Zoo - Amar os animais é aprendizado de humanidade
Amar os animais é aprendizado de humanidade
João Guimarães Rosa é associado ao sertão mineiro, aos seus personagens singulares e, sobretudo, a uma literatura que parece reinventar a própria língua. Mas ele foi também um homem do mundo. Médico de formação e diplomata de carreira, viveu e viajou por diferentes países, carregando consigo uma curiosidade inesgotável pelas pessoas, pelas palavras, pelas culturas e, especialmente, pelos bichos.
O autor tinha verdadeira mania de animais. Em suas viagens, procurava conhecer os zoológicos das cidades por onde passava e levava consigo seu caderninho de anotações.
Observava tudo: movimentos, aparências e comportamentos. E fazia algo a mais, parecia tentar descobrir o que cada animal gostaria de dizer. Seu olhar não era o de um biólogo curioso, mas de alguém disposto a se espantar. Aí que Rosa me parece estar tão próximo das crianças.
As crianças tem o dom de olhar demoradamente para aquilo que nós, adultos, só percebemos com pressa. Um bicho minúsculo, um movimento estranho, um som esquisito ou um jeito de andar engraçado viram um acontecimento. Rosa tem essa mesma disponibilidade para se assombrar diante dos detalhes.
Seria injusto falar de "Zoo" apenas como uma obra de Guimarães Rosa. Roger Mello, o artista que também assina a obra é fundamental para aquilo que o livro se torna. Seu trabalho não é secundário, ele cria outra narrativa, fazendo do próprio objeto-livro parte da experiência de leitura.
Isso começa antes mesmo de abrirmos o livro. Na sobrecapa, encontramos um pequeno rinoceronte atravessado por listras. Quando ela é retirada, descobrimos que aquilo que parecia pertencer ao corpo do animal transforma-se nas grades de uma jaula. É uma pequena surpresa visual, mas também uma mudança de perspectiva: aquilo que acreditávamos estar vendo revela-se outra coisa.
Ao longo das páginas, as ilustrações continuam propondo descobertas. Recortes, aberturas, sobreposições, cores e imagens fazem com que o leitor tenha a sensação de atravessar espaços e espiar diferentes animais.
Sempre gosto de reafirmar: existe, às vezes, certo receio de oferecer os clássicos às crianças, como se fosse necessário esperar que crescessem para encontrar autores de grandeza. Talvez a questão não seja simplificar os clássicos para que caibam na infância, mas encontrar as portas pelas quais as crianças possam entrar neles. "Zoo" é uma dessas portas.
Aprender a reparar em uma vida diferente da nossa, maravilhar-se com ela e reconhecer que há ali algo que não conseguimos entender completamente é um exercício de sensibilidade.
"Zoo" é, um livro para ler com as mãos, com os olhos e com o espanto. Uma publicação da Global Editora.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras