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Robôs chegam para integrar as disciplinas

Robótica educacional usa a tecnologia para ensinar conteúdos e desenvolver competências, inclusive emocionais
Robôs chegam para integrar as disciplinas
A robótica aposta que os estudantes se tornem cidadãos desenvolvedores de tecnologia ao invés de apenas consumidores. Crédito da foto: Emidio Marques

Uma ferramenta que os estudantes gostam muito, em prol do ensino de coisas que, nem sempre, eles têm prazer em aprender. Esse é um dos conceitos que definem a aplicação da robótica na Educação. Muitas escolas, tanto da rede particular quanto pública, têm investido em oferecer aos seus alunos a possibilidade de aprender a planejar e construir robôs reais. A atividade promove o contato direto dos estudantes com conceitos relacionados às ciências, cálculos e sistemas. Porém, quem trabalha com a robótica educacional argumenta que os ganhos são muitos, desde o desenvolvimento de habilidades socioemocionais até características pessoais, como liderança e persistência.

“É muito mais interessante aprender um conteúdo no qual se veja significado”, define o diretor pedagógico da Viamaker Education, Marcos Pollo. A empresa esteve envolvida na organização do 5º Festival de Robótica, realizado no último final de semana, no Parque Tecnológico de Sorocaba, que reuniu milhares de estudantes com um objetivo comum: fazer com que seus robôs respondessem a desafios propostos com o tema Cidades do Futuro. E a animação dos participantes demonstrou o quando as crianças e adolescentes podem se sentir mais motivados diante da possibilidade de solução de problemas reais — e para os quais precisam aplicar seus conhecimentos técnicos, aprendidos com as disciplinas tradicionais, como a Matemática e a Física. “Para ensinar fração da forma tradicional, por exemplo, usamos como modelo um pedaço de pizza, de bolo. Mas dá para fazer isso associado à tecnologia, já que as engrenagens são conectadas umas às outras com dentes. O número de dentes diferente apresenta a relação de frações. Por isso, essa abordagem integrada fica muito mais interessante”, exemplifica Pollo. Ou seja, o aluno percebe que fração não existe, apenas, na divisão de formas geométricas. “Usamos a tecnologia como pano de fundo para ensinar as disciplinas. É muito mais que construir robôs. Há um significado para construir esse robô, que vem da proposta curricular, como no exemplo da fração.”

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Robôs chegam para integrar as disciplinas
Robôs desafiam os alunos a colocar em prática seus conhecimentos. Crédito da foto: Emidio Marques

Marcos Pollo conta que a robótica aplicada à educação surgiu no Brasil no início dos anos 2000, chegando inicialmente aos grandes centros, como São Paulo. No mundo, entretanto, o modelo já possui adeptos há cerca de 40 anos. “O ensino integrado de Ciências, Tecnologia, Matemática, Artes já faz parte do currículo de alguns países desde a década de 80, mas no Brasil demorou a chegar.”

Emocional

Quem trabalha com robótica educacional diz que, além dos ganhos do ponto de vista do ensino das capacidades técnicas, principalmente na área de Exatas — quando se exige, do aluno, que ele monte peças e faça uma programação para um robô — a metodologia também ajuda nas outras áreas do conhecimento. “Se pensarmos em Humanas, por exemplo, diante dos desafios, os alunos desenvolvem o pensamento crítico e a capacidade de argumentação para resolver um problema”, afirma Pollo.

Tudo isso porque — e principalmente — uma das características da robótica educacional é o trabalho em grupo. Na prática, os alunos são divididos em trios e cada um tem a sua função: líder, programador e construtor. Elas se alteram durante três semanas, num formato que exige trabalho em equipe, gestão do tempo, capacidade de resolução de problemas, dentre outras competências além do currículo. E no desenvolvimento do projeto surgem vários outros sentimentos e necessidades que precisam ser ajustados, como interação, liderança e frustração.

Profissionais do futuro

Robôs chegam para integrar as disciplinas
O 5º Festival de Robótica aconteceu no último final de semana, no Parque Tecnológico de Sorocaba. Crédito da foto: Emidio Marques

Mesmo o trabalho em equipe ajudando os estudantes no campo socioemocional, não há como negar que a grande competência desenvolvida é a tecnológica que, espera-se, gere resultados importantes, a médio e longo prazo, não só para cada aluno individualmente, mas até para o País. “Num mundo tecnológico, queremos que esses estudantes deixem de ser apenas consumidores de tecnologia para se tornarem desenvolvedores de tecnologias”, diz Pollo, para quem o impacto será realmente sentido a partir do momento em que a atual geração de estudantes, que hoje aprende as disciplinas tradicionais com a ajuda da robótica, esteja apta ao mercado de trabalho. “A educação transforma as pessoas, mas são essas que transformam o mundo onde a gente vive. Temos que formar uma geração de estudantes capacitados para essa realidade do século 21.”

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Alunos se dizem emocionados e realizados com solução dos desafios

“A gente se diverte, aprende muitas coisas, a programar. Aprendemos a trabalhar em equipe e é bem melhor.” Assim Maria Alice Martins Mendonça, de 11 anos, definiu sua participação no Festival de Robótica. Ela, que é aluna do colégio El Xadai, de São José dos Campos, esteve entre os competidores dos dois dias de evento. “Elas [as crianças] competem consigo próprias para fazer o seu melhor. O ambiente é de cooperação dentro da equipe e também é muito comum que as equipes se ajudem umas às outras”, conta Marcos Pollo, diretor pedagógico da Viamaker Education.
Questionados sobre sua experiência com a robótica, as crianças e jovens pontuam os mais diversos sentimentos e resultados. “A gente monta os robôs e faz muitas coisas com eles. Trabalhar em equipe me ajudou a perder a vergonha de falar com as outras pessoas”, confessou Pedro Henrique Ambrósio Pinhas, de 10 anos. “Quando eu crescer, vou ser engenheiro mecatrônico”, planeja Eduardo Fernandes Violim, de 9 anos. Outro que sonha com a profissão é Arthur Capeleto Martins, de 11 anos, que começou a ter contato com a robótica, na escola, aos 8 anos. “Eu cresci muito, estou bem melhor”, se avalia.

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Frederico Melo Gonçalves, de 10 anos, lembra de ter aprendido sobre o funcionamento dos pulmões humanos com a ajuda das pecinhas e motores. “Quando a gente aspira o ar, o pulmão abre e quando expira o pulmão fecha. Fizemos isso com o robô.”

Robôs chegam para integrar as disciplinas
Os estudantes colocam a mão na massa na hora de montar, mas as estratégias são definidas sempre em grupo. Crédito da foto: Emidio Marques

Já Isabela Ferreira, de 15 anos, se disse “feliz, nervosa e emocionada”. “Deu para aproveitar muita coisa, tive que fazer vários cálculos que tinha aprendido.” Outro que falou em emoção foi Diego Martins Silva, de 10 anos. Surdo bilateral profundo, portador de um implante coclear, ele estava no festival fazendo parte de um grupo competidor. “Eu acho a robótica uma coisa muito importante que criaram, porque graças a ela que eu consigo ouvir. A gente senta, conversa sobre o assunto, decide o que é melhor e, depois, começa a fazer”.

Além dos desafios, os estudantes também participaram de uma ação solidária que arrecadou mais de três toneladas de alimentos, que serão doados a cinco instituições da cidade: Casa do Menor, Educandário Bezerra de Menezes, Ação Comunitária Inhayba, Vila dos Velhinhos e Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci). (Regina Helena Santos)

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