A terra que nos firma no mundo

Por Cruzeiro do Sul

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Publicado pela Editora Ubu, “A manga da terra” apresenta às crianças uma das dimensões mais potentes do pensamento de Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo. Lavrador, escritor, pensador e importante liderança quilombola, Nego Bispo (1959-2023) construiu uma obra profundamente enraizada nos saberes ancestrais das comunidades quilombolas, defendendo uma relação de reciprocidade entre seres humanos e natureza. Seus ensinamentos ecoam a partir da perspectiva de quem aprendeu primeiro com a terra e com os mais velhos, antes de aprender com os livros.

Nego Bispo, em suas ideias, contraria a lógica da acumulação. Em um dos trechos, Mãe Joana o ensina que não se deve pescar além do necessário, pois “o melhor lugar para guardar o peixe é no rio”. A lição rompe com a ideia de exploração ilimitada dos recursos naturais e afirma que a abundância depende justamente da continuidade da vida. O peixe permanece no rio porque ali cresce, reproduz-se e garante a existência futura da comunidade. Não se trata apenas de preservar a natureza, mas de reconhecer que ela possui seus próprios ciclos e que os seres humanos fazem parte deles.

Outro episódio igualmente significativo é o da rapadura que cai no chão. Enquanto a reação imediata da criança é tentar recuperá-la, Mãe Joana explica que a rapadura também pertence à terra: será dissolvida pela chuva, alimentará as formigas e, assim, retornará ao solo.

Com esse fragmento do cotidiano se apresenta uma concepção muito diferente da que estamos acostumados: tudo circula, alimenta e transforma a vida. A natureza é uma grande rede de relações.

Nego Bispo também provoca uma reflexão sobre o “desenvolvimento”. Em vez de entender a palavra como algo positivo, ele sugere que, muitas vezes, “desenvolvimento” significa justamente o contrário de “envolvimento”. Quanto mais a sociedade moderna se desenvolve, mais parece romper seus vínculos com a terra, com os ciclos naturais e com a comunidade.

As ilustrações reforçam essa proposta ao dialogarem com a tradição visual das xilogravuras e da cultura popular, criando uma atmosfera que aproxima o leitor do universo narrado. O resultado é um livro que convida a conversa, para além de uma simples leitura.

“A manga da terra” nos propõe a aprender com a terra, agradecer aquilo que ela oferece e compreender que cuidar dela significa cuidar de nós mesmos.

Sempre que ouço ou leio Nego Bispo, tenho a impressão de que ele veio a esse mundo para nos convidar a reaprender a viver. Explicando, de um jeito muito simples, que a terra não é um objeto de exploração, mas nossa grande mestra e que talvez o verdadeiro desenvolvimento não esteja em produzir cada vez mais, mas em recuperar nosso envolvimento com a vida.

Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras