Nosso Lago

Por Cruzeiro do Sul

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Um menino retorna ao lago onde costumava nadar com o pai. O lugar, cheio de memórias felizes, agora é marcado pela ausência. O irmão mais velho o guia pela pedra de onde costumavam saltar. Acompanhado das lembranças, vem o medo que paralisa.

A história acontece no silêncio que antecede o salto. A subida íngreme, o brilho da água lá embaixo, o corpo que hesita. As imagens evocam lembranças que chegam sem aviso: algumas leves, outras doloridas. O irmão, pula na água primeiro, fazendo as vezes do pai que não está mais ali, como quem diz: pode vir, eu estou aqui. O menino permanece hesitante, até que lembra da risada do pai e das pequenas lições de coragem que ele deixou, mergulhando de uma vez.

Angie Kang conduz essa história como um ritual de passagem. O mergulho não é apenas um gesto físico, mas um atravessamento simbólico : uma despedida cheia de significado.

Falo aqui também como leitora profundamente tocada pelas ilustrações. Há nelas um valor artístico primoroso, que não apenas acompanha o texto, mas o amplia e o aprofunda. As pinceladas vibrantes, a composição cuidadosa e o uso expressivo da luz e da água criam imagens que pedem contemplação. São ilustrações que respiram, que dizem tanto quanto as palavras. Em muitos momentos, me peguei demorando nas páginas, deixando que as imagens falassem sozinhas.

Este é um livro que trata da ausência sem endurecer o coração do leitor. Ao contrário, mostra como aqueles que amamos continuam conosco, especialmente nos lugares que guardam nossas histórias. Uma obra sensível, potente e necessária, que confia na força da imagem, do silêncio e do afeto para falar de temas profundos com delicadeza e verdade. Uma publicação da Editora Pequena Zahar.

Vanessa Marconato Negrão, professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.