Sorocaba e Região

Tradição e memória na zona leste da cidade

Barcelona e Parada do Alto cresceram, mas ainda abrigam moradores que vivem no local há décadas
Tradição e memória na zona leste da cidade
Na Parada do Alto as casas foram construídas bem próximas à linha férrea. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

Dois bairros de Sorocaba, o Barcelona e a Parada do Alto, têm mais coisas em comum do que o fato de serem vizinhos: ambos são atravessados pela antiga Estrada de Ferro Elétrica Votorantim, possuem limites com a rodovia Raposo Tavares, têm a imigração espanhola nas bases de suas origens e desenvolvimento e ainda estão muito próximos do município vizinho de Votorantim.

Também têm em comum o fato de serem habitados por uma maioria de moradores antigos. Muitos se conhecem. Muitos guardam a memória de tempos passados. Há histórias de pessoas que cresceram economicamente com o bairro. A existência de unidades de saúde, educação e outras ofertas de serviços, todas próximas dos moradores, fazem desses bairros boas opções para viver e envelhecer, criar filhos e netos, se relacionar com amigos, vizinhos, visitantes. E apesar dos tempos modernos que impõem a movimentação do trânsito e cuidados com a segurança, praças e ruas ainda apresentam características de cidades do interior, pessoas que se cumprimentam e curtem a vida que se arrasta lentamente.

Na Parada do Alto, saudades é das cadeiras postas na calçada

Tradição e memória na zona leste da cidade
Pedro Larrubia recorda os tempos antigos. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

Atento ao movimento de clientes na padaria, o comerciante Pedro Luís Larrubia, de 44 anos, às vezes pergunta ao visitante: “Só o pãozinho mesmo?” A padaria fica no centro do bairro Parado do Alto. Com base nas suas recordações da infância, vivida no lugar, ele conclui que do ponto de vista comercial pouca coisa mudou. Mas outras transformações aconteceram. Quando caía a noite, por exemplo, era comum vizinhos conversarem nas calçadas em frente às suas casas: “Hoje, às 8h da noite o bairro parece madrugada.”

 

“Antigamente tinha gente na rua até à noite, puxavam as cadeiras, punham na rua para bater papo com o vizinho”, descreve Larrubia. Ele também recorda de um grande tapete do interior da casa onde morava e que era retirado à noite para a calçada: “Ficavam sete, oito crianças no tapete, batendo papo, jogando figurinhas, jogando bola, brincando.” Ele admite que o tempo passou e ficou a saudade.

“Aqui tem poucas casas de aluguel, a maioria são proprietários, moradores antigos”, diz o aposentado Darci Pauletti, de 68 anos. Morador do bairro há 42 anos, gosta do lugar porque todas as necessidades são atendidas e estão próximas: “Posto de saúde, padaria, farmácia, supermercado, linhas de ônibus.” Ele também acha que o bairro não tem para onde crescer, por causa da limitação imposta pela linha férrea.

Como acontece com o bairro vizinho do Barcelona, a Parada do Alto também flerta com a história representada pela Estrada de Ferro Elétrica Votorantim e a rodovia Raposo Tavares. O legado da colonização espanhola também deixou registros no bairro, notadamente em nomes de famílias e de vias públicas como as ruas Buenos Aires, Venezuela, Guiana, Havana, Andes.

Tradição e memória na zona leste da cidade
A antiga fábrica das indústrias Barbero chegou a empregar mais de dois mil operários. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

Outro marco histórico do bairro é a antiga fábrica das indústrias Barbero, que alcançaram prestígio e destaque na produção de linho. A fábrica tinha uma marca própria e famosa, a Teba, representada por uma rede de distribuição que alcançava a maioria dos Estados brasileiros e conquistou grandes nichos de mercado. Em 1966, as indústrias Barbero empregavam mais de dois mil operários em Sorocaba, segundo relata a monografia do pesquisador Emerson Ribeiro.

Quem circula pelas ruas da Parada do Alto percebe outra característica: a de que o bairro, ao mesmo tempo em que atrai a atenção pelos aspectos de urbanização com vias asfaltadas e movimento de veículos, ainda preserva a identidade de lugar do interior. Há clima de sossego, muita gente se conhece e a vida se arrasta lentamente.

 

O Morro do Garrido, ponto de topografia alta do bairro, é outro local icônico. É onde por muito anos foi encenada a apresentação da Paixão de Cristo, durante a Semana Santa. Neste ano, após um período de mudanças no roteiro da apresentação, ela voltou a tem o local como cenário.

