Casa e Acabamento

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo

Ele transforma madeira descartada, resíduos industriais e metal enferrujado em peças únicas
Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
Dimas e Maurício, pai e filho, gerações se encontrando numa vida em comum, repleta de criação. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Um ipê dos grandes, ao lado de uma pequena praça, impressiona quem passa pela rua Elias Lopes, na Vila Gomes, em Sorocaba. Mas, tão exuberante quanto a árvore, é o trabalho de um artesão e carpinteiro que mora e tem sua oficina em frente a esse ipê.

Funciona quase como uma fusão: a beleza da natureza se junta à da capacidade artística de Dimas Pires, 42 anos. O sorocabano gosta de definir a própria função como a de “transformar lixo em luxo”.

Ele reaproveita, entre outros itens, madeira, resíduos industriais e metal enferrujado, fazendo com que passem a ser peças únicas. “Eu tento não deixar morrer a história através do meu serviço”, resume.

O Casa e Acabamento esteve no local de trabalho de Pires nesta semana. No térreo da casa, ele e o filho mais velho, Maurício Samid, 19, têm espaço para cortar madeiras e guardar o que até então seria inservível.

No andar de cima acontece a mágica do “acabamento fino”, onde lixam e dão retoques finais às peças.

O local virou praticamente um ateliê no qual, nos fins de semana, conseguem até receber os amigos para fazer churrasco e tomar cerveja, com vista semelhante à de uma casa na árvore.

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
A magia do local faz par com a qualidade de seu trabalho — arte delicada, obras refinadas. Crédito da foto: Erick Pinheiro

O processo, baseado no conceito de economia circular, é descrito pelo artesão-carpinteiro com analogia: “Eu pego o material descartado, então, quando decido que vai virar arte, não posso parar no ‘meio termo’. Tenho que fazer ele ser o melhor possível. Assim é com o ouro: quando você retira o ouro do garimpo, ele é uma pepita que não tem uma grande beleza. Às vezes, é até pó. Mas, na mão do joalheiro, certamente se torna algo belo”, diz.

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Quando a reportagem visitou o ateliê de Pires, o profissional gravava um comercial para a multinacional de ferramentas Starret, que o patrocina com os produtos. “Considero como um reconhecimento do meu trabalho”, afirma ele, que deve protagonizar um canal no Youtube em breve.

Até chegar ao reconhecimento, porém, a jornada foi longa. Tudo começou há 19 anos: assistindo a um reality show, o sorocabano observou uma rede feita de bambu e decidiu reproduzi-la em série. O sucesso, então, foi alavancado quando pendurou as redes no ipê ao lado da casa. “Ali começou o projeto com sustentabilidade”, recorda.

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
A oficina/ateliê de Dimas fica sobre sua casa, encostada num lindo ipê. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Características

Devido às características das peças criadas, Pires afirma que, mesmo sem necessariamente haver uma assinatura gravada no que produz, muita gente reconhece e o aponta como responsável pelas obras.

“As pessoas dizem: ‘não foi o Dimas quem fez?’ Isso graças à linhagem, identificação que eu trago às peças. Assim como o artista cria um personagem, eu crio a minha linha de trabalho, com as formas que decido usar, como o lapidado, o arredondado”, explica.

Como às vezes é informado pela Prefeitura quando há queda de árvores, o artesão-carpinteiro oferece contrapartidas: espalha bancos de autoria dele por pontos da cidade, como no Jardim Botânico, Chalé Francês e Parque dos Espanhóis.

Além dos bancos, Pires tem produzido mesas e tábuas de carne (em geral, os produtos variam entre R$ 150 e R$ 7 mil). E, mais recentemente, o sorocabano tem participado de projetos arquitetônicos, projetando e constituindo ambientes e espaços semelhantes ao do próprio ateliê, com o estilo variando do retrô às pitadas de modernidade.

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Foi ele, por exemplo, o responsável por pensar o novo espaço do Lucky Friends, um estabelecimento que alia barbearia, estúdio de tatuagem e loja de roupas, na Vila Independência.

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
Mesas, banquinhos, mesas com fogareiro, porta-garrafas, apoio para copos, tábuas para churrasco – o artesão aproveita cada pedaço de madeira ou metal e transforma o que seria jogado fora em utilidades, belas utilidades. Crédito da foto: Erick Pinheiro

No início da entrevista, o artesão-carpinteiro definiu a própria atuação de forma peculiar. “Meu trabalho é mais ou menos assim: é como você pegar uma peça dentro de um chiqueiro de porco, dentro de um galinheiro e colocar dentro de uma mansão, em um piso de porcelanato. Esse momento é o mais mágico que um artista pode querer ter. Você tem consciência e pode dizer: ‘isso aqui eu peguei no bolsão de inertes, cara, e olha onde eu estou colocando’. Isso é verdadeiramente ir do lixo ao luxo. A ‘grana’ é necessária, claro, a gente não vive sem isso, mas o gratificante é a sensação de onde o trabalho pode chegar.”

O trabalho de Dimas pode ser visto no Instagram (@dimaspiressobrinho).

A arte do pai no sangue do filho

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
Crédito da foto: Erick Pinheiro

Enquanto o pai gravava o comercial, Maurício, o filho, apresentava os detalhes da oficina e dizia ter orgulho do caminho trilhado por Dimas. E, no que depender do jovem de 19 anos, a arte e a carpintaria vão continuar correndo no sangue da família. Ele já trabalha há dois anos com o pai.

“Na verdade, já fico de olho desde criança, então pude aprender muita coisa. O dom que nasceu com ele se tornou aprendizado para mim. É claro que não tenho o mesmo nível, mas se chegar a ser um pouco do que ele é, já está bom”, comenta o rapaz, humildemente.

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Ao mostrar o espaço, Maurício, embora cheio de modéstia, demonstra ser entendedor, especialmente quando descreve os detalhes do banheiro projetado e criado junto do pai.

“A gente usou cimento queimado com detalhes de madeira rústica e uma cuba para ficar mais clean”. “Você já imaginou isso? O cimento queimado era a coisa mais pobre que existia. Hoje, é a coisa mais nobre na arquitetura. Antigamente, nas casas pobres, as pessoas não tinham condições e colocavam assoalho de peroba rosa com o cimento queimado. Hoje, isso é ostentação”, emenda o pai.

Dimas Pires, o artesão que faz do lixo, um luxo
Crédito da foto: Erick Pinheiro

Apesar do interesse do filho, Dimas deixa o jovem livre para seguir a própria trajetória. “Eu penso assim: ele não precisa ser como eu sou, mas é claro que a gente sabe que às vezes os pais são espelho para os filhos. E a vontade que ele tem de aprender a fazer, isso é fantástico”, declara.

“Eu sempre digo, a carpintaria é uma carreira difícil, viver de arte não é fácil, tem que matar um leão por dia para conquistar o espaço. Você precisa fazer de tudo: garimpar, lixar, vender. Mas ele vem aprendendo um pouco de cada coisa, então acredito que já é uma semente do conhecimento”, acrescenta. (Esdras Felipe Pereira)

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