Sorocaba e Região

Sebos de Sorocaba resistem ao tempo e às novidades

São poucos os comércios de livros usados que ainda se mantêm na cidade. Estes, porém, têm clientela cativa
Sebos resistem ao tempo e às novidades
Sebo próximo ao Fórum Velho, no Centro, é um dos mais tradicionais de Sorocaba. Crédito da foto: Emidio Marques

Tímido, ele resiste à vontade do fotógrafo Emídio Marques em retratá-lo. Quando se convence, escolhe aleatoriamente um dos livros dispostos nas quatro estantes do espaço acanhado de 24 metros quadrados. E, coincidentemente, a publicação que vem às mãos de José Topan, de 72 anos, é “O guardião de memórias”, de Kim Edwards, um best seller lançado em 2005 e que por muito tempo esteve em primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times. Topan, desde 2000, toma conta do que provavelmente seja o sebo mais tradicional de Sorocaba ainda em funcionamento, em um imóvel verde à esquerda do Fórum Velho, no Centro. Ele, portanto, tornou-se um verdadeiro guardião de memórias em um nicho de mercado cada vez mais difícil de ser mantido.

Sebos resistem ao tempo e às novidades
José Topan conta que hoje é difícil obter lucro com o negócio. Crédito da foto: Emidio Marques

O olhar desconfiado se esconde atrás das lentes quadradas e largas. Mesmo resistente às fotografias, o sorriso vem fácil a partir do momento que as aceita. Topan é daqueles personagens caricatos e, certamente, bastante pragmáticos. Uma das provas é a maneira como organiza os negócios: cola uma infinidade de papéis com nomes de clientes e telefones na única parede não tomada pelas estantes que comportam mais de dez mil livros. “É muito mais fácil do que colocar no celular”, diz ele, aparentemente avesso à tecnologia. O tempo, é verdade, não tem sido dos mais generosos com os “sobreviventes” que mantêm sebos. Experiente no ramo, ele lembra de quando era possível arrecadar mais de R$ 15 mil em um mês. “Mas agora só dá para manter o valor do aluguel praticamente. Se sobra, não sobra muito”, admite.

Apesar das dificuldades para continuar de portas abertas, Topan tem clientes fiéis. Na terça-feira em que a reportagem esteve no sebo, havia entra e sai de pessoas, o que até deixava complicado o prosseguimento da conversa com o mantenedor do espaço. “Pode colocar aí que ele é um ótimo homem, que sabe como fazer negócios. É um amigo agora”, disse um homem rapidamente antes de ir embora. O elogio foi ratificado pela aposentada Lucia Nanias Pezzatto, 65, e pela filha Luciana Thais Pezzatto, 32. Thais aproveitava o dia de folga e vinha do Wanel Ville para visitar o sebo. “A gente vem sempre aqui, mesmo não sendo perto de casa. Criei o hábito por causa da minha mãe”, falava.

Atualmente, Topan se esforça para abrir o espaço todos os dias, mas nem sempre é possível. Ele tem enfrentado alguns problemas de saúde e, vez ou outra, não consegue trabalhar. “Faz falta quando está fechado. Quando isso acontece, as pessoas lamentam”, afirma um dos frequentadores assíduos do local. “Quando eu decidir parar de vez, vou doar tudo isso para alguma biblioteca”, promete Topan. Hoje, o que é mais procurado são gibis e publicações sobre romance, aventura ou suspense. “Eu, por exemplo, gosto bastante de terror e suspense. Chego a ler pelo menos dez livros por ano. Eu só mantenho aqui aberto até hoje porque é uma paixão”, comenta.

A sensação é de dever cumprido

Celso Barbosa da Silva, 52, também mantém um sebo na cidade, este na rua Dom Antonio Alvarenga, 123, também no Centro. Mudou-se para o atual endereço há quatro anos, mas está há mais de 15 anos atuando no segmento. Embora trabalhe de segunda a sexta-feira, das 7h à 19h, ele, de vez em quando, chega a abrir aos domingos. “Sinto falta de vir para cá, por incrível que pareça”, conta. Assim como Topan, reconhece os percalços e confessa que “só dá para manter o aluguel e as contas”. Acredita, porém, que o verdadeiro valor está no que é proporcionado aos clientes. “Quando alguém vem e não encontra algo, fico muito chateado. Mas, se encontro, é sensação de dever cumprido”, explica, enquanto exibe com carinho “Amazonia”, de Lúcio de Castro, datado de 1963.

Sebos resistem ao tempo e às novidades
Celso atua há mais de 15 anos no segmento e chega abrir aos domingos. Crédito da foto: Fábio Rogério

Segundo Celso, a clientela já está bem definida, mas não há um perfil específico, mesmo sabendo que grandes pedidas são clássicos da literatura, escritos por Machado de Assis, Fernando Pessoa, Jorge Amado, entre outros. Há a possibilidade de comprar algo a partir de R$ 3. Apesar de algumas preferências, por não vender apenas livros antigos em meio às cerca de 15 mil publicações, pessoas mais jovens também passam por lá. “Tem uma ‘molecada’ que vem atrás de mangá, histórias em quadrinhos e filmes.”

Da agricultura a um grande acervo

Eliane Rosotti Navarro, 47, é a proprietária de um sebo na rua São Bento, 313, no Centro. Não está há tanto tempo no mercado quanto Topan e Celso: as portas se abriram em 2011. Mas administra um espaço maior, com milhares de livros, entre novos e mais antigos. “Mas a quantidade de novos é muito pequena, só para não deixar de atender alguns clientes”, explica. No local, também abriga gibis, revistas, VHSs, CDs e vinis. “É uma luta diária para conseguir se manter. A gente faz muita promoção, às vezes chega a colocar a preço de custo para manter as portas abertas”, conta ela, que deixou a pequena Primeiro de Maio, no Paraná, de pouco mais de dez mil habitantes, para se aventurar em Sorocaba.

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Elaine saiu do interior do Paraná para montar um sebo, há 8 anos, em Sorocaba. Crédito da foto: Fábio Rogério

Elaine e o marido trabalhavam como agricultores na cidade paranaense até decidirem se mudar. “Não sabia como seria, foi um ‘tiro no escuro’. Mas eu agradeço muito a população de Sorocaba, pois fomos muito bem recebidos”, cita. A força da internet, segundo ela, é um dos grandes “problemas” para as pessoas sustentarem o hábito da leitura. “A gente sabe que não é todo mundo que lê. Então a gente depende muito dos pais e familiares incentivando os filhos a gostar da leitura. E nós, que mantemos sebos, dependemos de que as pessoas não fiquem presas só nas novidades. Têm livros antigos muito bons também”, enfatiza.

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