube que ali seria oferecida uma oportunidade melhor de estudos. Não é tarefa fácil, porque ela sai da escola e já vai para a instituição, ou seja, passa o dia todo estudando. A ideia é fazer o ensino médio em uma escola particular e depois tentar uma universidade de excelência. “Quero ter uma boa formação para conseguir um bom emprego e estabilidade financeira”, disse ela, que pretende fazer Engenharia Ambiental ou Nutrição.

Para entrar no Educandário também não é simples. Tem processo seletivo e fica só quem quer estudar. “Também dependo que tenham boas notas na escola, disciplina, além de foco e objetivo na vida. Precisam querer ser alguém”, frisa Ana Paula.

Pedro afirma que sempre quis fazer algo pelas pessoas e conseguiu esse feito muito antes de se formar — aliás, antes mesmo de ir para a faculdade. “Não dá para comparar um aluno da escola pública, mesmo que seja estudioso, com quem estudou a vida inteira na particular. O ensino é defasado, mesmo se tivesse aula todo dia na escola, já não é igual”, afirma Pedro.

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O Educandário oferece aulas de Língua Portuguesa, Matemática, Química, Física, Biologia, Inglês, Espanhol e Xadrez, entre outras. A instituição tem sido muito procurada por pais e também coordenadores de escola. “Temos lista de espera”, afirma Ana Paula. Conforme ela, seus alunos estão indo para grandes escolas particulares de Sorocaba e este ano dois deles estão com bolsas do Ismart. Agora o sonho é, quem sabe, um dia ver um aluno do Educandário em Notre Dame, como Pedro. Aliás as oportunidades têm surgido para ele.

Durante as férias de verão nos Estados Unidos, que têm duração de três meses, Pedro aproveita para aprimorar seus conhecimentos e fazer estágios. Ele já trabalhou com a equipe do Todos pela Educação; na startup Go Epik; e na 3M, todas de grande projeção. Este ano o estágio será no banco Morgan Stanley.

Pedro ainda consegue um tempo para acompanhar o projeto em Sorocaba e ajudar no que for preciso. Ele se sente muito grato à mãe, pela continuidade e expansão do trabalho. “Minha mãe é incrível, a pessoa mais incrível que conheço. É muito proativa, mão na massa. Estou muito realizado, afinal não faz sentido você alcançar sucesso, felicidade e não levar para as pessoas. Vejo que o projeto não ficou só na ideia, ele é algo que funciona realmente, é muito legal. Espero poder ajudar a bancar isso no futuro.”

O Educandário e Instituto André Luiz fica na avenida Cecília Meireles, 256, Jardim Simus. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (15) 3346-8052 e 99789-6888 (Whatsapp). O site é www.educandarioeinstitutoandreluiz.org. (Daniela Jacinto)

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