Covid-19 Sorocaba e Região

Sorocabanos autônomos relatam preocupação com a renda

Queda na demanda durante a quarentena decretada por conta do novo coronavírus ameaça poder de compra de profissionais
Empreender é opção ao desemprego
Um dos serviços afetados é de salões de cabeleireiro. Crédito da foto: Luiz Setti / Arquivo JCS (27/1/2016)

No Brasil mais de 38 milhões de brasileiros trabalham na informalidade, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em setembro de 2019. Em Sorocaba, embora não existam estatísticas oficiais, o trabalho independente é a realidade de muitos, que com a pandemia do novo coronavírus demonstram preocupação na missão de garantir a renda.

A cabeleireira Juliana de Oliveira é um exemplo disso. Tendo o sustento dela e da filha de três anos tirado integralmente do salão de beleza em que trabalha junto a cinco outras profissionais, Juliana conta que sentiu o movimento cair na última semana, antes mesmo da quarentena estadual obrigatória ter sido anunciada pelo governador.

A profissional contava com o mês de março como um dos mais movimentados para o segmento. “Aqui nós trabalhamos muito com maquiagem e penteado, e este final de mês seria o período em que aconteceriam muitas formaturas, mas todas foram canceladas”.

Sobre a preocupação com a renda tirada do salão, ela comenta o fato do mundo ter parado diante da crise do novo coronavírus. “Nosso problema é que os boletos não param e o aluguel, inclusive do salão, precisa ser pago”, desabafa.

“Eu já fiquei bem desesperada, mas a única coisa que posso fazer no momento é deixar os boletos de lado e manter o dinheiro que tenho para sobreviver. Vão ter contas que vão atrasar, mas a gente espera que os cobradores entendam”, afirma a cabeleireira.

A cabeleireira Juliana de Oliveira trabalha em um salão com outras cinco profissionais. Crédito da foto: Reprodução / Instagram

Já o professor de educação física André Felipe, que atua como personal trainer, explica que no período de isolamento está desenvolvendo videoaulas para que seus alunos continuem treinando sem sair de casa, mas que o que realmente o preocupa é o momento pós-pandemia.

“A maioria das pessoas que contrata meu serviço são proprietários de algo e com a crise geral que vem se aproximando essas pessoas também vão deixar de receber. Isso me afeta até mesmo no pós, porque a primeira coisa que as pessoas cortam é o personal trainer. Até elas se restabelecerem minha demanda de trabalho não será a mesma”, diz.

O personal trainer André Felipe continua os atendimentos através de videoaulas. Crédito da foto: Acervo pessoal (25/03/20)

Diferente de Juliana e André, o motorista de aplicativo Welington da Silva continua trabalhando para sustentar sua família, que permanece em isolamento domiciliar, mas conta que está tomando medidas de segurança como o uso de máscara, higiene do veículo e o uso constante de álcool em gel.

“Sou o único que saio para trabalhar, fazer compras e cumprir outras demandas necessárias na rua, mas sempre tomando todos os cuidados”, reafirma.

Welington diz que está transportando pessoas em idas ao mercado, ao trabalho e até mesmo ao hospital, mas que seu faturamento teve queda de 50% e ele acredita que nem nem mesmo a suspensão do transporte coletivo em Sorocaba será suficiente para ajudá-lo a garantir a renda. “Em contrapartida houve o fechamento do comércio, que conta muito”.

O motorista de aplicativo Welington da Silva continua trabalhando, mas está tomando medidas de segurança. Crédito da foto: Acervo Pessoal

Medidas tomadas pelo governo

Buscando amparar trabalhadores como Juliana, André e Welington, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou em entrevista coletiva, no dia 18 deste mês, medidas assistências para trabalhadores informais. Dentre elas, a criação de um benefício de R$200 que será liberado durante três meses para ajudar a complementar a renda daqueles que não possuem carteira assinada.

O professor de economia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) José Eduardo Roselino avalia que as medidas anunciadas pelo governo são positivas, mas insuficientes para conter uma crise econômica.

“As medidas apontam para uma direção certa, inclusive porque elas representam uma mudança de postura, talvez até um pouco tardia, dos governantes, mas a transferência de recursos de R$ 200 é insuficiente. Há quem proponha que se deva garantir, neste momento emergencial, uma proposta mais ousada de um salário mínimo, como está no Cadastro Único”, afirma.

Roselino usa como exemplos países europeus que suspenderam o pagamento de serviços públicos como água, luz e alguns aluguéis e afirma que eles estão apresentando medidas mais corajosas e enfáticas, e que o Brasil precisa seguir pelo mesmo caminho.

“É crucial neste momento que se preserve o poder de compra das famílias, que é o que o mundo inteiro está fazendo, inclusive os Estados Unidos. Preservar o emprego e a renda das famílias”, conclui.

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