Casa e Acabamento

A volta das construções com terra

Modernizadas, a taipa, o pau a pique e o adobe conquistam seguidores e têm na sustentabilidade um de seus trunfos
A volta das construções com terra
Quando bem aplicada, a técnica da taipa, apesar de rudimentar, é capaz de conferir um aspecto inovador ao ambiente. Crédito da foto: Divulgação / Tailpal

Um método rudimentar, com utilidades cada vez mais necessárias e atuais. A arquitetura e a construção com terra têm uma longa história e essa técnica tão antiga vem conquistando ares contemporâneos utilizando tecnologias modernas. Além de sustentável, os chamados sistemas construtivos com terra crua também ganham em eficiência térmica e universalidade, uma vez que são compatíveis com grande parte das obras.

A volta das construções com terra
O arquiteto Marcio vieira Hoffmann especializou-se nesse tipo de construção. Erick Pinheiro

Marcio Vieira Hoffmann é arquiteto e especialista em construções com terra e destaca que o principal benefício proporcionado pelo uso desse material é que ele é totalmente reversível, ou seja, pode voltar ao seu estado natural. “A taipa, o pau a pique e o adobe são as únicas técnicas construtivas que, caso a pessoa queira depois derrubar essa parede, ela terá somente terra novamente”, aponta o arquiteto, que há 15 anos é sócio de uma empresa especializada em construções em terra.

A volta das construções com terra
O pau a pique proporciona beleza e personalidade, além de durabilidade (elimina rachaduras e trincas), a uma casa. Divulgação / Roberto Migotto

Tanto a taipa quanto o pau a pique, defende Hoffmann, permitem ainda menor custo com logística, pois somente a terra é transportada até o local da construção. Já o adobe — tijolo feito com terra crua, água, palha e fibras naturais (como esterco de gado) moldados artesanalmente em formas e cozidos ao sol — embora seja considerado um artigo ecológico, pode gerar mais desperdício, por ser um bloco de tamanhos convencionais, o que demanda cortes.

Leia mais  Treliças em telhados ganham viés estético
A volta das construções com terra
O uso dessas técnicas rudimentares só não são muito indicadas para áreas úmidas, como os banheiros. Divulgação / Taipal

Construções em terra também trazem como benefício o menor consumo de energia e de água. O arquiteto também destaca que as construções em terra crua resultam em paredes tão duráveis quanto às de concreto. Monumentos construídos em taipa ou pau a pique, em diferentes momentos históricos, resistem bravamente ao tempo em todos os continentes. “As casas dos bandeirantes eram de taipa, os prédios históricos são, em sua maioria, em taipa. Já o concreto é algo mais novo, que ainda não temos como saber qual a sua capacidade de resistir ao tempo”, afirma Hoffmann.

No que diz respeito à arquitetura, Hoffmann chama atenção para a beleza e personalidade que a técnica proporciona a uma casa, desde que bem aplicada. A técnica de taipa bem aplicada também exclui rachaduras ou trincas, visto que a compactação oferece baixa retração às paredes, deixando-as mais sólidas e nada impermeáveis.

A volta das construções com terra
As técnicas construtivas com terra combinam bem com decoração rústica, mas também, moderna. Divulgação / Roberto Migotto

Pioneiro no que chama de taipa contemporânea, Hoffmann conta que buscou unir ao sistema construtivo, popular em zonas rurais, tecnologias para agregar mais qualidade às paredes de terra. “Nós utilizamos todas as técnicas em busca de alto desempenho a favor do meio ambiente”, afirma. A matéria-prima natural, a terra, conta, passa por uma seleção no laboratório de solos da Universidade de São Paulo (USP) e todas as etapas são monitoradas para garantir a essência e a qualidade do produto.

Leia mais  Cuidados com os pets na decoração

Outra vantagem para o uso da taipa, revela o arquiteto, é a salubridade que ela dá ao ambiente, por ser um sistema construtivo que permite trocas gasosas entre a parede e os ambientes da casa, mantendo a umidade relativa do ar e evitando, de maneira natural, fungos e bactérias.

A volta das construções com terra
O uso de terra crua nas construções podem ser tanto em paredes estruturais quanto decorativas. Divulgação / Taipal

No entanto, Hoffmann não recomenda o material para ambientes que recebem muita umidade, como banheiros. “É um material incrível para fazer paredes externas, por conta da resistência da terra. As chuvas, que são esporádicas, não afetam a qualidade, diferente da umidade do banheiro, por exemplo, que é contínua.”

Originalmente muito artesanais, a taipa e o pau a pique, para serem inseridos em grande escala nas construções modernas, passaram por modernização em seus processos. Hoffmann conta que mecanismos tecnológicos precisaram ser implantados para aumentar a qualidade desses métodos.

Leia mais  Estrutura para telhado: aço ou madeira?
A volta das construções com terra
Os sistemas passaram por modernização em seus processos de produção. Divulgação / Taipal

Em sua empresa, o arquiteto explica que desenvolveu misturadores planetários próprios para a homogeneização e mistura do solo, enquanto a compressão do barro é feita com compactadores pneumáticos capazes de produzir maior quantidade de paredes.

O que são?

Taipa – Processo de construção de paredes que utiliza barro amassado para preencher os espaços criados por uma espécie de gradeamento, que pode ser de paus, varas, bambus, caules de arbustos, etc.
Pau a pique – Também conhecido como “taipa de mão”, conforme a região, é uma técnica construtiva que consiste no entrelaçamento de madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais (geralmente de bambu amarradas entre si por cipós), dando origem a um painel perfurado que, após preenchido com barro, transforma-se em uma parede.
Adobe – Trata-se de tijolo grande de argila, seco ou cozido ao sol, às vezes acrescido de palha ou capim, para torná-lo mais resistente. É considerado um antecessor histórico do tijolo cerâmico.  (Larissa Pessoa)
Comentários

CLASSICRUZEIRO