Zé, o chimpanzé
Em “O que há depois de lá”, Alexandre Rampazo nos convida a acompanhar as descobertas de Zé, um filhote de chimpanzé curioso que encontra uma pequena chave e decide investigar para que serve. Zé explora cada canto, cutuca o teto, o chão, e, finalmente, encontra uma porta. O gesto de abri-la marca o início de um novo tempo: aquele em que a curiosidade e o desejo de crescer se transformam em autonomia.
A narrativa, delicada e simbólica, mostra o momento em que o pequeno começa a olhar para o mundo com seus próprios olhos, saindo — ainda que devagarinho — do colo da mãe para viver suas próprias experiências. Rampazo constrói uma história simples, mas significativa, que fala sobre o encantamento das primeiras descobertas e o caminho da independência, sem pressa e sem perda de ternura.
Enquanto lia, não pude deixar de lembrar do mito da caverna, contado por Platão, que fala de pessoas que viviam presas em uma caverna, vendo apenas sombras nas paredes e acreditando que aquilo era o mundo. Um dia, uma delas sai e descobre a luz, as cores, o verdadeiro tamanho da vida lá fora. Assim como nesse mito, o pequeno chimpanzé também decide ver o que existe “depois de lá” — e descobre, com coragem e curiosidade, que há sempre algo além daquilo que conhecemos.
Alexandre Rampazo, autor e ilustrador premiado, com mais de 80 menções em prêmios, distinções e selos, é reconhecido por tratar as crianças como leitores capazes, atentos e sensíveis. Em suas obras, ele não subestima a inteligência infantil: confia na potência do olhar das crianças, que compreendem muito mais do que os adultos imaginam.
Em “O que há depois de lá”, ele oferece uma metáfora singela sobre o crescimento, o desejo de descobrir o mundo e o encantamento de perceber que abrir portas — reais ou simbólicas — é sempre um convite a se transformar. Uma publicação da Editora Brinque Book.
Vanessa Marconato Negrão é professora e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras