Sorocaba e Região

Ruth é um exemplo de pioneirismo e tenacidade

Ela foi a primeira mulher a atuar na Delegacia Regional de Polícia de Sorocaba
Ruth mudou-se para Sorocaba aos 29 anos – Foto: Emidio Marques

Ruth Silva Osório nasceu em 8 de março de 1927, algumas décadas antes da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) instituir oficialmente e popularizar a data como Dia Internacional da Mulher em 1975. Seu pioneirismo e tenacidade, no entanto, são representativos da força que a data evoca. Aos 92 anos, após uma frutífera e pioneira carreira e a formação de uma família, ainda esbanja iniciativa e comprometimento a uma especial missão: o envio de mensagens cristãs pelo correio. Já foram mais de 19 mil mensagens para 602 destinatários.

Nascida em Cândido Mota, viveu em São Paulo e mudou-se para Sorocaba aos 29 anos quando o marido Romeu Pires Osório chegou ao município para implementar a Associação Cristã de Moços (ACM). Na época, já trabalhava na Secretaria de Segurança Pública e pediu a transferência para a cidade, se tornando a primeira mulher a atuar na Delegacia Regional de Polícia de Sorocaba. Por muitos anos, foi responsável pelos serviços de trânsito, como exames e documentação.

O ambiente era formado por delegados, investigadores e carcereiros, todos homens. “Realmente me assustei um pouco. Não estava esperando aquilo. Pensei ‘será que vou dar conta?’, ‘será que vai ser bom?’”, recorda. Ela ressalta, no entanto, que foi acolhida com o mais absoluto respeito. “Fui muito bem recebida, os colegas de trabalho me apoiaram muito”, diz. No papel de primeira mulher, fez questão de ser um exemplo de competência. “Acho que a pioneira tem de fazer a coisa bem feita para ser lembrada com satisfação”, afirma. Ela reconhece, no entanto, que na época não tinha dimensão da representatividade de seu pioneirismo.

Em casa, o período de consolidação da empreitada do marido teria sido de muito trabalho para a família, que veio a Sorocaba com os dois filhos pequenos, Ruth Cristina e Romeu-Sérgio. “Eu sustentava a casa, pois naquele tempo ele não recebia”, recorda. A ajuda de familiares, dos amigos da ACM e da Igreja Presbiteriana teriam sido essenciais.

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Apesar das muitas tarefas no trabalho e em casa, recorda com carinho dos esforços empreendidos pelo casal. “A gente fazia com gosto”, diz. O sucesso da ACM foi, então, uma conquista de toda a família, tendo se tornado na época a maior ACM da América do Sul, de interior, com piscina aquecida.

Após 30 anos de trabalho, dona Ruth, como é conhecida, se aposentou. Contudo, não diminuiu sua disposição de ser útil ao outro. Ela recorda que durante um grupo de estudo bíblico, a professora contou uma história que ilustrava a importância de se falar sobre o evangelho aos não convertidos. “Ela queria que a gente falasse do Evangelho para uma pessoa de fora”, conta. O problema, no entanto, era sua timidez em abordar desconhecidos. A professora então sugeriu: por que não enviar cartas?

“Esse ano vai fazer 26 anos que faço esse trabalho sem parar. Comecei no dia 25 de junho de 1993”, conta. Hoje frequentadora da Igreja Presbiteriana do Calvário, seleciona mensagens inspiradoras e envia para pessoas indicadas por conhecidos. Aqueles que por um motivo ou outro estejam precisando de um acalento. Ruth anota meticulosamente em cadernos os nomes, endereços e o título das mensagens enviadas ao longo dos anos.

A motivação para esse trabalho é explicada citando uma passagem que fala sobre a generosidade. “Tem um versículo na Bíblia que diz assim: Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás”, diz. Recorda ainda de outro escrito que a motiva: “Sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão”.

Todos os dias lê o jornal Cruzeiro do Sul — talvez seja uma das mais tradicionais leitoras do Jornal — em especial os artigos, e mantém uma memória invejável conseguindo citar o aniversário de toda família (dois filhos, dois netos e três bisnetos), além de uma porção de datas especiais ligadas ao número 8. “Nasci no dia 8, meu marido nasceu no dia 8 de novembro, fiquei noiva no dia 28 de março, me casei no dia 19 de novembro às 18 horas, o registro no livro de casamento civil foi 8.000, me aposentei no dia 8 de dezembro. Só não tive oito filhos”, brinca. O segredo para chegar assim aos 92 anos? Ruth conta manter-se firme em seus valores, evitando o que acredita não contribuir positivamente.

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