Barcelona nasceu como povoado ao lado dos trilhos do trem

Assim como as ruas São Bento e 15 de Novembro marcam o centro histórico do coração de Sorocaba, a avenida Paraguai é o principal eixo viário da Vila Barcelona, bairro originado da imigração espanhola e que cresceu sob o signo de dois caminhos: a antiga Estrada de Ferro Elétrica Votorantim e a rodovia Raposo Tavares. O próprio nome do bairro é referência da chegada dos espanhóis em Sorocaba há mais de cem anos. O bairro antigo e cheio de histórias cresceu e ganhou vida própria e perfil com oferta de comércio e serviços. À nostalgia dos moradores, que recordam os tempos em que se habituaram ao apito do trem na linha férrea, somam-se histórias de empresários que se transformaram e cresceram com o bairro.

Tradição e memória na zona leste da cidade
Cido vive no local há 40 anos. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

O comerciante Aparecido Donizete Gouvêa, o Cido, de 54 anos, mora no Barcelona há 40 anos e há 29 anos tem comércio de autopeças na avenida Paraguai. “Éramos eu, minha esposa e meu pai quando começamos, há 29 anos, hoje temos 85 colaboradores”, compara Cido. Ele mostra um painel com fotos que ilustram a evolução do seu negócio, com as obras que ampliaram os metros quadrados de área construída: “Em 1991 a loja tinha 20 metros quadrados e hoje estamos com mais de três mil metros quadrados.” A ampliação culminou com a inauguração de uma filial e uma segunda entrará em operação em breve. A loja opera também no e-comerce e, por meio da internet, estende o atendimento a outros Estados e a países da América Latina.

“A gente tem muito a agradecer a esta região leste da cidade”, reconhece Cido. Ele elenca a proximidade com a Raposo Tavares como outro ponto positivo: “Temos muitos clientes de toda a região de Sorocaba, fica fácil o acesso, o pessoal vem todo pra cá.” Além de clientes de Sorocaba, ele recebe público de Angatuba, Piedade, São Roque, Ibiúna, entre outras cidades. Para Cido e sua família, o Barcelona é um bairro próspero.

Outros pontos de vista

Tradição e memória na zona leste da cidade
Avenida Paraguai: principal via do Barcelona, que abriga comércios e também residências. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

Para outros, os pontos de vista são divergentes. O comerciante João Sanches Neto, de 66 anos, de um bar da avenida Paraguai, acha que o bairro tem se estabilizado em seu desenvolvimento, ao ponto de não enxergar mudanças nos últimos anos. E isso também é bom, na sua visão, porque mantém o controle de incômodos urbanos, como o trânsito.

 

Já para o morador Lori Moisés, de 70 anos, o trânsito no bairro já é motivo de preocupação, principalmente se comparar a situação atual com a de 54 anos atrás, quando chegou ao lugar: “Antigamente era melhor, era pouco movimento, é muito carro agora.” Ele recorda que há cinco décadas, na área atualmente ocupada pelo Esporte Clube Canto do Rio, não havia nenhuma edificação: “Aqui não era nada, era uma área de mato”, ele diz. E lembra que o bairro começou a se formar com um pequeno povoado junto à linha de ferro da Votorantim.

Em contraste com a importância da linha férrea para a construção da identidade do bairro, o trecho da antiga passagem de nível localizado na rua Marquês de Itu é alvo de reclamação de moradores e comerciantes. Durante o dia e à noite, o local atrai a presença de pessoas rotuladas como “nóias” e “pingaiadas”. A balconista de um comércio, preferindo não se identificar, disse: “Os que vivem aí nem são o problema, porque não mexem com ninguém, mas os grupos atraem estranhos e estes são os que geram preocupação.” Nesse trecho, além dos carros, também transitam pedestres.

Marcos de identidade

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A antiga Estrada de Ferro Elétrica Votorantim delimita o bairro. Crédito da foto: Fábio Rogério (17/8/2019)

O Esporte Clube Canto do Rio e o Atlético Clube Barcelona também são destaques na identidade do bairro.

O Barcelona, com o campo do Estádio Eusébio Moreno, foi fundado em 15 de novembro de 1951, e o Canto do Rio, com o Estádio Bráulio Garcia Clemente, tem como data de fundação o 1º de maio de 1955. Nos fins de semana, a realização de jogos nos dois clubes aumenta o movimento de pessoas nas vias de acesso, a avenida Paraguai e a rua Chile.

Lojas de autopeças e ferros-velhos, oficinas mecânicas, lanchonetes, um grande supermercado, microempresas de outras categorias, marcam a atividade econômica do bairro. A mão de obra é tanto local como tem origem em outras regiões da cidade.

 

O Barcelona também já foi tema de estudo acadêmico em 2006. De autoria de Emerson Ribeiro, a monografia “Caminhos e descaminhos: a ferrovia e a rodovia no bairro Barcelona em Sorocaba”, foi escrita no âmbito do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP). O estudo, que teve como orientadora a doutora Glória da Anunciação Alves, faz um levantamento histórico, econômico e social do bairro de forma abrangente e conectada com o desenvolvimento de Sorocaba. O trabalho pode ser acessado pela internet. (Carlos Araújo)

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