Santa Rosália: de vila operária a bairro nobre em Sorocaba

Por Ana Claudia Martins

As primeiras casas foram construídas no entorno da fábrica. Crédito da foto: Reprodução

Caracterizado inicialmente como residencial, o bairro sofreu mudanças ao longo aos anos. Crédito da foto: Emídio Marques (7/9/2019)

O Jardim Santa Rosália é um dos mais tradicionais bairros de Sorocaba, com quase 130 anos de história. Tudo começou em 1890 com a construção da fábrica de tecidos Santa Rosália, que deu origem e nome ao bairro, inicialmente vila operária.

Com três a quatro ruas e cerca de 250 casas, todas iguais, destinadas as famílias dos operários, a vila nasce influenciada pela arquitetura inglesa por conta dos fundadores da fábrica, que eram ingleses: George Oetterer e Frank Speers. Além das casas, que não tinham rede de esgoto ou água encanada, a vila ganha as sedes da Congregação Mariana e a antiga igreja de Santa Rosália.

Já nas últimas décadas do século passado, o bairro ficou caracterizado por ser de alto padrão e basicamente residencial. Mas, nos últimos anos, a instalação de diversos empreendimentos comerciais, incluindo um shopping center (já fechado), praticamente transformou a rotina de Santa Rosália com impacto no modo de vida, principalmente, de seus antigos moradores.

Atualmente, por conta da falta de segurança, muitos moradores se mudaram do bairro para condomínios fechados ou para apartamentos. Foi o que fez de forma definitiva a publicitária Fernanda Palma Neves, que morou 40 anos no bairro em três endereços diferentes. “Passei minha vida toda ali. O bairro era 100% residencial e considerado bairro nobre de Sorocaba. A praça linda, com o coreto impecável e as árvores e plantas muito bem cuidadas”, lembra.

O coreto na Praça Pio XII é o cartão-postal e quase um patrimônio da cidade. Crédito da foto: Emídio Marques (7/9/2019)

O coreto citado pela ex-moradora Fernanda é praticamente o cartão-postal de Santa Rosália e quase um patrimônio da cidade pela enorme quantidade de histórias e lembranças vividas naquele local por muitos moradores não só do bairro, mas de muitas outras localidades. Situado na Praça Pio XII, que foi revitalizada em maio deste ano pela Prefeitura de Sorocaba, o local, no coração do bairro, é um convite ao passado.

O histórico coreto, construído na década de 1930, foi revitalizado tanto na pintura quanto na cobertura, deixando a praça ainda mais bonita. Charmosa e clássica, a praça em estilo inglês e com piso de pedra portuguesa continua sendo palco para descanso, contato com a natureza e momentos de contemplação, além de cenário de lembranças e construção de novas histórias. Atualmente, o coreto da Praça Pio XII é o único na cidade.

A ex-moradora conta que a saída final do bairro ocorreu em 2018, embora a família ainda tenha casa em Santa Rosália. “Fomos em busca de um local com mais segurança para minha mãe após o falecimento de meu pai. Nós, os filhos, já tínhamos saído antes, cada um com sua vida, estudo, trabalho. Santa Rosália faz parte da minha história, minha infância e minha adolescência. Cenário das mais doces lembranças ao lado de meu pai que sempre amou o bairro e dizia que nunca sairia de lá, e realmente nunca saiu”, diz.

Fernanda afirma ainda que “as melhores lembranças são da casa dela ao lado do pai, quando as azaléias começavam a florescer em agosto na frente da residência e a chamava para ver como elas estavam lindas.”Também sinto saudade dos momentos brincando na rua com amigos ou na casa dos vizinhos. Lembro também que há bem pouco tempo eu levava meu pai para caminhar na Praça Pio XII, e ele cumprimentava alguns moradores do bairro que ele conhecia de uma vida inteira. Depois sentávamos num banco em frente ao coreto e ríamos muito nas nossas conversas”, diz saudosa.

Bairro cresceu e se expandiu no entorno da antiga fábrica têxtil

Em dezembro de 1940 a fábrica de tecidos é vendida para o empresário Severino Pereira da Silva, que realiza novos investimentos e consequentemente promove a expansão da então vila de operários.

O local ganha mais casas, ginásio, posto de abastecimento do Sesi, novo estádio do time de futebol Fortaleza Club, Hospital São Severino (atual Policlínica), e a remodelação da Praça Pio XII.

