A mãe da mata

Por Cruzeiro do Sul

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Há imagens que atravessam culturas, tempos e territórios. A figura materna é uma delas. Associada ao cuidado, à proteção, ao acolhimento e à geração da vida, a maternidade constitui um dos símbolos mais poderosos da experiência humana. Na canção Todo Homem, de Zeca Veloso, encontramos versos que expressam essa dimensão universal da maternidade ao afirmar que “todo homem precisa de uma mãe”. A música nos lembra que, independentemente da idade, da condição social ou da trajetória de vida, todos carregamos marcas desse vínculo primordial, dessa experiência de sermos cuidados para que possamos existir. O livro “A mãe da mata”, de Maickson Serrão e Chico Santos, me lembrou essa música.

Na história somos convidados a olhar para a floresta amazônica e para uma de suas mais importantes entidades encantadas: a Curupira. Distante das versões mais folclorizadas, a obra apresenta a Curupira como um ser vivo na cosmologia de povos indígenas e comunidades ribeirinhas, uma presença que protege a floresta, seus habitantes e seus mistérios.

O texto de Maickson Serrão parte de um lugar de pertencimento e experiência. Nascido em Boim, na reserva extrativista Tapajós-Arapiuns, integrante do povo Tupinambá, o autor tem sua história profundamente ligada com os saberes da Amazônia.

As ilustrações de Chico Santos ampliam essa experiência. O artista constrói imagens que produzem puro encantamento. Seus desenhos evocam a força da floresta.

Ao perguntar quem cuida da própria floresta, o livro apresenta uma resposta poética e profundamente política: a floresta também tem mãe.

A Curupira surge, então, como símbolo de uma ética do cuidado que ultrapassa as fronteiras do humano. Em tempos marcados pela exploração desenfreada dos recursos naturais e pela transformação da natureza em mercadoria, a obra recupera uma compreensão relacional do mundo, na qual rios, árvores, animais, ventos e seres encantados participam de uma mesma comunidade de vida.

Mais do que contar uma história sobre a Curupira, o livro nos ensina a pedir licença antes de entrar na mata. Um gesto aparentemente simples carrega uma lição de humildade: reconhecer que não somos donos do mundo, mas parte dele. Uma publicação da Editora Caixote.

Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras