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Casa e Acabamento

Pouco explorado, bambu tem amplas possibilidades na arquitetura

Arquiteto que cultiva o produto em Alumínio ressalta a característica sustentável da espécie
A Green School, de Bali, vale-se de recursos renováveis na construção de suas dependências e inspira projeto futuro na região. Foto: Divulgação

Ele pode ser pequenino ou gigante, com fibras resistentes ou brotos macios e possibilita uma infinidade de aplicações. O bambu pode ser utilizado em diversas áreas da construção, de forma eficiente e durável, em ambientes externos e internos. Atuando com utilidade similar a de madeiras, o bambu substitui espécies como eucalipto ou pinus, que impactam de forma negativa o meio ambiente quando utilizados em larga escala.

O uso do bambu para esses fins, mesmo que seja considerado sustentável, ainda é pouco aplicado no Brasil por falta de investimentos. “Se comparado às construções tradicionais, o maior trunfo (do bambu) é a contribuição ambiental, por sequestrar altas taxas de carbono. É também muito resistente, mas ainda pouco explorado”, aponta o arquiteto Gustavo Paula Gonçalves de Oliveira, 27, que reside em um sítio em Alumínio e cultiva mais de 20 espécies da planta pertencente à família das gramíneas. “É uma opção que deve ganhar mercado nos próximos anos por ser sustentável. Acredito que as gerações futuras, por bem ou por mal, terão essa preocupação com o meio ambiente e precisarão buscar alternativas de construção”, afirma.

Gustavo destaca que o bambu é bastante explorado na decoração, mas pode oferecer bem mais do que apenas beleza. Há a possibilidade de se aplicar a planta na estrutura das casas, construção de paredes e também na elaboração dos telhados. “Se a pessoa ainda quiser utilizar o concreto armado, pode inserir o bambu para substituir o aço, por exemplo”, afirma o arquiteto. Para ele, é incontestável que o uso do bambu é economicamente viável, contribui para as questões ambientais e até mesmo sociais — e isso é nítido a partir do momento que a sociedade começa a conhecer suas aplicações. “A China é um grande polo do bambu, assim como a Colômbia. Temos muito a aprender com esses países”, afirma.

O bambu pode ser usado para fins comerciais a partir do oitavo ano do plantio. Nos anos seguintes ele pode ser colhido anualmente, por período indeterminado. Esse é outro motivo que o coloca à frente do eucalipto, material com o qual é normalmente comparado e que leva 15 anos até que possa ser utilizado na construção civil. Essa constância com que o bambu pode ser colhido é um dos fatores que o tornam um importante agente socioeconômico, pois permite que os trabalhadores do campo tenham a garantia de trabalho por praticamente toda a vida.

O Brasil tem boa diversidade de espécies nativas: falta saber como aproveitá-las. Foto: Fábio Rogério

O Brasil é o país com maior diversidade de espécies nativas das Américas, sendo as mais utilizadas a Bambusa Tuldoides, a Bambusa Vulgaris e o Dendrocalamus Giganteus, que foram introduzidas nos ecossistemas locais. Em Alumínio, destaca Gustavo, há várias pequenas plantações, mas ainda há pouca aplicação. “As pessoas ainda enxergam o bambu apenas como a opção mais em conta para construir uma garagem, por exemplo, mas a planta tem um potencial muito maior e pode ser muito rentável.”

O bambu possui fibras de celulose longas e alinhadas que crescem verticalmente, sendo elas resistentes e flexíveis. Com uma estrutura tubular oca, a planta é bastante resistente e maleável, sendo bastante adequada para a construção civil. “Na Colômbia passaram a notar as qualidades do bambu após um terremoto. Apenas as casas mais simples, feitas de bambu, resistiram ao fenômeno. Já as casas convencionais, que são muito densas e sem flexibilidade, foram destruídas”, afirma. Essa planta, aponta Gustavo, é comparável ao aço na resistência à tração e ao concreto na compressão. “Variáveis como espécie, diâmetro, espessura de parede e idade de colheita também influenciam nas propriedades físicas das peças de bambu”, alerta o arquiteto.