Antiga igreja e congregação. Crédito da foto: Reprodução

Antes disso, em 1925, o bairro ganhou o grupo escolar de Santa Rosália e um ano antes a escola maternal. Já em 1950, o bairro ganha o Cine Santa Rosália, palco onde passaram diversas apresentações de teatros, além da exibição de filmes.

Em 1953, o prédio da Escola Senai inicia seus trabalhos na avenida Pereira da Silva, onde atualmente funciona o Saae. Já a pedra fundamental do Estádio Municipal Walter Ribeiro (CIC) foi lançada em 1968. A partir de 1970 a então fábrica, que era de responsabilidade da Cianê, começou a vender todas as casas e terrenos que pertenciam à empresa no bairro.

Aos 92 anos de idade, Severino Pereira da Silva falece e suas fábricas são fechadas. A Santa Rosália deixa de funcionar em 1994, e em 1997 inicia-se o processo de tombamento do prédio, onde em 2005 foi instalado nas dependências do prédio desativado o Hipermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar.

Atualmente nem todas as construções citadas acima existem mais no bairro e outras ganharam outra finalidade. O bairro ganhou novas escolas, estaduais e municipais, o quartel da 14ª Circunscrição de Serviço Militar, a Praça da Amizade, uma unidade escolar do SENAI, entre outros.

Além da variedade de comércios que se multiplicaram por Santa Rosália, especialmente na avenida Pereira da Silva, onde muitas casas viraram empresas, dos mais variados segmentos: padarias, sorveteria, doceria, lanchonete, quitanda, pizzaria, farmácia, escolas particulares, lojas de roupas, empresas de serviços, entre outros.

Moradores sentem falta da tranquilidade e segurança

Os antigos moradores que ainda permanecem residindo no bairro sentem falta dos tempos antigos de Santa Rosália, onde a tranquilidade reinava. É o caso de Reinaldo Stevaux, 62 anos, que nasceu no bairro e continua morando lá até hoje.

As primeiras casas foram construídas no entorno da fábrica. Crédito da foto: Reprodução

Ele lembra do tempo que brincava na rua com os amigos em um campo de futebol de terra batida e ia até a beira do rio Sorocaba. “Era uma tranquilidade o bairro. A avenida Pereira da Silva nas tardes de domingo virou o ponto de encontro dos jovens e muitas pessoas de outras partes da cidade passavam por aqui no início dos anos 80”, lembra.

José Carlos de Oliveira, 78 anos, mora no bairro há 45 anos, no mesmo endereço: a famosa avenida Pereira da Silva. Ele coleciona fotos antigas do bairro e conta que chegou a trabalhar por um ano na antiga fábrica Santa Rosália.

Oliveira conta que viveu a transição da vila operária para o bairro Santa Rosália e que sente saudade da época tranquila, quando algumas ruas ainda eram de terra. “Eu tinha um colega que gostava de tirar fotos do bairro e guardei grande parte delas. Apesar de tudo, gosto muito de Santa Rosália. Com a chegada do comércio facilitou porque antigamente não tinha praticamente nada. Melhorou bastante e o bairro é bem localizado”, diz.

Assaltos preocupam

A saída de muitos moradores e o avanço comercial do bairro deixou os que ficaram em Santa Rosália mais vulneráveis em relação à segurança e os assaltos têm sido frequentes nos últimos anos na região.

Por conta disso, moradores e comerciantes utilizam dois grupos de mensagens por aplicativo no celular para alertar sobre ocorrências e pessoas suspeitas e imediatamente chamar a Polícia Militar.

O tutor dos grupos é o morador Roberto Devisate Rodrigues, 62 anos, que organiza o chamado “Vizinhança Solidária”, juntamente com a Polícia Militar para aumentar a segurança em Santa Rosália.

Ele conta que existem muitas casas fechadas que estão para alugar ou vender. Aos finais de semana e à noite muitas ruas são mais desertas e quase sem movimento porque o bairro está bastante diversificado, com vocação mais comercial. “Há pessoas em situação de rua que acabam batendo nas casas e pedindo comida, ou invadem imóveis desocupados e ainda indivíduos que praticam furtos e roubos. Infelizmente não é uma realidade só de Santa Rosália, mas de diversos bairros. O que mostra que é um problema social que atinge praticamente todas as cidades”, diz. (Ana Cláudia Martins)

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