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Alunos recorrem a professores em situações perigosas na internet

Segundo pesquisa, 40% dos docentes já tiveram que ajudar estudantes envolvidos com bullying, discriminação ou assédio
Docentes têm auxiliado alunos em casos relacionados ao uso da internet. Crédito da foto: Marcos Santos / USP Imagens

A pesquisa TIC Educação 2017, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), a nível nacional, apontou que, de 1.015 professores entrevistados em 957 em escolas públicas e particulares localizadas em áreas urbanas, 40% (ou seja, 406 deles) já tiveram de ajudar alunos a enfrentar situações desconfortáveis na internet, como bullying, discriminação, assédio e disseminação de imagens sem consentimento.

Esta foi a oitava edição do levantamento, realizado entre agosto e dezembro do ano passado nas cinco regiões do País, divulgado na semana passada e que apura uma série de questões de cunho educacional. O indicador relacionado à contribuição dos professores aos alunos no sentido de lidar com os problemas virtuais, porém, é uma novidade e foi tratado pela primeira vez.

O Cruzeiro do Sul entrou em contato com dois especialistas em educação para que comentassem a pesquisa. Ambos não se surpreendem com o número em questão. Maria Cecília Luiz, docente do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tem dedicado atenção à questão da violência escolar, uma possível extensão dos problemas enfrentados na internet.

Alunos recorrem a professores para se proteger
Maria Cecília dedica atenção à questão da violência escolar. Crédito da foto: Reprodução / Labi-UFSCAR

Diz que no curso de pedagogia da UFSCar há uma disciplina específica com o objetivo de esclarecer e analisar conceitos sobre violência, conflitos sociais e escolares, distinção entre violência e indisciplina escolar, incivilidades, bullying, entre outros tópicos. Ela acredita que nos dias atuais, não apenas nos cursos de pedagogia, mas em qualquer licenciatura, deveria haver, obrigatoriamente, matrizes curriculares que abordassem questões referentes ao bullying, violência, conflitos, discriminação, assédio e direitos humanos.

Para Leo Victorino da Silva, professor do componente “Educação e Tecnologia” na Universidade de Sorocaba (Uniso), é necessário estimular a responsabilidade no uso das tecnologias em sala de aula, com foco pedagógico. Mas, segundo ele, ainda há resistência, sobretudo por parte das escolas e professores. “Ainda há muito despreparo para lidar com as novidades”, afirma. “A inserção de tecnologias digitais no currículo das licenciaturas no Brasil começa a ser pensada a partir de maior acesso da população aos dispositivos digitais e ganha mais força quando estes dispositivos estão conectados à internet. No entanto, o que se desenvolve nesse sentido ainda são práticas muito discretas”, acrescenta.

Alunos recorrem a professores para se proteger
Leo Victorino defende responsabilidade no uso de tecnologias. Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Embora trabalhe com os alunos da graduação a possibilidade de haver pedidos de ajuda quanto às situações desconfortáveis, o docente aponta ser fundamental que a sociedade em geral tenha compreensão do tema. “A sociedade toda precisa compreender a responsabilidade de se inserir a tecnologia na vida das crianças e educá-las para o bom uso, pautado em respeito e ética”, declara.

A pesquisa TIC Educação 2017 na íntegra pode ser acessada aqui.

Família é primordial para a intervenção

A reportagem conversou, também, com duas professoras, de escolas particulares e públicas de Sorocaba, que já tiveram de viver na pele a experiência de ajudar os alunos com problemas desencadeados pela internet. Para ambas, que optaram por não se identificar devido à delicadeza do tema, há um aspecto primordial para combater esse tipo de situação: a atenção dos responsáveis e família com a finalidade que os estudantes atribuem à rede.

Em um dos casos, o problema central era o vício de um garoto de 10 anos em jogar on-line. Embora a dificuldade enfrentada não tivesse relação com bullying, discriminação, assédio ou alguma das ocorrências tratadas pela pesquisa, o apoio da educadora foi fundamental, já que o menino chegou a dizer que acabaria com a própria vida.

A professora, que é de uma escola particular, diz que tratava-se de “um aluno nota 10, muito inteligente”. Começou a perceber, porém, que o jovem passou a apresentar sinais de cansaço e apatia em sala de aula. “Então teve uma ocasião que sentei e perguntei o que estava acontecendo. Ele contou que ficava jogando na internet a madrugada inteira e praticamente vinha direto”, lembra. Ela, então, perguntou se os pais tinham conhecimento do hábito e descobriu que os dois trabalhavam em São Paulo. “Eles nem sabem se estou dormindo ou não”, teria dito o aluno.

O estopim do problema veio em classe. A criança não parava de chorar e, segundo a profissional, dizia: “Tia, eu cansei de viver, o que estou fazendo não é vida. Vou me matar, não consigo sair desse vício.”

De imediato, ela pediu a presença dos pais na escola. “Fiz um trabalho com esse menino, de dar uma atenção especial. Os pais precisam perceber esse tipo de comportamento. Se um professor que está convivendo cinco horas percebe, toma uma atitude, eles também precisam. Se eu não tomo essa atitude, perderíamos essa criança”, afirma. O caso foi há dois anos. Hoje, conforme o apurado na entrevista, ele está muito bem e diminuiu bastante o acesso aos jogos.

A mesma professora ajudou num caso de bullying sofrido por outro menino, da mesma idade. “Ele era muito grande e gordinho, falavam na internet que era ‘molenga’. Conseguimos descobrir porque a escola tem um programa em que os alunos conversam entre si, para trabalhos e tarefas. E aí fomos ajudando a extrair as qualidades dele. Ele começou natação, a mãe levou numa nutróloga. É claro que a magreza não significa que alguém é melhor. As crianças precisam perceber que temos várias ‘tribos’”, pontua.

A outra educadora ouvida contribuiu em diferentes tipos de “demandas”. “O professor auxilia em um processo que às vezes o aluno não tem um interlocutor em casa. Grande parte desses problemas seriam resolvidos se a gente pudesse escutar mais o outro. A gente perdeu muito isso com as conversas digitais, com o universo irreal que é o virtual”, argumenta. “Falta um pouco de colaboração dos pais”, conclui.

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