Menina dos olhos

O contato de Gustavo com o bambu, conta, começou ainda na infância, quando vivia com a família em um sítio em Valinhos, na Região Metropolitana de Campinas. “Morei lá até os 15 anos e experimentava o bambu para diversas funções, cotidianas e rurais, fazendo cerca, galinheiros e depois, quando fui para a faculdade, vi que o uso do bambu é muito amplo.” Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (FAU), ele conta que durante o curso desenvolveu oficinas junto aos alunos e também estagiou no Bambu Carbono Zero. “É um material que sempre me encantou e busco especializações constantemente.”

Além da construção e decoração, o bambu também tem aplicações culinárias e cosméticas. Foto: Fábio Rogério

O arquiteto também viajou à Colômbia para fazer um curso de Gestão Internacional em Guadua Angustifolia, na cidade de Pereira. Em 2014, com o apoio do pai e da avó, Gustavo conta que a família embarcou na sua ideia de explorar o bambu e se mudou para a propriedade em Alumínio. “Aqui eu tento colocar em prática tudo que aprendi e faço os meus projetos.” Gustavo, além das mudas, têm bicicletas, óculos, canetas, vasos decorativos e vários outros objetos de bambu. Ele também trabalha em um jardim de infância ministrando aulas de educação ambiental, semanalmente, para 200 crianças. “Lá também desenvolvo alguns projetos e fiz alguns brinquedos com bambu.”

Palestra

Na semana passada, Gustavo participou também do ciclo de palestras gratuito sobre bambu realizado no Jardim Botânico “Irmãos Villas-Bôas”. O evento foi realizado pela Secretaria do Meio Ambiente, Parques e Jardins (Sema) de Sorocaba, em parceria com a Associação Brasileira de Bambu (BambuBR) e a Rede Paulista do Bambu (Rebasp).

Além de Gustavo, a botânica Cláudia Moreno Paro e a arquiteta Juliana Vicente Becker relataram suas experiências com bambu a um grupo de pessoas interessadas em aprender mais sobre o cultivo e aplicação da planta.

Arquiteto quer criar escola de capacitação

O arquiteto Gustavo Paula Gonçalves de Oliveira tem em seus planos o desenvolvimento de uma escola de capacitação em bambu. Atualmente a área que comportará a construção já está demarcada, cercada e com estudo topográfico finalizado.

Atualmente o arquiteto busca recursos para iniciar a construção da escola, que atenderá à comunidade local e também pessoas de outras cidades que se interessam pelo bambu. “É um projeto social e educacional. Tenho buscado as prefeituras da região e também a iniciativa privada para viabilizar essa escola, que terá vários cursos relacionados ao bambu e oferecerá toda a infraestrutura, como alojamento e refeitório aos alunos”, conta.

O arquiteto Gustavo de Oliveira e sua bicicleta com quadro de bambu: resistência e flexibilidade. Foto: Fábio Rogério

Além da aplicação na construção civil, Gustavo conta que pretende oferecer cursos que apresentem o bambu como possibilidade culinária e cosmética. “O broto é muito usado, assim como a farinha pode ser explorada, além do mercado cosmético, que fora do Brasil já é consolidado e ganha cada vez mais mercado”, afirma.

O projeto, segundo Gustavo, é baseado na Green School, em Bali. A escola foi criada pelo canadense John Hardy e sua esposa, a americana Cynthia Hardy. O projeto foi idealizado em 2006, mas só começou a funcionar oficialmente em setembro de 2008, com 100 alunos, desde o jardim da infância até o ensino médio completo.

No projeto da escola de Alumínio, conta Gustavo, os atendidos serão moradores do entorno, que podem fazer do bambu uma fonte de renda. “Cada curso atenderá aproximadamente 20 pessoas e aqui é uma região bastante carente, então o projeto com certeza apresentaria novas possibilidades para essas pessoas.” Toda a estrutura, conta, será de bambu e terra, com taipa e pau a pique. A planta também será usada no sistema de captação de água.

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