No colo, no chão em roda: leia
Na primeira infância, a imagem ocupa um lugar fundante na forma como as crianças percebem, interpretam e se relacionam com o mundo. Antes da palavra estruturada, é pelo olhar que o bebê estabelece vínculos, reconhece padrões, constrói hipóteses e produz sentidos. As imagens não apenas acompanham a narrativa, mas constituem uma linguagem em si mesmas, convocando a curiosidade, a imaginação e o pensamento simbólico. Livros imagéticos, especialmente destinados aos muito pequenos, oferecem experiências estéticas potentes, nas quais a leitura acontece no ritmo do corpo, do gesto, do olhar e da surpresa. É nesse território sensível que se insere “O mundo é um ovo”, do premiado autor e ilustrador Renato Moriconi, publicado na coleção Literatura de Colo pela Editora Jujuba. Com uma proposta lúdica baseada na brincadeira de adivinhação, o livro convida o leitor a observar atentamente cada imagem, formulando perguntas e expectativas a cada virada de página: seria aquilo um ovo ou não?
A simplicidade gráfica, aliada ao humor e à quebra de expectativa, instiga o pensamento visual e amplia as possibilidades interpretativas, valorizando a inteligência estética das crianças pequenas. Ao provocar o olhar e desafiar certezas, a obra reafirma o livro como espaço de encontro, fruição e invenção, mostrando que, na primeira infância, imaginar é também uma forma profunda de conhecer o mundo.
Dessa forma, ao apostar na força da imagem e na participação ativa do leitor, O mundo é um ovo rompe com uma lógica explicativa ou moralizante e se alinha a concepções contemporâneas de infância, que reconhecem o bebê e a criança pequena como sujeitos competentes, curiosos e capazes de sustentar hipóteses próprias. A leitura compartilhada do livro (no colo, no chão, em roda) transforma-se em uma experiência relacional, em que adultos e crianças constroem sentidos juntos, rindo, errando e se surpreendendo.
Assim, a obra de Renato Moriconi não apenas estimula a imaginação, mas também fortalece vínculos, escuta sensível e o prazer estético, reafirmando o livro imagético como um potente dispositivo de formação leitora desde os primeiros anos de vida.
Vanessa Marconato Negrão, professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.